O Brasil não é um país nazista

Nazismo e fascismo não podem ser relativizados, apequenados, ditos como se fossem termos corriqueiros.

Alberto David Klein, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 03h00

Nazista. Fascista. Genocida. Essas palavras não são simples substantivos ou adjetivos a serem usados de modo banalizado. Tampouco holocausto! No entanto, tem sido crescente o emprego delas por nomes de grande respeitabilidade e produção científica para classificar personagens e tentar explicar o que acontece na política brasileira nestes dias. Este artigo não tem o propósito de defender ou atacar qualquer político ou intelectual, mas, sim, quer esclarecer à sociedade brasileira o perigo de igualar um dos grandes males da humanidade a outros sem a envergadura comparável.

Rigorosamente, nada do que acontece no nosso país tem semelhança com o ocorrido na Europa nos anos 1920, 1930 e 1940, com o ódio que ceifou a vida de mais de 6 milhões de judeus e mais de 11 milhões de pessoas das gerações que vivenciaram os processos desencadeados por nazismo e por fascismo. Os genocídios e o holocausto são situações ímpares, incomparáveis em vista do processo histórico da Europa naquele período, e não guardam a menor correlação com o Brasil e com o nosso cotidiano.

O que cabe é a reflexão de que sempre fez parte da política e do marketing político se apropriarem de simplificações para gerar simpatia, antipatia, atrair ou causar repulsa, buscar o voto. Trabalhar o medo e a esperança em uma balança que envolve todos numa gangorra emocional. O problema é que comparações forçadas distanciam a população do real debate a ser feito. A polarização política nos alija de buscar soluções para as mazelas a serem enfrentadas pelos brasileiros. O pior efeito colateral dessa disputa é o apagamento de valores intangíveis sobre o direito inalienável à vida, bem maior.

A grande dor, a questão-chave, é que o uso indiscriminado de palavras e de tudo o que cerca o holocausto traz o desrespeito ao mais sagrado em todos nós, a nossa humanidade. Tivemos capacidade de registro, de denúncia explícita, de reflexão e de julgamentos em relação ao nazismo, ao fascismo e suas perversidades. Por isso a conceituação deles é relevante, bem como o entendimento de que resultaram em crimes contra a humanidade. Referir-se a eles é tratar de elementos específicos e de uma gravidade extrema.

Perdemos mais de 600 mil vidas para a covid-19. Uma dor indizível! Todos os que se foram merecem nossas preces e suas famílias enlutadas, o nosso respeito. Temos empobrecimento e fome nas nossas cidades porque a economia vai mal e o desemprego é imenso. No Rio de Janeiro, os morros estão conflagrados por conflitos entre traficantes, milícias e policiais. Mesmo com este estado deletério, não há como estabelecer associação direta com o que fizeram Hitler e Mussolini, de modo obstinado e intencional. Aqui, temos processos históricos próprios do Brasil.

Recontar a história dos nossos antepassados europeus, ensejando minimização dos fatos, faz as gerações do presente e as futuras esquecerem as atrocidades daquele período, que assim foram nominadas para não serem apagadas ou varridas das consciências no mundo todo.

O ódio aos judeus é anterior ao nazismo e potencializado por ele. Resultou de um processo de construção secular de raiva, incitação à dominação e à iniciativa de aniquilar quem se odiava. O antissemitismo era plataforma do partido nazista. O programa do partido já dizia que nenhum judeu era cidadão alemão. Essa ideologia pregava a raça superior e excluía desse contingente, além de judeus, os negros, os ciganos, as pessoas com deficiência, os homossexuais, as testemunhas de Jeová. Pelos nazistas, essas pessoas eram consideradas párias, ratos a serem exterminados. É bárbaro ter de escrever assim. Choca. Machuca. Contudo, é a verdade.

Será que os discursos que permeiam as falas dos políticos brasileiros – por péssimos que sejam – levarão a cabo o ódio para um extermínio em massa de judeus, de negros, de homossexuais, de pessoas com deficiência ou de outros desafetos, promovendo genocídios à luz do dia neste país? Faço parêntese sobre a questão dos massacres indígenas, destacando que são um outro fenômeno e que a Nação precisa enfrentá-los efetivamente.

Haverá quem diga que as imagens anteriormente reportadas são as mais extremas possíveis e que não se trata de nada disso, e sim de que o “nazismo e o fascismo atuais” compreendem outras facetas. É justamente o que este artigo vem denunciar: são falácias! Nazismo e fascismo não podem ser relativizados, apequenados, ditos como se fossem termos corriqueiros. As situações do nazismo e do fascismo não podem ser recriadas, adaptadas à sociologia brasileira, porque a analogia é perversa, desconstrói o passado e não traz ensinamentos aos jovens.

Não é sob mentiras que construiremos uma nação mais humana, menos desigual e realmente democrática. Temos de fazer, objetivamente, o debate sobre a política brasileira, suas exclusões sociais e como solucioná-las. Dar às coisas e situações o nome que têm. E se não têm? Analisar o contexto e conceituá-las, em pleno exercício de honestidade intelectual. Nada mais. Essencialmente, o Brasil e os brasileiros não são nazistas.

*

PRESIDENTE DO MEMORIAL ÀS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO – RIO DE JANEIRO, É PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO ISRAELITA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (FIERJ)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.