O Brasil, o trigo e a guerra na Ucrânia

A Embrapa pode contribuir para uma nova mudança de paradigma no agro: passar de importador a exportador de trigo.

Celso L. Moretti, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2022 | 03h00

Consequências da guerra na Ucrânia atingirão praticamente todo o mundo, com ressonância em quase todos os setores da economia. O conflito entre Rússia e Ucrânia já compromete embarques de fertilizantes e de outros produtos, agrícolas ou industrializados. O agro brasileiro depende dos fertilizantes daquela região, e, no ano passado, o Brasil importou 85% dos 43 milhões de toneladas de fertilizantes consumidas. É uma dependência perigosa num setor responsável por mais de 25% do PIB nacional e um dos poucos (se não o único) com resultados positivos e consistentes ao longo dos últimos anos. Soja, milho, cana-de-açúcar e algodão consumiram mais de 75% do adubo importado. Somente Rússia e Belarus, país vizinho ao conflito, são responsáveis por 50% do potássio comprado pelo Brasil. É muito provável um impacto no preço dos alimentos.

Grande produtor de soja, milho, etanol, biodiesel, suco de laranja e proteína animal, o Brasil importa trigo, que, por sua vez, é o ingrediente principal do pão de sal, do biscoito, do macarrão e de uma série de outros alimentos. Além disso, é a principal fonte de calorias em mais de 80 países. Diferentemente das outras grandes commodities agrícolas, como soja e milho, mais de 70% do trigo são destinados à alimentação humana. É o segundo cereal em consumo humano no mundo, atrás do arroz.

Os preços do trigo tendem a aumentar, pelos custos associados aos dos fertilizantes, já numa espiral crescente em razão da crise energética na China, e pela dificuldade em importá-lo da região em guerra. Rússia e Ucrânia representam, juntas, cerca de um terço do trigo exportado no mundo. O Brasil é o sétimo importador mundial de trigo e compra ao redor de 6 milhões de toneladas anualmente.

Mas há boas notícias. Em uma década, a qualidade do trigo nacional passou por uma revolução, com participação direta da indústria moageira, das cooperativas e dos obtentores de cultivares. Isso atendeu à demanda de diferentes tipos de farinha e levou ao reconhecimento da qualidade do trigo brasileiro. O trigo tropical chega a ter 15% de proteína.

As políticas públicas são fundamentais para a triticultura brasileira, porém não existe uma solução mágica. Ações emergenciais, com efeitos a longo prazo, poderão minimizar o “custo Brasil”, com o incremento da produção em novas regiões e ajustes nas regiões tradicionais, com melhoria na logística, impostos equilibrados e incentivos aos setores envolvidos, da produção à pós-colheita. As regiões tradicionais de cultivo – Paraná e Rio Grande do Sul – enfrentam dificuldades para expandir a área de trigo. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), junto com o setor privado, lidera a expansão de área e o aumento da produtividade do trigo tropical. Minas Gerais e Goiás expandiram em mais de três vezes a área cultivada entre 2012 e 2020, e ultrapassaram 100 mil hectares nos últimos anos. Experimentos da Embrapa e parceiros comprovam o potencial de produção de trigo tropical em Estados do Norte e do Nordeste, como Roraima e Ceará. Algo inimaginável há pouco tempo. É o resultado da capacidade científica de adaptar o trigo às condições tropicais brasileiras. Os desafios de pesquisa são permanentes e demandam soluções de manejo, genética competitiva, redução do custo de produção, qualidade tecnológica industrial e superação de gargalos logísticos.

A produtividade aumenta constantemente. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, na década de 1990, a média de produtividade no Brasil foi de aproximadamente 1,5 tonelada por hectare (t/ha). Na década de 2000, chegou a 2,5 t/ha, um crescimento de quase 70%. As melhores lavouras superam facilmente 5 t/ha em todas as regiões produtoras. No Cerrado, sob irrigação, utilizando variedades da Embrapa, como a BRS 264, produtores atingem mais de 9 t/ha, como é o caso de um produtor de Cristalina, em Goiás, que colheu 9,63 t/ha em 2021, recorde mundial de produtividade.

As últimas duas décadas consagraram o Brasil como grande exportador de alimentos. O País é uma das maiores potências agroambientais do mundo. Alimenta mais de 800 milhões de pessoas e protege ou preserva 2/3 do seu território na forma de matas e florestas nativas, o equivalente a 23 vezes a superfície do Reino Unido, 9 vezes a da França e 9,3 vezes a da Ucrânia. Tempos de guerra relembram a importância da segurança alimentar e a necessidade de redução da dependência externa de alimentos, como é o caso do trigo. De modo a aumentar a resiliência em tempos de crise, o Brasil deve ser capaz de expandir sua produção.

A Embrapa, com base em estudos de zoneamento agrícola, adaptação e manejo da cultura e análises geotecnológicas, estima ser possível produzir anualmente até 22 milhões de toneladas, o que triplicaria a produção e tornaria o Brasil um dos dez maiores exportadores de trigo. A expansão se dará, sobretudo, sem necessidade de desmatar um milímetro quadrado de vegetação nativa. O Brasil conta com tecnologia e produtores capazes de produzir mais trigo. O setor produtivo brasileiro, quando chamado, sempre respondeu e responderá novamente. A Embrapa pode contribuir, mais uma vez e de forma decisiva, para uma nova mudança de paradigma no agro brasileiro: passar de importador a exportador de trigo. Estamos prontos.

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PRESIDENTE DA EMBRAPA

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