O Brasil precisa respirar

Neste momento tão crítico, temos de juntar nossos esforços pelo futuro do País

Paulo Chapchap, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 03h00

Estamos há cerca de um ano imersos numa crise sanitária de gravíssimas proporções, com mais de 295 mil mortos pela covid-19 no Brasil até agora. O novo coronavírus não poupou nenhuma região do País. Na virada do ano vimos um recrudescimento da pandemia em algumas regiões do País, especialmente na Amazônia, onde faltam equipes de saúde, insumos e leitos para lidar com a sobrecarga sanitária. Em poucos meses, contudo, essa realidade se repetiu em outros Estados e hoje temos um cenário que tanto tentamos evitar: faltam leitos para atender todos os que precisam.

Temos de aprender com as experiências do que já vivemos, como a do Amazonas, para podermos responder mais rapidamente às demandas que temos hoje. As populações dos Estados da Amazônia foram acometidas de forma bastante severa. Há um conjunto de fatores que ajuda a explicar, em parte, essa difícil situação. Muitos desses fatores foram evidenciados pela experiência do Todos pela Saúde na região, que iniciou suas atividades em abril de 2020. Foram montados gabinetes de crise em todos os Estados como parte desse movimento, que permaneceram em funcionamento até outubro do mesmo ano, quando o número de casos já arrefecia. Em janeiro, com nova crise instalada, o Todos pela Saúde retornou à região, a pedido do Ministério da Saúde, para auxiliar nos esforços de preservação da vida.

Dentre os fatores que explicam esse cenário na região, há um que é irremissível: a topografia local é um agravante no combate à pandemia. Municípios com mil quilômetros de distância entre si e grande dificuldade de acesso tornam muito mais demorada e complexa a distribuição de materiais, equipamentos médico-hospitalares e oxigênio. Por isso uma das medidas que adotamos para que municípios tenham acesso mais rápido a equipamentos e insumos, e para terem maior autonomia, foi a instalação de cinco usinas concentradoras para produção de oxigênio na região.

Outro fator é a falta de infraestrutura do sistema de saúde local diante das necessidades de populações que vivem em situação de extrema pobreza. Em termos per capita, o aporte feito pelo Todos pela Saúde ao Amazonas e a Roraima para a compra de equipamentos de proteção individual (EPIs) e equipamentos médicos, entre outros insumos, foi duas vezes maior que o destinado ao restante do País. A essas condições se soma ainda a pressão de uma crise humanitária de refugiados em Roraima, cujo hospital de campanha montado em Boa Vista também recebeu apoio do Todos pela Saúde para se tornar viável.

A pandemia afetou mais criticamente os Estados que já tinham problemas estruturais, de forma que o estresse adicional na demanda provocado pela covid-19 levou os sistemas locais de saúde ao colapso. Já se sabia que esses sistemas não tinham ociosidade para receber a sobrecarga de uma pandemia. Diferentemente de cidades de outros Estados, o Amazonas e Roraima não foram rápidos na montagem de hospitais de campanha e na oferta de leitos extras para os hospitais já existentes. Da mesma forma, a falta de oxigênio que penalizou duramente a população doente de Manaus e suas famílias poderia ter sido evitada ou minimizada, uma vez que dados públicos sobre a curva de demanda já indicavam que a quantidade disponível desse insumo seria insuficiente para atender aos hospitais.

Por outro lado, é importante ressaltar, instituições não governamentais que atuam há muito tempo na região foram e têm sido fundamentais para o enfrentamento da crise sanitária. O trabalho realizado por organizações como Médicos sem Fronteiras, Acnur (agência da ONU para refugiados) e Fundação Amazônia Sustentável, que conhecem profundamente as particularidades locais e com os quais atuamos nos últimos meses, ajudou a evitar que essa tragédia nacional se tornasse ainda mais grave.

É preciso usar o conhecimento adquirido nesses enfrentamentos para sairmos da situação atual. Estamos vivendo replays de momentos críticos nos sistemas de saúde do Brasil. Temos de olhar as datas para ter a certeza de que não estamos lendo uma notícia do que aconteceu anteriormente. É inaceitável que depois de mais de 12 meses tenhamos de implorar para as pessoas não se aglomerarem.

Precisamos focar esforços no que vai trazer resultados: informação para criar modelos preditivos e planos de ação para que não faltem leitos, equipes, medicamentos. Temos de melhorar a gestão e preparar contingências para evitar a falta de insumos básicos, como oxigênio. O momento agora é de fazer todos os esforços necessários para preservar a vida. Mas não podemos deixar de fazer o planejamento para sairmos desses replays. Para superar este momento crítico precisamos de políticas públicas mais restritivas e comunicação mais objetiva, reafirmando o importante papel de cada indivíduo em ajudar a evitar a transmissão. Num exemplo claro do que foi a iniciativa Todos Pela Saúde, temos de juntar nossos esforços pelo futuro do nosso país.


DIRETOR-GERAL DO HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS, É LÍDER DO CONSELHO DE ESPECIALISTAS DO TODOS PELA SAÚDE

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