O Brasil tem fome de quê?

Privação e sofrimento já são expectativas perenes para metade da nossa nação

*Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 03h00

As realidades pessoais, especialmente econômicas, podem ser absolutamente distintas e dois ou três quarteirões podem separar sobrevivências amparadas por cestas básicas de outras em que iguarias e bebidas numa só refeição custam alguns salários mínimos.

Saudável para um número enorme de lares é conceito determinado pela ausência de fome e muito bem estabelecido se o consumo alimentar for ao menos três vezes ao dia. Desse lado do muro, na maioria das vezes o artigo que resolve a questão responde pelo nome de comida e o “combo” pode conter qualquer casta de digeríveis saciantes.

Em todas as mídias observamos boas matérias acerca da “institucionalização” dos deliveries de alimentos, agora muito além do fast-food, dada a inclusão de restaurantes de envergadura qualitativa com suas opções, em amplificação e ampliação causadas pelas ações no contingenciamento da pandemia de covid-19. Mais alvissareiras são as reportagens observando famílias com pais e filhos novo(a)s chefs de cuisine e suas refeições partilhadas por todos à mesa.

Seja qual for a lente captando o inusitado cotidiano atual, as preocupações projetadas são a transgressão calórica, a rédea perdida da boa forma ou questionamentos mais cerebrais conjecturando o saldo psíquico e comportamental quando o isolamento social for completamente descontinuado.

Porém quase metade da população brasileira é de famílias, com média de três integrantes, agraciadas com 0,8% da renda do País, que custeia sua existência com menos de dois salários mínimos por mês, quantia responsável por albergar, assear, vestir e alimentar incontestes gênios da economia que encontram métricas para seguirem vivos. São muitos em inúmeras funções que podem não ter garantido nenhum rendimento se lhe faltam o trabalho ou a força para exercê-lo.

Na mesma análise os dados oficiais informam 10% dos brasileiros detendo por volta de 40% da renda nacional, enquanto os dois universos citados estão separados por um grupo intermediário, classificado formalmente como classe média, esta, porém, claramente dividida em alguns escalões. À parte, mas não desatentos, estão gestores de enormes agregados financeiros atuantes em vários segmentos, os quais afrontam cientistas e desdenham de números de óbitos em justificativas ancoradas na fome e miséria vindouras com a retração econômica pós-pandemia.

Como já dito, privação e sofrimento já são expectativas perenes para metade de nossa nação, nessa substancial fração populacional o medo da carência extrema é e sempre foi infinitamente maior que a preocupação com outras ameaças de qualquer natureza, que incluem enchentes, desmoronamentos e tantas mazelas contagiosas.

Então, é para o grupo intermediário, ao qual pertenço, que a maior parte dos recados é endereçada, sejam observações para nosso deleite e introspeção, ou os estratégicos cutucões de quem timoneia o barco da engrenagem financeira. Mas, por aqui, quando tratamos de coisas sérias estamos discutindo se o medicamento é usado para prejudicar o governo estadual ou não está sendo prescrito para atrapalhar o federal. Já definimos também que a ousadia de não usar máscara afirma com louvor a bandeira política que defendemos, enquanto abordar a ciência perante discussões sobre a pandemia de covid-19 expõe o marxista que nos habita.

É desalentador imaginar que essa catástrofe não nos faça pensar nada além do nosso umbigo e quando nos apartamos dos ranços ideológicos o que fazemos é continuar destilando possibilidades para o “novo normal”. Imaginamos a perpetuação do home office, das reuniões em plataformas virtuais, motoboys cruzando a cidade para nos representarem em gôndolas de supermercados, balcões de farmácias e restaurantes. Cenários futuros para “nós”.

Se compomos os 90 milhões do grupo entre os extremos, somos ao menos 60 milhões de interlocutores entre as duas verdades. Passa da hora de assumirmos nossa parcela na indispensável mudança que não impede a contemplação de hábitos novos, mas não permite continuarmos enxergando metade do País como fonte de nossos serviçais.

O plano mitigador dos inevitáveis danos da pandemia precisa negar o mergulho no escuro proposto pelos detentores do caixa, mas impõe a humildade de solicitar-lhes as luzes para clarear os caminhos de uma reconstrução real. As compassivas doações bilionárias de várias instituições mantêm nossos reféns no jogo, mas não mudam suas perspectivas.

Entre tantos deveres, fica a cargo do poder público providenciar urgentemente redes de esgotos, água potável e educação de base de alta linhagem; para a livre-iniciativa, a inclusão para além da excludência, lembremos que o escalonamento produtivo de ínfimos custos, na ausência de mão de obra humana com boa remuneração, caminha a passos rápidos para um mercado de extraordinárias ofertas sem ninguém com recursos para consumir.

Muito mais que um novo normal, precisamos de uma nova fome, a saciada por mudanças que melhorem a vida de todos.

*DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

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