O brasileiro, o alemão e o austríaco

O confronto entre Heidegger e Wittgenstein, segundo J. A. Giannotti.

Marcelo Carvalho, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 03h00

A distância que separa Heidegger e Wittgenstein, dois dos principais nomes da filosofia do século 20, é enorme. O primeiro foi reitor em Heidelberg, simpatizante do nazismo (ao menos no início dos anos 1930) e autor de uma vasta obra publicada em vida. Wittgenstein desprezava a vida acadêmica e indicava a quem lhe pedia conselhos que seguisse por outro caminho. Ele próprio planejou, nos anos 1930, abandonar a filosofia (pela segunda vez) e ir trabalhar na União Soviética. Publicou em vida apenas um livro e um artigo.

Heidegger e Wittgenstein se leram, ainda que pouco, e se criticaram. Seus trabalhos filosóficos parecem originários de mundos e culturas distintos. O nome deles, entretanto, se encontra lado a lado em qualquer lista dos filósofos mais relevantes e influentes do século 20. A relação entre essas obras tão díspares é o tema do livro mais recente publicado por José Arthur Giannotti, Heidegger/Wittgenstein: Confrontos.

O diálogo se faz ainda mais intrigante pela presença da sombra de uma terceira obra, que se situa na origem efetiva da reflexão que Giannotti tenta agora levar a algum termo: O Capital, de Marx, tema de Trabalho e Reflexão, livro central em sua produção e no debate filosófico brasileiro. Sem perder o horizonte da leitura cuidadosa dos autores a que se dedica, o que conduz Giannotti a Heidegger e, sobretudo, a Wittgenstein é sua tentativa de resolver o problema da “contradição real” em que esbarrara, décadas atrás, na leitura de Marx: como poderia uma categoria lógica, a contradição, ser aplicada à realidade?

Heidegger/Wittgenstein: Confrontos se articula em dois momentos claramente demarcados, o primeiro, dedicado a Heidegger e o segundo, a Wittgenstein. Uma grata surpresa oferecida pela leitura do livro está na abordagem de Heidegger a partir da perspectiva de sua subversão da concepção aristotélica de linguagem. Essa perspectiva original e esclarecedora abre um novo flanco de diálogo entre o autor alemão e Wittgenstein. Na apresentação da obra de Wittgenstein, o foco é a “abertura” dos jogos de linguagem e do significado que se constitui por meio deles, que só se definem, sempre de modo provisório, em meio aos nossos usos.

O confronto entre Heidegger e Wittgenstein se apresenta, efetivamente, na maneira como cada um desses filósofos se propõe a enfrentar o “abismo da reflexão contemporânea”: a ausência de um fundamento único, os impasses do modo de produção capitalista, o “inferno metafísico” da sociedade da técnica. Uma parcela central do trabalho de Giannotti consiste em encontrar em obras tão diferentes quanto as de Heidegger e Wittgenstein uma perspectiva radical e relevante para a reflexão sobre a complexidade da nossa experiência.

É contra esse pano de fundo que acompanhamos a revisão das concepções de Aristóteles sobre lógica e a recusa da caracterização da linguagem a partir do marco da representação. No horizonte desse embate filosófico, que se dirige àquilo que permanecia pressuposto e intocado há milênios na tradição filosófica ocidental, se encontra uma crítica radical da razão – não à maneira de Kant, que ajusta e limita a razão de modo a garantir sua potência no domínio que lhe é próprio, mas como simples constatação de que “não há razão”, não há fundamento único ao qual se possa recorrer para sustentar o significado e as regras em meio às quais nossa vida se organiza.

A direção a seguir no enfrentamento dessa ausência é dada, para Giannotti, por Wittgenstein, não por Heidegger: a explicitação de que a indeterminação dos jogos de linguagem é incontornável e estruturante do fluxo da linguagem redefine os termos em que se coloca o debate sobre necessidade, conhecimento e certeza. As regras estão na práxis, não são anteriores a ela. E, então, as palavras “só têm significado no fluxo da vida”. De modo semelhante, a crítica ao conceito de representação encontra sua contrapartida na concepção wittgensteiniana de “ver como”, em que o representar se concebe de maneira situada, constituindo-se, como o significado das palavras, em meio a jogos de linguagem.

Contra o pano de fundo da ruptura radical descrita por Giannotti, causa certa estranheza sua opção pela manutenção do vocabulário da ontologia, ou da contraposição entre interioridade e exterioridade do sujeito. Do ponto de vista de Wittgenstein esses conceitos parecem vestígios das concepções de necessidade e de representação que se propõe superar.

Seguindo a trilha apontada pela resposta wittgensteiniana nos deparamos, surpreendentemente, com um esquema para que se pense a relação entre lógica e vida e, com ela, a “contradição real” que Giannotti tematiza desde Trabalho e Reflexão. No lugar em que já se pretendeu apontar para uma racionalidade que se dá por si e que regula o mundo e a vida, não encontramos mais do que uns aos outros, nossas ações, os jogos por meio dos quais constituímos significado.

Não nos resta senão lidar com nossas dificuldades a partir de nós mesmos.


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DOUTOR EM FILOSOFIA PELA USP, PROFESSOR DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA DA UNIFESP, É PESQUISADOR NA ÁREA DE FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM

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