O caos da pandemia ampliou o pandemônio

O contágio é um assassino oculto que nos espreita em qualquer lugar

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 03h00

A pandemia transformou o mundo numa ilha cercada de caos em plena fermentação por todos os lados. O fermento se expande, fazendo com que nós, humanos, a cada dia sintamos menos terra firme. A continuar assim, em poucos anos não teremos sequer onde pisar e tudo será um pantanal a nos afundar na lama mortal. Escrevo “anos” porque nada sabemos sobre o fim da peste, tal qual ignoramos quase tudo do seu exato início.

O aumento dos casos de covid-19 em São Paulo e pelo País inteiro é muito mais do que um dado estatístico, essa tal MMM – “média móvel de mortes”. É aterrador por não existir solução em curto prazo. O contágio se alastra e cada um de nós deve agir, não só o poder público. O governador e os prefeitos devem servir de modelo – a evitar ou aplaudir –, mas o cuidado maior está nos pequenos gestos de cada um de nós, como usar máscaras continuamente e lavar as mãos, sem jamais aglomerar-se.

Basta já a desmobilização da sociedade provocada pelo presidente da República e seu ministro da Saúde, que desdenharam da peste, nada fizeram para enfrentá-la e assim só agravaram as consequências. Ambos são responsáveis diretos por um genocídio disfarçado de inércia ou de incompreensão sobre a gravidade do momento. Em qualquer ponto do Estado ou do País, governadores e prefeitos têm, agora, a missão de impedir a repetição do horror de Manaus, no Amazonas, onde os infectados (em ambulâncias à porta dos hospitais) aguardavam a morte de outro infectado grave para ocuparem seu lugar num leito de UTI, tentando salvar-se. Caía-se, dessa forma, num absurdo: a morte de uns abria portas à sobrevivência de outros.

O contágio é um assassino oculto que nos espreita em qualquer lugar para agredir com sanha. Invisível, não tem cheiro nem cor, e esconde até o sabor da morte ao se repartir em diferentes cepas, cada qual mais agressiva e funesta.

Uma delas, a “cepa Pazuello” (que assim se deve chamar, pois foi gerada em Manaus pelo desdém do general ministro da Saúde), expande-se como furacão, já atravessou o oceano e foi identificada na Europa. Ou, como disse, do alto de sua experiência, o médico e ex-ministro Luiz Henrique Mandetta em entrevista a este jornal, a nova cepa corre num Ferrari de Fórmula 1, enquanto a vacina anda de carroça...

A pandemia desarticulou totalmente não só o sistema sanitário, mas também a já combalida economia do País: agravou ainda mais o déficit fiscal e aumentou a dívida pública como tumor cancerígeno em expansão constante. Em 2018 o déficit fiscal chegou a 7,09% do PIB, num total de R$ 487,5 bilhões. Em 2020 o déficit público consolidado alcançou quase R$ 703 bilhões, ou 9,49% do PIB, segundo dados do Banco Central, no mais desastroso resultado desde 2001.

Sem planos nem ideias para enfrentar a totalidade do problema, o presidente da República substitui a ação concreta pela verborragia da propaganda. Dias atrás apresentou os bilionários repasses que a própria Constituição destina aos Estados e municípios como se fossem uma dádiva por ele inventada para combater a pandemia.

Os governadores de 18 Estados (entre eles, o de São Paulo) reagiram de imediato e se insurgiram contra o desvario propagandístico de Bolsonaro. Lembraram que o presidente da República busca apenas “o confronto”, jamais “a solução”, e assim desnudaram a farsa administrativa do atual governo.

Em mais de dois anos no poder, Bolsonaro não apresentou nenhum plano geral e concreto. No máximo, deixou o barco andar... A única preocupação que demonstra não é sequer a emergência da pandemia, mas – sim – “armar a população”, como se combatêssemos a violência de rua com tiros e a matança fosse um ideário nacional.

Há anos (ou décadas, talvez) o Brasil vive uma encoberta guerra civil, agravada nos últimos tempos pelas disputas de território entre os magnatas do narcotráfico. Nesse período de guerra oculta, nenhum dos diferentes presidentes da República ou dos governadores ousou ir ao fundo do problema.

A repressão ao narcotráfico resume-se em prender simples traficantes como se fossem grandes chefes do crime. Talvez a única exceção tenha sido a prisão e condenação de Fernandinho Beira-Mar. Fora dele, os demais presos são marginais que apenas obedecem a ordens dos verdadeiros grandes chefões, moradores dos bairros nobres das capitais e influentes na polícia, ou até na política.

A pandemia apenas conturbou ainda mais (e de forma avassaladora) o pandemônio da convivência entre todos. Passamos a temer o próprio ar que respiramos, já infestado de gás carbônico dos automóveis e que, hoje, pode transmitir a peste diretamente.

O horror é planetário. No Brasil, porém, o presidente da República e seu ministro da Saúde seguem tratando a peste como se fosse um resfriado comum, ou a tal da “gripezinha” definida por Bolsonaro.

Em pleno crescimento da peste, é urgente evitar que o caos no caos nos leve ao pânico geral do pandemônio.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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