O Chile já está na frente

Seja qual for o resultado das eleições chilenas este mês, a construção de novas lideranças políticas faz do país uma referência para o Brasil.

Beatriz Della Costa, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 03h00

Depois de ganhar fôlego nas semanas anteriores às eleições presidenciais no Chile, José Antonio Kast, líder da ultradireita no país, teve 28% dos votos e vai disputar em 19 de dezembro o segundo turno com o candidato da esquerda, o ex-líder estudantil Gabriel Boric, que ficou com 25%. A diferença pode parecer pequena, mas temos de levar em conta a votação expressiva do inesperado terceiro colocado, o populista de direita Franco Parisi, que, com quase 13%, tem um eleitorado muito mais inclinado às ideias de Kast que de Boric. Outro fato que não podemos ignorar são as abstenções: menos de 50% da população, apática em relação à política, foi votar.

Dois anos atrás, as coisas pareciam diferentes. A política empolgava. As tão organizadas quanto catárticas manifestações no país (que entraram para a história como o estallido social de 2019) abriam caminho para um novo Chile, jovem e progressista, que, há um ano, dava a impressão de se consolidar com o plebiscito que instituiu uma assembleia representativa e paritária – formada igualmente por homens e mulheres –, para desenhar a Constituição que vai substituir a atual, ainda vestígio da ditadura de Alberto Pinochet.

Agora, de repente, o candidato que despontou desse movimento parece não só ter chances reais de ser derrotado, como pode dar lugar a um simpatizante de Bolsonaro e Trump. O que aconteceu?

Antes de qualquer coisa, não devemos esquecer que o Chile é uma sociedade enormemente conservadora. A sombra de Pinochet, de uma maneira ou de outra, ainda paira sobre o país. E, assim como seus ídolos no Brasil e nos EUA, Kast oferece um discurso repleto de respostas aparentemente fáceis – ainda que geralmente autoritárias e antidemocráticas – aos anseios de parte da população. Seu grande mote é a ordem, ao passo que, na visão de muitos chilenos, o estallido de 2019 e mesmo a nova Assembleia Constituinte fazem parte de um caos que precisa ser desfeito. Para eles, Boric é o representante dessa suposta bagunça e do eterno fantasma das direitas latino-americanas – o tal do comunismo. Isso sem falar da pandemia, que ampliou o sentimento de desordem e de buscas por mudanças imediatas.

Só que o imediatismo está longe de ser a bandeira de Boric – ainda bem. Digo isso porque essa nova oposição tem como maior força justamente a construção organizada e estruturada, que seguirá em curso tanto com a vitória quanto com a derrota de Boric.

Essa construção teve início 15 anos atrás, a partir de uma série de manifestações capitaneadas por estudantes secundaristas que ficou conhecida como Revolução dos Pinguins. De lá para cá, os integrantes desse grupo foram entendendo que, para que houvesse mudanças de fato, seria preciso transformar em partidos os movimentos sociais de que faziam parte. Foi esse o início do caminho que institucionalizou a formação política de toda uma geração chilena. Líderes estudantis primeiro despontaram como candidatos independentes, em seguida criaram seus próprios partidos, depois formaram coligações – tudo isso com constância e linearidade. E foi exatamente essa a trajetória de Gabriel Boric, atual deputado e candidato à presidência.

O principal papel do novo presidente será garantir que a nova Constituição seja aprovada e implementada. Uma eventual vitória de Boric vai representar essa nova visão, levando ao poder um jovem progressista e uma esquerda atualizada para dar força à Constituição – que foi a principal pauta dessa geração que está há tanto tempo nas ruas. Por outro lado, a vitória da extrema-direita pode representar a negação de todo esse processo e a possibilidade da retomada da Carta Magna de Pinochet.

Mas, caso não chegue à presidência, o grupo de Boric está preparado para uma articulação de uma oposição capaz de impedir abusos, desmontes e retrocessos como o que vivemos agora no Brasil, onde não conseguimos nos organizar para tirar um autocrata do poder. E essa organização, essa força, vem justamente da construção – desses 15 anos de formação de elos entre as escolas, as universidades e os governos.

A lição que vem do Chile é a necessidade da criação de novas lideranças, de diferentes maneiras de enxergar a política e, consequentemente, de outras vias. Para isso é fundamental uma construção de longo prazo, uma intenção de permanência que promova o surgimento de partidos modernos e robustos capazes de, munidos de ideias e princípios, fincar raízes no sistema (em oposição aos partidos de aluguel). No Brasil muita gente quer entrar para a política, assim como diversos movimentos eleitorais tentam viabilizar essa vontade, mas a grande maioria é ignorada pelos partidos e instituições.

Temos de abrir os caminhos institucionais para nossas inquietações, que são apenas o ponto de partida para que haja uma construção de lideranças que possam respaldar as transformações reivindicadas socialmente. A mudança passa necessariamente pelos partidos políticos e pela política institucional. O Chile precisa, sem dúvida, ser nossa inspiração. Porém, para que possamos aprender com ele, temos de avaliar os processos, não apenas os resultados.

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CIENTISTA SOCIAL, É COFUNDADORA E DIRETORA DO INSTITUTO UPDATE, QUE ESTÁ ACOMPANHANDO E DOCUMENTANDO TODAS AS SESSÕES DA NOVA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE CHILENA PELO PROJETO #NUESTRASCARTAS (NUESTRASCARTAS.ORG)

 

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