O Chile sob nova direção

É cedo para dizer se a nova liderança política. As expectativas são grandes, assim como as dificuldades para cumpri-las

Sergio Fausto, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2022 | 03h00

A eleição de Gabriel Boric para a presidência produziu um fenômeno raro em democracias razoavelmente maduras: um corte geracional na liderança política. É um fenômeno ao mesmo tempo político e cultural, que não se limita ao modo mais despojado de se vestir dos novos líderes. 

O presidente eleito, com 35 anos e tatuagens no braço, não chega ao poder sozinho. Junto vem uma geração que com ele compartilha mais do que o fato de haver nascido na década de 1980. 

Com poucos sobrenomes ilustres, origem regional mais diversa (o próprio Boric é de Magallanes, no extremo sul) e mais mulheres (entre elas a médica Izkia Siches, nascida em Arica, no extremo norte, chefe de campanha do presidente eleito), ela se diferencia da geração antecedente, que liderou a transformação do Chile no país mais desenvolvido da América Latina. 

Um rápido exame da biografia dos novos membros da elite política é suficiente para indicar o quanto o Chile mudou para melhor nos últimos 30 anos, com a expansão da classe média, desconcentração da atividade econômica no território e ampliação do acesso ao ensino universitário, entre outros avanços. Nesse sentido, a geração de Boric é filha da Concertación, a aliança de centro-esquerda que governou o país em cinco dos sete últimos mandatos presidenciais. Filha rebelde, que chega ao poder com a ambição de superar o que considera o pecado original da geração anterior: não haver rompido com a herança “neoliberal” da ditadura de Pinochet (apesar das 50 emendas feitas à Constituição). 

A nova liderança política compartilha uma experiência de iniciação comum. Em sua maioria, começou a militância no movimento estudantil e apareceu na cena política nas grandes manifestações de 2011, quando universitários se mobilizaram em favor do ensino superior gratuito para todos. Cinco anos antes, os estudantes secundaristas haviam manifestado sua insatisfação, na chamada “revolta dos pinguins” (assim chamados pelo uniforme branco e preto). Alguns dos líderes atuais se destacaram naquela onda de paralisação e ocupação de escolas do ensino médio. 

Sentiram-se naqueles anos os sinais antecedentes do terremoto político que sacudiria o país no final de 2019. Foi uma explosão social surpreendente. Ela trouxe à tona um mal-estar até então subterrâneo, salvo pelas mobilizações estudantis, com a prevalência de uma lógica mercantil, e não de direitos, no provimento de educação, saúde e previdência para a população. 

A nova geração forjou sua identidade política na difícil travessia do ativismo nos movimentos sociais (estudantil, feminista e ambientalista) para a política institucional. À exceção dos líderes filiados ao Partido Comunista, os demais não contavam, no ponto de partida, com organização política alguma. Souberam constituir partidos, eleger representantes para o Congresso e confluir para um mesmo espaço político. A Frente Ampla, em sua eleição presidencial de estreia, em 2017, um ano após ter sido criada, obteve 20% dos votos. Ficou claro ali que a contestação de esquerda aos 30 anos da Concertación expressava uma corrente de opinião mais ampla, com viabilidade político-eleitoral. Essa travessia dos movimentos sociais ao poder institucional é, em si mesma, um fato extraordinário. 

É muito cedo para dizer se a nova liderança política terá sucesso no exercício do governo. As expectativas são grandes e as dificuldades para cumpri-las não são menores. A aliança de forças que levaram Boric ao Palácio La Moneda (Apruebo Dignidad) não tem maioria no Congresso e os sócios que a compõem (a Frente Ampla e o Partido Comunista) divergem em pontos importantes. Como se fosse pouco, há uma Convenção Constitucional em pleno andamento e sem um rumo bem definido. 

Ao aterrissar no chão pedregoso da política governamental, as novas lideranças terão de eleger algumas poucas prioridades e reduzir seu nível de ambição, sem matar a esperança que as levou ao poder. Estão em jogo a possibilidade de restabelecer o nexo entre a sociedade e a política, forte no início da redemocratização, mas que se desfez ao longo dos últimos 30 anos, e a viabilidade de um modelo de desenvolvimento que mantenha a trajetória de crescimento do Chile, mas o torne ambientalmente mais sustentável e socialmente mais equitativo.

Política não é ciência, mas cabe aqui citar Isaac Newton: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de um gigante”, referindo-se ao conhecimento acumulado antes dele. A nova geração de líderes fará bem se souber aproveitar a experiência da que a precedeu na gestão da política e do Estado.

Boric já se deu conta disso. Depois de passar ao segundo turno, foi ao encontro dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, alvos frequentes de críticas dele e de seus aliados. Recebeu o apoio das duas lideranças maiores, ainda vivas, dos últimos 30 anos. Reafirmou ser a favor de acordos amplos e avanços graduais e condenou todas as ditaduras, de esquerda ou de direita. 

A julgar pelo ministério anunciado na última sexta-feira, com a incorporação de novos partidos da esquerda democrática e uma boa mescla geracional, o Chile está em boas mãos. 

DIRETOR-GERAL DA FUNDAÇÃO FHC, É MEMBRO DO GACINT-USP

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