O consequencialismo dos conservadores

Seria equivocado achar que esse grupo de apoiadores desconhece quem são Jair Bolsonaro eDonald Trump.

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2022 | 03h00

Jair Bolsonaro não é liberal, tampouco conservador. Mas o fato é que parcela considerável dos que se definem como conservadores no Brasil continua apoiando o presidente Bolsonaro. Diante de tal fenômeno, há quem classifique esses apoiadores como ingênuos ou mal informados. Eles estariam sendo enganados pelo bolsonarismo – e seria urgente expor essa manipulação, para que essas pessoas e grupos, descobrindo quem é Jair Bolsonaro, deixem de apoiar aquele que, na realidade, é contrário a suas ideias e ideais.

Mesmo que haja diferenças expressivas entre o que ocorre aqui e nos Estados Unidos, fenômeno parecido é visto há alguns anos em relação a Donald Trump. Muitos membros do Partido Republicano têm dado consistente apoio a uma pessoa cuja história de vida é manifestamente contrária aos históricos princípios cívicos do Grand Old Party.

Em tese, grupos conservadores prezam o regime democrático. Querem votar, escolher seus representantes. Parte importante do seu discurso contemporâneo está centrada na ideia de que eles merecem ser ouvidos, de que sua opinião precisa ser levada em conta no debate público. Por que, então, parcela considerável desses grupos continua apoiando uma pessoa que aberta e deliberadamente agride e desmerece o processo eleitoral? Qual é o cálculo a fundamentar essa opção?

Em tese, grupos conservadores prezam a independência da Justiça. Os pensadores clássicos, reverenciados por esses grupos, defendem que, para haver um ambiente de liberdade, é preciso ter um Judiciário não subordinado ao Executivo, capaz de aplicar a lei. Por que, então, esses grupos apoiam uma pessoa que aberta e deliberadamente agride e desmerece o Poder Judiciário? Qual é o cálculo por trás dessa escolha?

Em tese, grupos conservadores prezam a eficiência do poder público. No entanto, Jair Bolsonaro não tem nenhuma pretensão a esse respeito. Todos tiveram acesso à reunião de 22 de abril de 2020. Todos viram a resposta do presidente da República à pandemia. Todos veem o comportamento de Jair Bolsonaro diante da atual crise social e econômica. Nada do que se observa no Palácio do Planalto desde 2019 aproxima-se minimamente do que os pensadores clássicos propõem como virtudes necessárias de um governante. Mesmo assim, grupos conservadores continuam apoiando Jair Bolsonaro. Não querem sequer escutar sobre outra opção nas eleições presidenciais deste ano. Qual é o cálculo que embasa essa atitude?

A política sempre contém alguma dose de manipulação, especialmente em fileiras populistas. O discurso não apenas anda longe dos fatos, como é usado para esconder a própria realidade. Mas seria equivocado achar que os apoiadores conservadores, especialmente as lideranças desses grupos, desconhecem quem são Bolsonaro e Trump, como se estivessem obnubilados por mensagens de WhatsApp ou pela timeline do Facebook. Eles sabem exatamente quem são os dois políticos.

Os conservadores, especialmente suas lideranças, têm acesso à informação. Leem livros e jornais. Falam mais de uma língua. Muitos leem jornais estrangeiros. Têm um nível cultural muito acima da média. Mesmo assim, essas pessoas continuam apoiando Jair Bolsonaro. O que o presidente da República lhes entrega para que se disponham a interpretar favoravelmente seus gestos, matizar suas incompetências e minimizar suas grosserias? Não é fácil para essa turma apoiar Jair Bolsonaro. Afinal, são pessoas que cultivam um senso moral elevado: ensinam suas filhas a não falarem palavrão, pregam que o casamento é para a vida toda, abominam qualquer corrupção, tanto na esfera pública como na privada. No entanto, apesar de tudo isso, querem Jair Bolsonaro na Presidência da República em 2023. Por quê?

Porque esses grupos são, a seu modo, consequencialistas na vida política. Avaliam que, apesar de todas as mazelas de Jair Bolsonaro, ele é quem menos apoiará as causas contra as quais esses grupos decidiram dedicar suas energias na esfera pública: a descriminalização do aborto, a descriminalização das drogas, a “ideologia de gênero” e a regulação da atividade econômica. Não importa se tem ônibus escolar superfaturado, se as privatizações não saíram ou se a gestão do Orçamento foi dada ao Centrão. Se Jair Bolsonaro não apoiou a agenda LGBT, então é o melhor governo dos últimos 30 anos.

Os grupos conservadores não alimentam muitas expectativas. Sabem que Jair Bolsonaro não é comprometido, na esfera pessoal e na política, com uma concepção abrangente de bem comum: é simples interesse eleitoral. São cientes, portanto, de que não conseguirão muitas coisas do governo. Em três anos e meio, ganharam um ministro do Supremo e apoio ao projeto de lei autorizando o homeschooling (instrumento para a transmissão intergeracional da sua visão de mundo). Mas estão felicíssimos. Nunca houve um governante que lhes tenha tratado dessa forma. E não irão abandoná-lo até que alguém lhes assegure, ao menos, algo similar. É a realpolitik de uma turma que, cansada de assistir passivamente à cena pública, almeja ter mais voz e mais poder.

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ADVOGADO E JORNALISTA

 

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