O custo da irresponsabilidade política

A insensatez é o enredo que une a trajetória de David Cameron, Dilma Rousseff e Rodrigo Janot

Luiz Felipe D’ávila*, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2019 | 03h00

A política é muito branda com seus malfeitores. Governantes que tomam decisões desastrosas para o país são punidos com a perda do mandato ou do cargo. Trata-se de uma punição demasiado leve para políticos e agentes públicos cujas decisões trágicas continuam a afetar o destino do país anos após estarem gozando sua tranquila aposentadoria, longe dos holofotes. Os incautos líderes públicos aproveitam o tempo proferindo conferências, escrevendo livros e desfrutando a vida, enquanto o povo e o país continuam a pagar o custo político, econômico e social de suas escolhas nefastas.

A insensatez política atinge países ricos e pobres, partidos de direita e de esquerda, líderes experientes e arrivistas ambiciosos. Esse é o enredo que une a trajetória de três figuras contemporâneas: David Cameron, Dilma Rousseff e Rodrigo Janot.

Cameron foi o primeiro-ministro do Reino Unido que propôs o insensato referendo sobre a saída do país da União Europeia, o Brexit, em 2016. É difícil imaginar um político experiente deixar-se levar por uma inconsequente promessa de campanha e propor o descabido referendo. Cameron, que defendia a permanência do Reino Unido na União Europeia, perdeu a votação e deixou o poder. Entretanto, as consequências da sua ação continuam a impactar terrivelmente a vida dos britânicos. No próximo fatídico dia 31 de outubro, o Reino Unido deverá deixar a União Europeia e assumir as consequências de uma relação pior e mais conturbada com seu principal parceiro político e econômico.

Dilma Rousseff, o “poste” que sucedeu a Lula na Presidência da República, inventou a catastrófica “nova matriz econômica”. O País mergulhou na pior recessão econômica de sua História e 13 milhões de brasileiros foram jogados no desemprego. Enquanto Dilma descola algumas palestras para tribos de esquerdistas que ainda vivem no passado, o Brasil continua a lutar para reformar o Estado e se livrar da estagnação econômica e do desemprego recorde que ela nos deixou como herança.

Como se não bastassem as mazelas da era petista, o Brasil foi brindado com a desfaçatez de Rodrigo Janot, o procurador-geral da República que trocou os princípios do Direito e da justiça pelo complô e pela maledicência para incriminar o presidente Michel Temer. Após o impeachment de Dilma, em 2016, Temer assumiu a Presidência da República e em pouco mais de um ano no poder seu governo derrubou a taxa de juros de 14,2% ao ano para 6,5%, a inflação despencou de 8,3% para 2,7% e a economia dava os primeiros sinais positivos de crescimento. Além da retomada da economia, Temer avançou com as reformas do Estado. Conseguiu aprovar a emenda constitucional que estabeleceu o teto do gasto público, medida vital para estancar o aumento desenfreado das despesas do governo, que cresciam muito acima da receita. Em 2017 Temer logrou a aprovação das reformas trabalhista e do ensino médio, além da Base Nacional Comum Curricular – medidas vitais para modernizar a legislação do trabalho e a educação pública.

O presidente pretendia concluir ainda outras duas grandes reformas constitucionais antes do término do seu mandato, a previdenciária e a tributária. Mas eis que, uma semana antes da votação da reforma da Previdência no Congresso Nacional, Rodrigo Janot vazou para a imprensa uma gravação adulterada de conversa do empresário Joesley Batista, do grupo J&F, com Michel Temer. O diálogo entre o presidente e Joesley seria a “prova cabal” de que Temer endossava a compra do silêncio do doleiro Lúcio Funaro, investigado por remessas ilegais de empresários e políticos. A gravação desencadeou uma crise política. Da condenação sumária do presidente pela imprensa e pela opinião pública ao pedido de impeachment de Temer (que foi arquivado pelo Congresso), a crise política estancou a trajetória virtuosa das reformas do Estado. Temer deixou a Presidência com o maior índice de impopularidade da História do Brasil e sua reputação pessoal destroçada.

Mas essa história não terminou quando Temer e Janot deixaram o poder. O processo na Justiça contra o ex-presidente continuou correndo na 12.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal. Finalmente, em 16 de outubro o juiz Marcus Vinicius Reis Bastos proferiu veredicto absolvendo Michel Temer. Uma “sentença luminar”, como o Estadão definiu a decisão do juiz. Marcus Vinicius é categórico ao afirmar que a gravação adulterada na qual se baseia a acusação contra Temer é infundada, “é frágil e não suporta sequer o peso da justa causa para a inauguração da instrução criminal”.

O fato é que a gravação adulterada e a acusação infundada de Janot mudaram o destino da Nação. Isso quase derrubou o presidente da República, estancou a reforma da Previdência e jogou o Brasil na eleição mais polarizada desde a redemocratização do País. Se tivessem sido aprovadas as reformas previdenciária e tributária no governo Temer, o Brasil não estaria com 13 milhões de desempregados, a economia engolfada na estagnação e a Nação vivendo a exacerbada polarização política que mina o diálogo, o entendimento e a confiança no País. Enquanto o Brasil se esforça para aprovar as reformas do Estado abandonadas no governo Temer, o ex-procurador lança um livro se gabando do seu destempero e de sua intenção de assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal.

A irresponsabilidade dos líderes públicos continua sendo o principal veneno que debilita as democracias. Quando a insensatez, a arrogância e a ganância pelo poder deturpam a consciência, enfraquecem o caráter e destroem a magnanimidade, a política é desvirtuada. Sem virtude na política o Brasil permanecerá atolado no subdesenvolvimento, pulando de uma crise para outra e se iludindo com os pequenos espasmos de bonança que nutrem o devaneio de que dias melhores virão.

*FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO PAÍS QUE SOMOS PARA O BRASIL QUE QUEREMOS

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