O custo do populismo econômico

Com a maré contrária vinda do Executivo (com a chancela da Economia) e do Congresso, a tarefa decontrolar a inflação fica mais complicada.

Nathan Blanche, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2022 | 03h00

A evolução do governo Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto tem guiado o rumo da política econômica nos últimos meses. O resultado do que vem sendo implementado (com a ajuda de um perverso consenso populista entre bolsonaristas e lulistas) no Congresso Nacional será um velho conhecido do brasileiro: deterioração nas contas públicas, aumento da percepção de risco, depreciação da moeda e maior taxa de juros para controlar a inflação. Isso tudo refletindo-se em menos crescimento do desemprego, mas na queda consistente no rendimento real da renda.

Observam-se atitudes bem incoerentes para um governo dito liberal e comprometido com a responsabilidade fiscal – de tentativas de intervenção na Petrobras à redução arbitrária da carga tributária sobre os combustíveis e energia elétrica, com a criação do teto do ICMS sobre estes produtos e serviços. Isso tudo temperado com um episódio de desespero do presidente, ao apelar aos proprietários de supermercado para que contribuam com o controle dos preços. Essa atitude nos faz lembrar as propostas de congelamento de preços da década de 1980. Só faltam entrar no palco os fiscais do Sarney.

Neste contexto, o Banco Central (BC) fica sozinho tentando controlar a inflação. Na decisão da semana passada, elevou a Selic em 50 bps, para 13,25%, sinalizando ao menos mais um ajuste pela frente. O Comitê de Política Monetária, da maneira técnica como tem de ser, aumentou o alerta sobre a situação fiscal ressaltando tanto o ponto de políticas fiscais que incentivam a demanda – enquanto a autoridade monetária trabalha para esfriá-la para controlar a inflação – como o fato de que as medidas tributárias ajudam a reduzir um pouco a inflação deste ano, mas a elevam no horizonte relevante da política monetária.

Ainda que, diferentemente do Banco Central norte-americano – claramente atrás da curva –, o BC brasileiro já esteja trabalhando no ajuste das condições monetárias há um bom tempo, o fato é que com essa maré contrária vinda do Executivo (com a chancela do Ministério da Economia) e do Congresso, a tarefa de controlar a inflação fica bem mais complicada. Ou seja, o BC terá de subir mais a Selic e mantê-la alta por mais tempo. Inclusive, na última decisão, poderia ter sido mais duro e ter aumentado os juros em 75 bps, para evidenciar, além do discurso, o custo do populismo econômico.

O risco diante das medidas eleitoreiras é a volta do populismo sistêmico, que por tantos anos mergulhou o Brasil numa inflação crônica, em processos de congelamento de preços e manipulação das contas públicas. Com a evidente fragilização do arcabouço fiscal – Lei de Responsabilidade Fiscal e do Teto de Gastos –, o cenário ficará ainda mais claro a partir de 2023, com juros mais altos, crescimento menor e crescente déficit fiscal.

A situação ficará ainda mais desafiadora para o Brasil pelo contexto global, marcado por forte desaceleração das principais economias mundiais diante do enfrentamento da inflação com juros muito mais altos. Nos EUA, o último índice CPI (inflação ao consumidor) divulgado ultrapassou 8,5% ao ano, o que promoveu a reação do Fed elevando a taxa básica em 75 bps, ratificando que o objetivo é levar a política monetária gradualmente para o território restritivo, para controlar a inflação ao custo de uma recessão em 2023 que, possivelmente, pode se prolongar para 2024.

Este, inclusive, foi o alerta recentemente emitido por Larry Summers, William Dudley e James Bullard. Eles argumentam que, para o controle da inflação provocada pelo superaquecimento da economia e reforçada pelos choques de oferta, torna-se praticamente inevitável a recessão. Uma forte evidência do superaquecimento está no mercado de trabalho americano, com a demanda por profissionais excedendo em muito a oferta, tendo como consequência os salários em elevação.

Este contexto torna muito provável uma estagflação mundial. O surto inflacionário global causado pelos substanciais estímulos, inclusive monetários, promovidos pelos bancos centrais por meio de taxas de juros reais negativas, com o objetivo de superar a recessão gerada pela pandemia, que atingiu fortemente a oferta mundial de bens e serviços, precisa agora ser enfrentado. Já foram anunciados planos de tapering (redução da liquidez) gradual por diversos bancos centrais. Este processo de enxugamento pode provocar mais turbulências, como, por exemplo, o contínuo crescimento do custo para financiar o elevado nível de endividamento de países como Itália e Espanha, aumentando o risco de uma crise da dívida soberana europeia. A guerra na Ucrânia complica ainda mais a situação, aumentando a pressão sobre os preços das commodities e gerando uma grave sensação de instabilidade política e econômica mundial.

Em suma: teremos tempos difíceis pela frente, e o enfrentamento precisa ocorrer com serenidade, políticas econômicas responsáveis e continuidade de reformas estruturais. Diante do cenário eleitoral que se apresenta, o Brasil carece de uma força política alternativa que resgate o protagonismo do Executivo na condução das agendas junto do Legislativo e apresente um plano econômico e estratégico semelhante a um Plano Real II elaborado por uma equipe que tenha credibilidade comprovada perante a sociedade.

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SÓCIO-FUNDADOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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