O destino da Nação em nossas mãos

Se esperarmos gestos de liderança do Planalto, estamos fadados a colher desilusão e frustração

Luiz Felipe d’Avila, cientista político

16 de abril de 2019 | 03h30

Os primeiros cem dias do governo Bolsonaro serviram para nos dar um choque de realidade. Desfizeram-se as ilusões com o presidente da República e suas convicções reformistas e evaporou-se o otimismo do mercado com o governo. A ilusão blinda as pessoas da árdua e difícil tarefa de confrontar a si mesmas e de revisar suas crenças, ações e escolhas que as levaram a trilhar o caminho equivocado. A ilusão sempre traz novas desilusões porque a realidade não se enquadra na moldura das nossas fantasias. Ao resgatarmos o bom senso e o verdadeiro entendimento dos desafios do País, podemos traçar um plano de ação realista para o Brasil voltar a crescer, criar empregos e fortalecer as instituições democráticas.

Primeiro é preciso reconhecer que Jair Bolsonaro é um político coerente com suas promessas e sua trajetória pública. Durante a campanha presidencial foi sincero ao afirmar que não entendia nada sobre os temas relevantes para o País e que delegaria ao seu “posto Ipiranga” - Paulo Guedes e seu time - a tarefa de conduzir as reformas econômicas. Bolsonaro deixou claro que o seu real interesse estava na pauta de costumes - em menino vestir azul e menina, rosa - e em sua disposição de combater os comunistas infiltrados nas escolas, na cultura e na sociedade, cujo objetivo final é destruir a família brasileira e a Nação. Ele está cumprindo o que prometeu. E provavelmente vai passar o resto do seu mandato utilizando as redes sociais para mobilizar a sua tribo para a guerra santa contra o comunismo e os males que desabonam o seu conceito de “família cristã”. 

Essa cruzada de costumes revela que Bolsonaro continuará a ser Bolsonaro, um político medíocre que defende pautas insignificantes e corporativistas que não ajudam o País a se tornar mais produtivo, competitivo, democrático, pluralista e tolerante. Portanto, se esperarmos gestos de liderança do Palácio do Planalto, estamos fadados a colher desilusão e frustração. 

Na ausência de um presidente da República capaz de dar rumo ao País, o Congresso Nacional, em parceria com a sociedade civil, terá de liderar a Nação. Trata-se de uma oportunidade ímpar para o Parlamento resgatar seu protagonismo, sua credibilidade e relevância. Afinal, o destino das reformas está nos votos dos parlamentares. Somente eles têm o poder de aprovar as emendas constitucionais capazes de salvar a Previdência, reformar o caótico sistema tributário e aprovar a reforma política (especialmente o voto distrital) - medidas vitais para resgatar a credibilidade das instituições democráticas, pavimentar o caminho da retomada do crescimento e deixar um Brasil melhor para as próximas gerações. 

Os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, deveriam inspirar-se no deputado Ulysses Guimarães, o presidente da Câmara dos Deputados que liderou o Congresso e o País após o fim do regime militar, em 1985. Ulysses ignorou o claudicante então presidente da República, José Sarney, e conduziu o entendimento no Parlamento e na sociedade, aprovando leis, reformas e até mesmo uma nova Constituição. Não cabe aqui julgar o mérito das suas decisões, apenas vale a pena lembrar que o centro do poder naquele período permaneceu no Legislativo até a eleição do presidente Collor, em 1990.

Nunca foi tão importante para o País ter um Congresso Nacional forte, soberano e em sintonia com a sociedade para aprovar as reformas inadiáveis do Estado brasileiro. O Parlamento e suas novas lideranças têm o poder de criar a “nova política” - não a demonização infantil da política propagada por Bolsonaro, mas a política de defesa do interesse nacional, do bem-estar das próximas gerações e do zelo pelas instituições democráticas. Chegou a hora de os parlamentares mostrarem que não temem enfrentar cara feia e críticas de gente que defende os privilégios do corporativismo e do patrimonialismo. Chegou o momento de aproveitar o talento dos quadros técnicos do Congresso e da boa interlocução política com a equipe econômica para aprimorar as reformas e apresentar emendas que melhorem o projeto do governo. A aprovação da reforma trabalhista no Congresso, durante o mandato do presidente Michel Temer, é um bom exemplo. Os deputados e senadores mostraram que são capazes de aprovar uma reforma ainda mais ousada e robusta do que a proposta enviada pelo Poder Executivo. O então relator da reforma trabalhista na Câmara, deputado Rogério Marinho, é hoje o secretário da Previdência e do Trabalho no Ministério da Economia. 

Os governadores e prefeitos também terão de mudar de atitude. Será preciso trocar as visitas ao Palácio do Planalto pela busca de soluções inovadoras nos seus Estados e municípios, procurando o apoio do setor privado e do terceiro setor para suprir a carência de investimento público em áreas prementes, como educação, segurança, saúde e saneamento básico. A melhor forma de valorizar a boa política é o Congresso, os governantes e a sociedade civil se unirem em torno da aprovação das reformas constitucionais. Felizmente, começou a surgir uma coligação informal - constituída por políticos de vários partidos, líderes empresariais e organizações do terceiro setor - em prol das reformas, cuja atuação pode ser decisiva para aprová-las no Parlamento.

 

Nesse sentido, o governo Bolsonaro está prestando um bom serviço ao País. Está ajudando os governantes, os parlamentares e a sociedade civil a se desintoxicarem da dependência química da Presidência da República. Quanto mais cedo as lideranças nacionais se conscientizarem de que as soluções inovadoras para os problemas prementes do País brotarão do Congresso e dos Estados e municípios, melhor para o Brasil. O destino do País está em nossas mãos, e não nas mãos de Bolsonaro.

*CIENTISTA POLÍTICO, LUIZ FELIPE D’ÁVILA É AUTOR DO LIVRO 10 MANDAMENTOS. DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS

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