O dilema está nas ruas (e nos jornais)

A oposição ao governo é plural, integrada por pessoas e correntes múltiplas

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 03h00

Em editorial publicado anteontem, o Estado deixou patente a avaliação positiva que faz das passeatas contra o presidente da República, que tomaram as ruas de diversas cidades no sábado passado. O texto começa por afirmar que “foram muito significativas as manifestações”. Na avaliação deste diário, “a realização, em si mesma, do protesto” repõe o equilíbrio de forças: “O embate entre o bolsonarismo e o antibolsonarismo, que antes estava restrito ao universo das redes sociais, a partir de agora poderá ser travado ao ar livre, com ou sem vírus.”. O argumento prossegue atestando que, “para muita gente, o risco da continuidade do governo de Bolsonaro é maior do que o perigo representado pelo coronavírus, razão pela qual valeria a pena arriscar-se em manifestações de rua se isso causar problemas para o presidente”.

O editorial nos chega em boa hora, quando ainda pairam dúvidas sobre a posição das principais redações do País sobre as manifestações. Há quem tente rotulá-las como um movimento de esquerda. Outros resmungam que tudo não passa de uma grita radical, extremista, em defesa de corruptos. O Estado discorda dessas visões redutoras: “Seria um erro entender que o antibolsonarismo seja uma exclusividade da esquerda. (...) É lícito supor que, se não fossem as reticências sanitárias motivadas pela pandemia, muito mais cidadãos, de diversos credos políticos, poderiam se animar a participar de manifestações contra o presidente”.

Nada mais razoável. O que se vai desenhando na conjuntura nacional é uma demarcação entre dois polos, sem dúvidas, mas não nos encontramos numa polarização simétrica, como muitos ainda insistem em dizer. Não se trata de um enfrentamento entre dois opostos equivalentes, uma direita furibunda contra uma esquerda raivosa. O País não está dividido entre duas falanges iguais, com sinais invertidos. Não é isso. A bifurcação é de outra ordem: os dois lados são substancialmente diferentes um do outro.

Na extrema direita movem-se as forças que desrespeitam direitos fundamentais, elogiam torturadores, clamam por um golpe militar e insultam a imprensa com o propósito de silenciá-la – na parada de motocicletas bolsonaristas no Rio de Janeiro, no dia 23 de maio, o repórter da CNN Pedro Duran foi hostilizado aos gritos de “CNN lixo” e precisou da proteção policial para não sofrer agressões físicas. No outro campo, o que tomou as ruas do País no sábado, comparecem aqueles que têm compromisso com o Estado Democrático de Direito e valorizam o jornalismo profissional, representando ideários diversos, de socialistas a liberais. A oposição ao governo é plural, integrada por pessoas e correntes múltiplas.

O cenário bipartido explicita o dilema real da sociedade. Esse dilema não se dá entre duas propostas amalucadas, mas entre alternativas mais definitivas. Teremos de escolher entre as liberdades e a selvageria, os direitos humanos e a violência, a saúde e a doença, a urbanidade e o cangaço, a razão e o fanatismo, a democracia e a ditadura, a vida e a morte. Para escolher certo precisamos contar com o pensamento. O juízo de fato e o juízo de valor apontam para o mesmo norte. A análise objetiva da realidade conclui pela democracia – ou alguém em sã consciência vai preferir o agravamento do Estado de exceção? Do mesmo modo, os princípios éticos preferem a normalidade democrática, pois não há virtude na tirania.

Nesta hora, a voz das redações que ainda sabem exercer os dois juízos (são poucas) não pode faltar. É verdade que, infelizmente, essa voz fraquejou, desde o início da cobertura eleitoral em 2018, e não soube dar os nomes devidos às coisas e aos agentes políticos. O candidato que saiu vitorioso das eleições conseguiu posar de “candidato normal”, embora proclamasse devoção ao golpe de 1964 e à tortura. Tendo obtido seu registro na Justiça Eleitoral, passou a expressar, aos berros, a negação do pacto democrático que se estabeleceu no Brasil a partir de 1985. Chegou ao poder pela via democrática e, instalado no poder, vem demolindo por dentro o edifício da democracia.

Diante disso, o campo democrático decidiu ir às ruas. Até que enfim. Se nada for feito, o sujeito que não foi um candidato normal e não é um presidente normal prosseguirá com seu projeto anormal. E agora? Como os jornais vão reportar esse dilema? É legítimo torcer os fatos para fazer parecer que as forças de esquerda são um mero espelhamento em negativo da extrema direita? É saudável esquecer que os governos de centro ou moderadamente de esquerda, apesar dos tenebrosos escândalos de corrupção, fortaleceram as instituições, especialmente as encarregadas de combater a corrupção? Se até o ex-juiz Sergio Moro reconheceu esse fato, por que não narrá-lo e explicá-lo a contento? Não hesitemos mais: a pior corrupção é a corrosão intencional do Estado que vem sendo implementada pelas autoridades de turno, para o êxtase de suas milícias digitais (e nem tão digitais assim).

Que o jornalismo crítico acorde juntamente com as ruas. Sem demora. Se a barbárie vencer, a primeira vítima será, como já vem sendo, a imprensa.


JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.