O encontro Trump-Xi em Osaka

Um entendimento predominantemente comercial e limitado é possível

SERGIO AMARAL*, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 03h00

As reuniões do G-20 têm-se revelado o palco favorito para os encontros entre Donald Trump e Xi Jinping. Agora em Osaka, na avaliação do presidente norte-americano, as conversas sobre a chamada guerra comercial foram ”excelentes” e as perspectivas, promissoras. Os dois presidentes se dispuseram a retomar as negociações sobre o contencioso econômico e a respeitar um período de trégua, durante o qual não imporão tarifas adicionais no comércio bilateral. Trump sinalizou ainda um tratamento mais flexível para a Huawei, enquanto Xi se dispôs mais uma vez a importar um volume maior de produtos agrícolas dos Estados Unidos.

Em dezembro de 2018, por ocasião da reunião do G-20 em Buenos Aires, os dois presidentes também haviam acordado uma trégua. Vencido o prazo, sem acordo, as negociações foram postergadas e pouco depois, em maio, suspensas. A razão principal do fracasso teria sido a inclusão de temas que, segundo os negociadores chineses, iam além do comércio e tocavam aspectos centrais do modelo econômico chinês.

As negociações explicitaram, no entanto, os termos de uma agenda negociadora complexa e de um amplo cardápio de temas, que podem ser distribuídos em três patamares distintos. O primeiro é o do comércio propriamente dito, que faz ruído por afetar um universo numeroso de produtores e consumidores. Não obstante, seria mais fácil de resolver. Nesse plano, o objetivo de Trump é o de promover o que chama de reciprocal trade, ou seja, a substancial redução do déficit comercial dos Estados Unidos em relação à China, hoje da ordem de US$ 370 bilhões, para um volume de trocas próximo de US$ 800 bilhões. Essa foi uma das promessas de sua campanha eleitoral e que se mostrou mais difícil de cumprir, no momento em que a economia norte-americana alcançou taxas altas de crescimento e, portanto, de importações. Para Xi, contudo, esse seria um problema mais fácil, pois em alguns casos bastaria comprar mais dos Estados Unidos, em detrimento de outros fornecedores, entre os quais o Brasil, no caso da soja.

O segundo patamar é o da tecnologia, que se reveste de caráter estratégico. O avanço da China em tecnologias de ponta, como telecomunicações e inteligência artificial, seja por desenvolvimento próprio, aquisição ou transferência (ou roubo, como chamam alguns analistas americanos), pode pôr em questão, dentro de alguns anos, a superioridade industrial ou até militar dos Estados Unidos. Por isso o governo Trump decidiu restringir ou mesmo conter o acesso da China a essas tecnologias, mediante uma série de instrumentos, tal como maior rigor na concessão de licenças de exportação ou na autorização de investimentos chineses nos Estados Unidos em setores sensíveis; maior controle sobre os vistos para professores e estudantes chineses em universidades norte-americanas (que já chegam a 300 mil); por fim pelo chamado decoupling, ou seja, as políticas que visam a desentranhar equipamentos ou tecnologias chinesas das cadeias de valor comandadas por empresas norte-americanas. Esse é o caso da Huawei, emblemático das ações de Washington.

Por fim, o Departamento de Comércio passou a questionar o modelo econômico chinês, na OMC e em outros foros, sob a alegação de práticas desleais de comércio por meio de subsídio implícito nas operações das empresas estatais chinesas.

O último round de negociações evidenciou, assim, que a guerra comercial é mais do que comércio, o conflito tecnológico é mais do que tecnologia e a contestação da OMC é mais do que concorrência desleal. O que está por trás desse conjunto de fricções é a emergência da China como uma das mais importantes economias e ator político do século 21.

De um lado, a China não tem interesse numa confrontação com os Estados Unidos. Porque se houver alguma – o que, para Henry Kissinger, seria uma tragédia mundial – prefere que seja mais tarde, quando a China tiver completado esta fase do seu ciclo tecnológico. De outro, Trump, inspirado por seu lema de campanha, “Make America great again”, percebe que, se for para conter a China, isso terá de ser feito logo e antes de que o país possa concluir o plano Indústria 2025, que será decisivo para a autonomia tecnológica e industrial chinesa. Os objetivos últimos de cada um dos lados, no processo negociador que apenas se inicia, parecem, assim, de difícil conciliação.

A trégua de Osaka cria a expectativa e a esperança de que seja possível sustar a escalada de tarifas e sanções recíprocas, cujos efeitos já se fazem sentir tanto num país quanto no outro, na retomada da econômica mundial e num grande número de países, entre eles o Brasil. Apesar dos subsídios multibilionários que receberam, os agricultores norte-americanos elevaram recentemente o tom de suas queixas porque perderam mercado para alguns produtos relevantes, como a soja. Seus fornecedores também foram atingidos, em importantes redutos eleitorais do próprio presidente Trump. Os mercados financeiros temem o impacto da guerra comercial sobre a confiança dos investidores. Na China, as incertezas foram o principal fator da queda recente na bolsa de valores.

Um entendimento predominantemente comercial e limitado é possível. Mas se a agenda negociadora vier a incluir pontos sensíveis ou mesmo cláusulas para sanção unilateral (enforcement ), a aceitação por Beijing será mais difícil, se não improvável.

Depois de declarar em Osaka que não tem pressa e prefere esperar mais para ter um acordo melhor, que seja um “evento histórico”, é improvável que Trump submeta à opinião pública e ao Congresso um acordo que possa ser considerado fraco, especialmente por seus eleitores e, sobretudo, no curso de uma campanha eleitoral, que já se iniciou.

*EX-EMBAIXADOR EM WASHINGTON E EX-MINISTRO DA INDÚSTRIA E DO COMÉRCIO EXTERIOR

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