O fatalismo e a esperança

Não existe futuro promissor num Brasil governado por Lula ou Bolsonaro

Luiz Felipe D’Avila, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2021 | 03h00

Pessimistas são figuras patéticas e corresponsáveis pela desastrosa crise do País. O fatalismo dos pessimistas retrata uma atitude covarde. Esse grupo eclético de saúvas constitui o núcleo duro do Centrão político, empresarial e intelectual, que não se constrange em adular o governo do dia para conquistar cargos, influência e extrair benefícios, em nome da “governabilidade”. Reflete o nefasto adesismo aos donos do poder – não importa se são populistas de direita ou de esquerda. Enquanto cortejavam Lula da Silva, o presidente e seus comparsas construíam o maior esquema de corrupção da História, desvendado pela Operação Lava Jato. Em seguida se aproximaram de Dilma Rousseff, que levou o País para o abismo da recessão, do desemprego e do descontrole das contas públicas. Finalmente, apostaram na agenda liberal de Jair Bolsonaro, quando o track record do capitão já retratava um sujeito desequilibrado que sempre defendeu interesses corporativistas.

Se o primeiro-ministro britânico Winston Churchill se tivesse curvado ao “bom senso” dos pessimistas em 1940, teria aceitado os termos de paz propostos por Adolf Hitler, em vez de enfrentá-lo e vencer a guerra. A defesa da democracia e da liberdade depende dos atos de grandeza, coragem e heroísmo dos seus líderes e dos seus cidadãos. É justamente na hora da crise e da dificuldade que revelamos os valores que prezamos e estamos dispostos a defender. Felizmente, no Brasil há pessoas que acreditam nas virtudes da democracia e compreendem que o exercício do livre-arbítrio pode mudar o curso da História. São brasileiros que rejeitam o fatalismo dos pessimistas que não acreditam no surgimento de uma candidatura presidencial competitiva capaz de vencer Lula e Bolsonaro em 2022. Há três sinais que reanimam a esperança de derrotarmos os populistas.

Primeiro, as pesquisas de opinião indicam que 54% dos brasileiros descartam votar em Lula e Bolsonaro. Se o candidato do polo democrático conseguir metade desses votos, ele estará no segundo turno e provavelmente será o próximo presidente do Brasil. A maioria dos brasileiros deseja eleger um presidente intolerante com a corrupção e capaz de pacificar a Nação; um governante que enfrente a questão da desigualdade social com o aumento da igualdade de oportunidades e use o seu poder para restabelecer a confiança no Brasil e nas instituições – condição vital para a retomada da economia, do investimento, emprego e renda no País. Precisamos de um presidente que compreenda que o meio ambiente é o maior ativo nacional e fonte de riqueza para impulsionar o crescimento sustentável, o desenvolvimento regional e a reinserção do Brasil no mundo.

Segundo, os impulsos arbitrários de Bolsonaro vêm sendo sistematicamente contidos pelas instituições. Os devaneios autoritários do presidente não encontram eco nas Forças Armadas, nas Cortes e no Congresso. Aliás, a atitude exemplar dos comandantes militares de reafirmar a disposição categórica das Forças Armadas de defender a democracia, a Constituição e as instituições e não se tornar uma milícia política do presidente da República foi cabalmente retratada no ato de renúncia coletiva do ministro da Defesa, Fernando Azevedo, e dos comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.

Terceiro, os presidenciáveis do polo democrático uniram-se em torno de um primeiro gesto importante: a assinatura de um manifesto em defesa da democracia. É preciso respeitar o tempo da política para construir a candidatura de centro. Nos Estados Unidos esse processo se dá por meio das primárias nos Partidos Republicano e Democrata. Mas no Brasil as “primárias” do polo democrático serão determinadas pelo teste de viabilidade política dos presidenciáveis. O candidato terá de ultrapassar os seguintes obstáculos: conquistar o eleitor e ter baixo índice de rejeição nas pesquisas de opinião, ser capaz de construir uma narrativa política sobre os temas nacionais capaz de empolgar o povo e, por fim, conquistar o apoio dos grandes partidos.

Marcel Proust, o célebre escritor francês, dizia que “é mais fácil viver na falsa procura do que na responsabilidade de encontrar”. Os pessimistas vivem na falsa procura. Não existe futuro promissor num Brasil governado por Lula ou Bolsonaro. Se o conformismo e a omissão dos pessimistas prevalecerem, nossos filhos e netos nos questionarão sobre como fomos tão irresponsáveis, incompetentes e omissos para eleger líderes populistas durante 20 anos. Os presidentes populistas debilitaram a democracia, destruíram a economia, aprofundaram a miséria social, arruinaram milhões de empregos e rechaçaram investimentos globais por causa de uma desastrosa política ambiental. O populismo destruiu a esperança de uma geração que deseja trabalhar, empreender, criar e inovar. Portanto, cabe a nós construir uma candidatura democrática capaz de derrotar o charlatanismo dos populistas de esquerda e de direita e deixar um Brasil melhor para as futuras gerações.


CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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