O faz de conta do dia a dia

Mineradora desprezou sua grandeza e jogou a responsabilidade empresarial no lixo

*FLÁVIO TAVARES, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 03h00

A simulação, esse faz de conta do que não é, domina a sociedade atual e já nem percebemos. Não me refiro à ficção das telenovelas ou da literatura, nem aos sonhos da poesia ou aos devaneios de cada um, mas à imposição da mentira como se verdade fosse.

A Vale S.A., por exemplo, é uma das maiores empresas do País, superada apenas pela Petrobrás, e exatamente por isso não se pode comportar como aquelas antigas “vendinhas” de bairro que confundiam mortadela com presunto, sem distinguir uma do outro. Nesse caso, não se tratava de “simulação”, mas de ignorância crassa ou paladar insípido...

A tragédia dos resíduos da mina de Brumadinho, em janeiro, escancarou para o mundo um crime causado pela desídia e pela ânsia de lucro fácil. Além da morte de três centenas de pessoas, esterilizou áreas de cultivo e degradou rios, exterminando flora e fauna. Agora, noutras minas vizinhas, já desativadas, o aluvião assassino ameaça Ouro Preto, Nova Lima e Barão de Cocais, também em Minas Gerais.

Dias atrás, porém, a Vale ocupou páginas inteiras dos jornais de Minas, São Paulo, Rio e outros Estados para chamar a tragédia de apenas “um transtorno”. Em página inteira publicada em 1.º de abril (coincidentemente, o “dia da mentira”), afirmou textualmente: “Ciente dos transtornos causados pelos últimos acontecimentos em Minas Gerais (...), para atender a nova legislação e garantir a segurança da população, a Vale subiu para ‘nível 3’ o índice de quatro barragens já desativadas, inativas desde 2006”.

O arremate é um primor de sarcasmo e alienação: “A Vale pede desculpas pelos transtornos causados e agradece às autoridades pelo apoio prestado”.

Classificar a tragédia como um “transtorno” não é só transgredir o idioma. É uma agressão à realidade em si e ao bom senso de todos nós.

O significado de “transtornar” é atrapalhar, alterar ou desorganizar a ordem das coisas, muito diferente do horror nas minas da Vale em Brumadinho ou, antes, em Mariana. Esse palavreado fútil, alheio à realidade, torna-se uma mentira em si e tem um nome, treta, que qualquer dicionário aponta como algo inventado para burlar.

O povo chama isso de “enganação”, mas é muito mais. É tentar fazer da mentira uma verdade suprema e transformá-la em monumento a adorar, como o “bezerro de ouro” da Bíblia.

O ato de enganar, simular e inventar o que não é (a “enganação”, enfim) é anterior à última tragédia. O Ministério Público demonstrou que a Vale obstruiu a fiscalização sobre a situação das barragens de Brumadinho, utilizando-se de uma empresa alemã de “segurança” para adulterar laudos. Assim, dois meses antes do desmoronamento pediu o encerramento da investigação do próprio Ministério Público.

A maior mineradora do País desprezou (ou traiu) sua própria grandeza e seu pioneirismo jogando na lata do lixo a responsabilidade empresarial. Ou, pior ainda, entendeu que sua única responsabilidade era ter lucro. A mineração é atividade sensível e perigosa em si mesma, cujo exercício – mais do que cuidados – exige responsabilidade ampla e profunda. Caso contrário, torna-se catastrófica e ofende a própria vida ao longo de várias gerações, como agora em Brumadinho.

Ou alguém pensa que as terras e os rios que a avalanche tornou estéreis – ou “matou” – poderão ser reabilitados com alguns bilhões de reais provindos de multas que nunca serão pagas? Ou que possam ser “substituídos” por terras e águas “novas”, como os móveis da casa infestados de cupim?

O faz de conta tem, também, um lado ridiculamente perigoso. A Vale anuncia agora que “subiu para nível 3” o índice de quatro barragens, mas – em verdade – isso apenas significa uma série de exercícios preparando a população para evacuar a área em caso de rompimento. Ou seja, treina para o desastre, cria o hábito da tragédia, como se a hecatombe fosse parte do cotidiano...

A simulação passou a estar em todas as partes, num faz de conta contínuo que habita nossa vida sem que o percebamos.

Lembram-se de João de Deus, que se dizia médium espírita e era, de fato, uma mistura de estuprador místico e embusteiro, acusado até de assassinatos? O aparente poder da mente, que ele dizia ter ou aparentava possuir, não era dele, mas do próprio enfermo. Ele apenas fantasiava o “milagre” ou a “cura”.

Contam os Evangelhos que o próprio Jesus, quando chamado a curar, abençoava o enfermo e lhe dizia: “Tua fé te curou. Vai em paz”.

A fé, ou que outro nome tenha, curou aqueles que o hipócrita e falso médium dizia ter curado. Nenhuma religião, filosofia ou crença ligada ao sobrenatural faz do dinheiro um modo de vida, menos ainda de vida nababesca. Nem vende caridade. A recompensa é praticá-la por amor.

Mas até a relação amorosa simula muitas vezes um amor de faz de conta. Aí estão os recentes casos de feminicídio, em que o “amor” nunca foi amor, mas violento ódio profundo, e a vítima se torna vítima apenas por ser mulher.

Quando chega à política, a simulação se expande. Os aglomerados chamados de “partidos políticos” deixaram de representar programas de ação para a sociedade e o Estado. E os políticos se transformam em qualquer coisa para apregoar o que não são nem nunca foram e, assim, conquistar o poder.

Aí estão os casos de Lula da Silva e Michel Temer, até há bem pouco “salvadores da moralidade” ou da pátria, até. Um, preso; o outro, réu por corrupção múltipla. Agora, em apenas três meses, as trapalhadas e confusões de Jair Bolsonaro se sobrepõem umas às outras e chegam a simular que a ditadura não foi ditadura.

E o faz de conta se expande como maré cheia. O perigo é nos habituarmos com o que não é.

JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA EM 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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