O futuro da TV Cultura

Nova gestão vai conduzi-la no desafio de reinventar-se na era da revolução digital

JOÃO DORIA*, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 03h00

O governo de São Paulo acaba de anunciar um ambicioso plano para modernizar a gestão da rádio e TV Cultura. O objetivo é desenvolver novas plataformas, formas de financiamento e produtos para a melhor e mais bem-sucedida televisão pública do Brasil.

A TV Cultura completar 50 anos em 2019, e com boas razões para comemorar. Mais de 400 prêmios nacionais e internacionais conquistados, reconhecimento da crítica e aprovação do público são testemunhos do acerto nos caminhos da TV Cultura, com autonomia intelectual, política e administrativa.

O novo presidente da Fundação Padre Anchieta, José Roberto Maluf, tem larga experiência em televisão e foi diretor dos Grupos Bandeirantes, SBT e Fundação Cásper Líbero. Agora, tem a missão de substituir Marcos Mendonça, que acaba de concluir sua segunda brilhante gestão. Na presidência do novo Conselho Gestor da TV Cultura – uma inovação que atuará com o Conselho Curador na busca de parcerias com o setor privado – está Boni, José Bonifácio Oliveira Sobrinho, um dos executivos mais importantes da história da TV brasileira. Ele trabalhará de forma voluntária, o que é uma grande honra para São Paulo, ao lado de outros valorosos colaboradores.

Esta seleção de talentos vai conduzir a TV Cultura no desafio da sexta década: reinventar-se na era da revolução digital, da televisão por streaming sob demanda, do consumidor que ganhou poder com as novas tecnologias, dos jovens que querem mais do que uma TV convencional. Agora o cidadão decide quando, onde e como quer consumir entretenimento, informação e serviço. E as mudanças serão muito rápidas.

As pessoas não querem mais esperar para ver seus programas favoritos em horários fixos. Hoje, o mundo do entretenimento passa pelos smartphones, WhatsApp, Netflix e jogos em alta definição. Para as novíssimas gerações, essa é uma experiência contagiante.

Se a oferta de entretenimento, serviço e informação numa emissora não é flexível, o consumidor provavelmente migrará para outras mais amigáveis, disponíveis às centenas em outras opções e nichos de programação. E em qualquer horário.

É por isso que, no Brasil e no mundo, um número crescente de usuários paga para ter mais flexibilidade até na TV aberta. Para ter conteúdo seja antes da estreia, seja depois da exibição regular ou em blocos de capítulos, sem intervalos comerciais. Também o jornalismo televisivo pode ser visto e revisto a qualquer hora do dia ou da noite.

Da invenção da prensa de Gutemberg ao primeiro jornal impresso diário, na Alemanha, passaram-se 200 anos. Do telégrafo, pioneiro em transmissão de informações por ondas, até a popularização da televisão, mais cem anos. Do surgimento da internet comercial até a revolução da TV por streaming sob demanda, não foram nem 20 anos. A próxima grande onda virá com a internet 5G, que vai mudar os conceitos de velocidade e comunicação, em menos de quatro anos.

Quanto mais a digitalização e as novas tecnologias avançam, mais se ouve dizer que a televisão está em crise. Do alto de sua experiência, Boni dá o rumo: não é crise, é oportunidade.

Modelo de TV pública, a gigante BBC de Londres tem hoje um departamento batizado de Future Media, responsável por toda a sua produção digital e o desenvolvimento de novas tecnologias. A PBS americana, outro modelo consagrado, mas distinto, tornou-se bastante conhecida entre nós por ser a criadora do Vila Sésamo, sucesso mundial e referência em programas educativos para o público infantil desde o fim da década de 1960. Hoje, a PBS é uma distribuidora de programação entre as emissoras afiliadas, com importante produção própria e retransmissão de outros produtos de alta qualidade, inclusive da BBC e dos canais britânicos ITV e Channel 4.

A revolução digital impôs a todos os meios de comunicação, no mundo inteiro, a necessidade de mudar para sobreviver.

No Brasil, o forte anseio da população por mudanças na política e na qualidade dos serviços públicos exige mudanças nas formas de governar.

Felizmente, os brasileiros deixaram para trás um tempo de obscurantismo ideológico que impedia que o setor público fizesse parcerias com o setor privado para trazer investimentos e inovação na atividade pública.

A nova TV Cultura se coloca mais uma vez na vanguarda do desenvolvimento nacional e com isso assume o desafio de desbravar uma área em constante evolução como a Comunicação. E o objetivo é claro: melhorar a oferta de serviços, incentivar a atração de novas tecnologias e adotar modelos de gestão mais eficientes em que o principal beneficiado será sempre o telespectador.

Não por acaso, a nova administração da emissora pretende colocá-la numa grande plataforma. Em São Paulo, em todo o Brasil e no exterior, um público cada vez maior terá acesso ao seu trabalho, à sua programação, que prima pela excelência e respeita a inteligência dos seus telespectadores.

Vamos buscar, no mercado, mais audiência. E, no setor privado, mais faturamento, com publicidade e licenciamentos. Com mais recursos, poderemos fazer uma TV ainda melhor. Vamos atingir públicos diferentes com conteúdos distintos, que poderão ser desfrutados de muitas formas, inclusive em celulares e tablets, com qualidade e segurança.

A TV Cultura sempre foi dirigida por quem pensava à frente do seu tempo. Além do compromisso permanente com a qualidade, duas outras tradições construíram esta grande televisão pública: o apreço pela inovação e o tratamento especial a um tema estratégico para o Brasil, a educação. Estamos começando, agora, um novo modelo de gestão para um novo tempo. Criando uma televisão nova, alimentada pela paixão, pela informação e pela educação.

* JOÃO DORIA É GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.