O G-7 está de volta

Estará o Brasil sintonizado com os deslocamentos na cena internacional?

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 03h00

O Grupo dos Sete nasceu de uma conferência convocada pelo presidente francês Giscard d’Estaing, em 1975, para coordenar uma posição comum ante a crise do petróleo e as ameaças da Opep. A partir de então tem-se reunido anualmente, com a presença de um grupo representativo das economias e democracias mais avançadas – EUA, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália. É um organismo internacional peculiar, pois não se originou de um tratado, não tem um secretariado permanente nem aprova resoluções, apenas registra suas conclusões num comunicado conjunto.

Nos anos 80, uma de suas reuniões teve como foco a crise da dívida dos países em desenvolvimento. Como se fosse um diretório da comunidade internacional, suas conclusões foram em seguida adotadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial.

Aos poucos, alguns dos temas que vinham sendo tratados pelo G-7 migraram para o G-20, sobretudo comércio, finanças e até meio ambiente, pois este grupo contava com uma representação geográfica mais ampla para decidir sobre questões de interesse global. Na era Trump, o G-7 sofreu novo esvaziamento, em decorrência da visão do America first e das fricções e ameaças do presidente norte-americano aos demais membros, minando assim a construção de convergências.

Joe Biden, ao contrário, aposta no entendimento com o G-7 em ao menos cinco pontos prioritários de sua política externa: 1) A centralidade da democracia, que deveria inspirar não só a restauração da Aliança Transatlântica – um ponto-chave de sua visão internacional –, mas também a constituição de uma frente comum para conter a China. 2) A linha divisória na comunidade internacional não passaria mais pela oposição entre ideologias, ou pela distância entre países pobres e ricos, mas pela distinção entre democracias e autocracias. 3) A China dominou a agenda do G-7, especialmente pelo empenho do presidente norte-americano em convencer seus aliados a condenar a violação de direitos humanos por Beijing, conter a sua expansão econômica por meio da iniciativa Belt and Road, reduzir a transferência de tecnologias sensíveis e suspender a implementação do acordo sobre investimentos de vários países europeus com a China. 4) O combate à mudança climática, outro eixo fundamental da diplomacia de Biden, foi retomado no encontro da Cornualha, à luz das discussões em curso para a preparação da COP-26, em novembro, na Escócia, em que a Aliança Transatlântica terá mais uma vez papel de destaque, sob a inspiração de um Green New Deal, em ambos os lados do Atlântico. 5) Por fim, o propósito comum de disciplinar a globalização foi ratificado por um entendimento sobre a tributação das multinacionais em escala mundial, enquanto o outro dos grandes temas globais, a pandemia de covid- 19, levou a um consenso sobre a distribuição de vacinas e a flexibilização das regras de propriedade intelectual para permitir a sua produção num número maior de países.

Esse rol de entendimentos e iniciativas mostra que o G-7 voltou a ser uma instância relevante para a concertação entre as maiores economias e democracias mundiais, assim como uma peça privilegiada no xadrez geopolítico do presidente norte-americano. Resta saber, no entanto, se as iniciativas anunciadas no recente comunicado do G-7 poderão ser efetivamente implementadas.

Em primeiro lugar, haverá recursos para investimentos em infraestrutura comparáveis aos do programa chinês? Em segundo, as diferenças de visão e de interesses entre os próprios europeus, no que se refere ao relacionamento com a China, permitirão uma postura convergente da Aliança Atlântica nas negociações com Beijing?

De um lado, Itália, França e Alemanha, com mais fortes interesses comerciais e mesmo políticos com Beijing, são relutantes em aplicar pressões fortes contra a China. De outro, no entanto, Canadá e Reino Unidos parecem mais dispostos em cerrar fileiras ao lado de Washington.

De qualquer modo, a obstinação de Biden vai aos poucos tecendo uma rede de alianças, com Austrália, Japão e Coreia do Sul, no âmbito do Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad). Com um número maior de países na revitalização da Otan, em defesa contra o expansionismo russo, mas que agora poderá voltar-se também contra a China, considerada o outro competidor estratégico. Em resumo, a nova diplomacia norte-americana, ao mesmo tempo que rejeita a política externa de Trump, vai fincando os pilares do que Boris Johnson, o anfitrião do evento, chamou o reset da ordem internacional.

Vale indagar também se o Brasil está sintonizado com os deslocamentos profundos em curso na cena internacional. Mais do que isso, se está preparado para assumir o papel de ator relevante, como sempre foi, ou apenas o de coadjuvante menor de uma nova configuração geopolítica e econômica que já se desenha no horizonte.

Apesar dos muitos equívocos de um passado recente, temos recursos e um grande potencial no agronegócio, no comércio e, sobretudo, na questão ambiental, que, em vez de um passivo, como é hoje, pode voltar a ser um importante ativo para a nossa reconexão com as novas tendências mundiais.


DIPLOMATA, FOI MINISTRO DO DESENVOLVIMENTO,

DA INDÚSTRIA E DO COMÉRCIO

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