O livro que (quase) mata a charada

'Os Engenheiros do Caos’ é imprescindível para entender o Brasil e o mundo de hoje

Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2020 | 03h00

A internet, sinônimo de participação, é o instrumento de uma revolução democrática destinada a arrancar o poder das mãos de uma casta de profissionais da política e entregá-lo ao homem comum, ou é, antes de tudo, um instrumento de controle, vetor de uma revolução a partir do topo que capta uma quantidade enorme de dados a fim de utilizá-los para fins políticos?

É nessa segunda internet e nos personagens que primeiro a entenderam e usaram como tal que se concentra "Os Engenheiros do Caos", de Giuliano Da Empoli, um livro imprescindível para entender o Brasil e o mundo de hoje.

Com intuições brilhantes sobre a natureza humana, a internet e a democracia na era do narcisismo de massa, ele mergulha nos bastidores das campanhas que elegeram (Obama), Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini, Bibi Netanyahu e Viktor Orbán, deslocando a luta pela conquista de votos, “da tentativa de unir eleitores em torno de um denominador comum numa lógica que tendia a marginalizar os extremistas do passado, para a arte de inflamar paixões no maior número possível de grupelhos que valoriza e põe os extremistas no centro do processo de hoje” (Bolsonaro é só uma menção, pois o livro é de dezembro de 2019).

Os cientistas de dados, mesmo usando só as chaves classificatórias do Facebook e similares, conseguem operacionalizar campanhas com milhares de grupos sendo bombardeados por mensagens personalizadas, até contraditórias entre si, sem que os “alvos” jamais fiquem sabendo o que têm em comum com os demais apoiadores dos “seus” candidatos. A campanha do Brexit, por exemplo, foi feita com o disparo de bilhões de mensagens sob medida: para os animalistas, uma sobre as regulamentações europeias que ameaçam os direitos dos animais; para os caçadores, sobre as regulamentações europeias que, ao contrário, protegem os animais; para os libertários, mensagens sobre o peso da burocracia de Bruxelas; para os estatistas, sobre os recursos desviados do Estado de bem-estar para a União, e assim por diante...

A coisa começa na Itália, “o Vale do Silício do populismo”. É do vazio da morte da velha política pela Operação Mãos Limpas que surge Gianroberto Casaleggio, “mistura de John Lennon pós-moderno com a cibercultura californiana” que, com o país procurando algo novo, é o primeiro a abrir a porta para a ação política radical por fora dos partidos e do parlamento, “esse monumento aos mortos”, com o site do Movimento 5 Estrelas, “uma ideia à procura de quem a encarnasse”. Ele arma de algoritmos a exploração do “sentimento de raiva que atravessa todas as sociedades, alimentado por aqueles que pensam ter sido lesados, excluídos, discriminados ou insuficientemente ouvidos”. E para sua surpresa quem virá a encarná-la são outsiders histriônicos cuja estrela sobe tanto mais vertiginosamente quanto mais “incorretas” e iconoclastas são suas manifestações e o escândalo com elas do establishment e da mídia tradicional, que “cai em todas as suas provocações”.

O refino da fórmula dá-se com a parceria de Steve Bannon e Andrew Breitbart, jornalista para quem “o establishment americano está impregnado de uma cultura progressista hipócrita e elitista que se apoia no Democrat Media Complex para traçar as fronteiras do justo e do injusto, do dizível e do indizível, pautar o discurso publico e perseguir ferozmente os hereges”.

“The Donald”, com sua longa experiência de televisão, logo se dá conta de que as eleições americanas são “um reality show cheio de maus atores” e, com seu talento midiático, o slogan “Deixe-me ser o porta-voz da sua ira” e uma absoluta falta de cerimônia para com “todos quantos se orientam pelas preocupações do New York Times com os banheiros transgênero e os casamentos homossexuais, operou o milagre de fazer de um bilionário nova-iorquino a voz dos excluídos de todos os 44 Estados americanos que não são banhados nem pelo Pacífico, nem pelo Atlântico”.

Da Empoli enxerga as afinidades eletivas perfeitas entre o mundo das redes e alguma forma de democracia direta, e tem todas as razões do mundo para temer esta generalista, violenta e sem filtros, que entidades como o Movimento 5 Estrelas querem impor e tem os mesmos vícios que a que o PT tentou nos enfiar goela abaixo diversas vezes durante o reinado da dinastia Lula. 

Como quase toda a geração dos que viveram sob a hegemonia ininterrupta da esquerda nos últimos cem anos, Da Empoli parece não ter nenhuma visibilidade do sistema de democracia semidireta sólida e transparentemente ancorada na vontade popular, defendida de eventuais pendores autoritários pela pulverização do poder proporcionada pelo sistema de eleição distrital pura que se pratica nos Estados Unidos desde a virada do século 19 para o 20. Não há dúvida que a vida conectada levará a algum modelo de democracia mais direta no futuro imediato. Mas para todos quantos souberem escolher a boa não há nada a temer. Liberados de uma política que hoje é bandalha porque pode, se estarão habilitando, ao ganhar o poder de mandar nela, a dar o mesmo salto espetacular que os Estados Unidos deram no século 20 tanto em matéria de liberdade quanto de afluência material.

JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

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