O lobby da morte na incursão ao Supremo

Bolsonaro defende reabertura, mas o governo falha até na ajuda já anunciada

*Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 03h00

O lobby da morte cruzou a Praça dos Três Poderes, na quinta-feira, na marcha do presidente Jair Bolsonaro e de representantes da indústria até o Supremo Tribunal Federal (STF). Numa visita-surpresa, o presidente da República foi pressionar o chefe do Poder Judiciário em busca de apoio a uma atabalhoada reabertura da economia. Exibiu de novo seu desprezo pela vida dos brasileiros e pela ciência médica, dessa vez com apoio, talvez involuntário em alguns casos, de porta-vozes do capital privado. No mesmo dia seria anunciada a morte de mais 610 pessoas, com o total de óbitos elevado a 9.146. No Estado de São Paulo, a extensão da quarentena até 31 de maio, anunciada no dia seguinte, marcou o reconhecimento de um quadro ainda muito adverso e com muito risco de vida. Mas sobra a pergunta: qual a importância da vida, quando a prioridade presidencial é buscar apoio, proteger a si e aos seus de investigações muito inconvenientes e cuidar da reeleição em 2022?

Bolsonaro discursou no STF sem olhar o anfitrião, enquanto a cena era transmitida, também sem aviso, por iniciativa do Executivo. Foi mais uma baixaria bolsonariana, mas com uma novidade notável: a presença de coadjuvantes de elite. O presidente do Supremo, Antonio Dias Toffoli, deu a resposta cabível e em tom civilizado: o isolamento social é a melhor defesa contra a doença, até agora, é preciso dar atenção à ciência e, enfim, cabe ao governo federal buscar entendimento com os governos estaduais e municipais para planejar a próxima etapa.

A tentativa de repartir com o Judiciário a responsabilidade pela reabertura fracassou. O presidente Bolsonaro poderia, ouvindo o ministro Dias Toffoli, ter aprendido algo sobre Presidência e governo. Sairia pelo menos com esse lucro. Mas esses temas permanecem fora de suas preocupações.

A marcha, quase uma invasão, ocorreu sem o ministro da Saúde, empenhado nos últimos dias em defender o lockdown, um amplo fechamento, nas áreas em pior situação. Distante da medicina e da ciência, e de novo citado quase como aberração pela revista Lancet, Bolsonaro ainda falaria, na sexta-feira, de um planejado churrasco para umas 30 pessoas. Programada para domingo, a festinha deveria incluir uma pelada. Federações de futebol têm sido mais cautelosas. Quem gosta de assistir a um joguinho tem assistido a videoteipes, às vezes gravados há meio século.

Voltando à quinta-feira: na saída do STF, o presidente parou na calçada, com o grupo em torno dele, e fez um pequeno comício sobre a paralisia econômica. O ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou a mensagem dramática. Mas ninguém falou sobre os R$ 40 bilhões prometidos para evitar demissões e ainda quase intactos, como informou o Estado na sexta-feira.

Só R$ 413,5 milhões, 1% dessa verba, haviam sido liberados até quinta-feira, cerca de um mês depois de editada a Medida Provisória (MP) 944. Essa MP foi parte do pacote inicial de emergência. Empregadores deveriam sacar esse dinheiro para cobrir salários, mas o acesso é reservado a empresas com folha de pagamento processada num banco. Como em outras ações, o objetivo central foi prejudicado por um detalhe socialmente inútil. Nos Estados Unidos, muitos bilhões de dólares vêm sendo distribuídos com o mínimo de complicações, porque se distingue o essencial do acessório.

Mais uma vez a equipe econômica agiu, no caso dos R$ 40 bilhões, com escasso conhecimento do mundo real. O mesmo desconhecimento foi exibido na montagem do auxílio emergencial a milhões de trabalhadores informais e de baixa renda. As filas, a desinformação de milhares de pessoas e as dificuldades para formalizar o direito ao recebimento comprovam a enorme distância entre os gabinetes de Brasília, especialmente no atual governo, e o dia a dia da maior parte da sociedade.

Enquanto a epidemia avança e mata sem sinais de arrefecimento, a política mais prudente, segundo médicos e economistas de respeito, seria combinar o isolamento com o máximo de ajuda possível aos necessitados. Organizações civis vêm realizando parte desse trabalho, com a distribuição de alimentos e de produtos de higiene e limpeza. Há comida suficiente no Brasil e essa é uma bênção muito especial. Um governo mais ativo e mais comprometido com o socorro aos mais vulneráveis estaria empenhado em coordenar operações de socorro.

Mas o presidente se mostra mais interessado em atender a outras demandas. Tentando ampliar a lista de atividades essenciais, incluiu num decreto segmentos industriais já liberados em muitos Estados para operar. Só se exige, nesses casos, a observância de normas de saúde. Indústrias autorizadas a operar têm reduzido, no entanto, a produção. Nada mais natural, quando falta demanda. Daí a insistência em apressar o abandono do isolamento. É preciso pôr as pessoas na rua, pouco importando o risco de maior contágio, já observado em locais onde a abertura foi descuidada. Quem se importa com isso? Não incluam Bolsonaro nessa lista. Nem as funerárias, já sobrecarregadas, vêm pedindo esse favor ao presidente.

*JORNALISTA

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