O mágico senso comum da sobrevivência

A desproporção entre o necessário e o disponível não é um privilégio brasileiro

*Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 03h00

Cultuamos ativos e a importância de suas roupagens é relativa, são-nos oferecidos como aplicações financeiras, imóveis, móveis, obras de arte e vários artigos, palpáveis ou não. A dimensão humana no entendimento de sua plenitude material é absolutamente imprevisível e individual. Um proletário pode destinar seus escassos recursos a causas humanitárias, enquanto é possível avistar bilionários capitulando lentamente, agarrados a fortunas que não lhes serão mais úteis em alguns instantes, dias ou semanas.

Mas, eventualmente, alguns contextos nos encarceram em mesmo sentimento e é quase mágica a consonância entre vozes e arpejos. Agora universos sociais e culturalmente distintos se aglomeram em supermercados na busca do abastecimento para suportar a realidade sombria que imaginam se instalará. Mais do que solidificar nossa máxima de que no Brasil o ano só começa após o carnaval, estamos desapegados de qualquer materialidade que não contenha alimentos não perecíveis e os emblemáticos rolos de papel higiênico.

No prefácio de nossas atuais determinações encontramos um protagonista desencadeador do desastre iminente, o turista paulistano que esteve em férias na Itália e após seu retorno foi diagnosticado com covid-19. Pois bem, já que isentamos sumariamente as não desprezíveis culpabilidades nossas e dos visitantes estrangeiros na disseminação apoteótica do vírus em nossa folia, precisamos de proporcional parcimônia carnavalesca para compreensão do que é dito por nossas autoridades sanitárias.

Não há uma enigmática verdade escondida em discursos retóricos, o que se pretende com os cuidados exaustivamente solicitados pelos meios de comunicação é prospectar a diminuição do porcentual populacional acometido e se esse horizonte ideal não for alcançado, ao menos consigamos diluir o número de casos através dos meses. Isso se justifica pela rapidez da propagação (e menos pela letalidade) dessa infecção, pois corremos riscos reais de ter mais pacientes necessitados de internação do que o número de leitos existentes.

Estudo publicado na Science nesta segunda-feira, Substantial undocumented infection facilitates the rapid dissemination of novel coronavirus, expõe resultados que tornam mais tensas nossas tarefas. Para cada caso confirmado dessa doença existem de cinco a dez que não o são e, embora esses infectados tenham formas clínicas mais brandas (com potencial de transmissão 50% menor que os casos mais explícitos e diagnosticados laboratorialmente), são responsáveis por 80% dos novos casos diagnosticados dessa virose.

Portanto, desconfiar de tudo e todos e nos protegermos de nós mesmos é o protocolo a ser obedecido na virtual blindagem do grupo de maior risco de internação hospitalar e evolução errática, os nossos idosos. Todos somos culpados e não haverá prova em contrário, salvo se pudéssemos testar todos, ou, melhor ainda, imunizar o planeta.

A desproporção entre o necessário e o disponível não é privilégio brasileiro, vê-se que Itália e Irã provaram (e provam) amargos goles do cálice das precariedades estratégicas e estruturais, bastando alguns erros para que alcançassem o caos. A França, o país mais visitado do mundo, administrava a epidemia com aparente domínio estratégico, mas já adota sanções duras e talvez tardias, agora para diluir no tempo o número de casos, destino que a Inglaterra flerta com a obrigação de replicar.

A Rússia atinge 93 casos confirmados e fecha suas fronteiras ao menos até 1.º de maio, mas sabemos pouco de seus planos, enquanto o Japão, em um quase desespero pré-olímpico, se esmera em estratagemas para conter a disseminação virótica, mas já ultrapassa os 800 casos.

Sem carnaval, mas com “otimismo” quase brasileiro, os Estados Unidos retardaram seu dimensionamento para o confronto e, embora alguns Estados se tenham antecipado, faz pouco que Trump assumiu seu papel no dramático processo. No município de Nova York, a mais simbólica ação americana neste cenário, com seus restaurantes destinados a encomendas entregues em suas portas ou levadas às residências dos clientes.

Que não demorem por aqui condutas que protejam os proprietários de bares, restaurantes e afins, para os quais a obrigatoriedade do fechamento de seus estabelecimentos legitimará suas inevitáveis solicitações de defesas perante bancos, credores e Estado.

Falta ainda a orientação midiática para ostensivo zelo na compra e no consumo de frutas e legumes, comumente manipulados pelos compradores nos comércios desses produtos e facilmente contaminados e contaminantes.

Desserviço é aproveitar o fértil solo criado pelas circunstâncias para cultivar derivações ideológicas, religiosas e xenofóbicas, as quais nos separarão à saída dos mercados, onde por alguns minutos ou horas comungamos o senso comum da sobrevivência num comportamento desmedido, mas que, se guarda alguma virtude, esta estará no exercício da soberania existencial além das posses.

*DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.