O mercado de capitais do bem

É grande o potencial de financiamento para iniciativas que, além de darem lucro, preservam emprego e não lesam o meio ambiente.

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 03h00

De longa data, o mundo financeiro é visto com suspeição e má vontade. Para os mais conspiratórios, sentado num escritório em Zurique, haveria um financista misterioso, com cara de duende, mandando em tudo o que acontece no mundo. E, nessa trama, até o meio ambiente é atropelado pelo brutal imperativo do lucro.

Com ou sem duendes, há problemas com o meio ambiente. O nosso planeta está ameaçado. E tais desmandos viraram notícias palpitantes.

Nos países ricos, de vida mais organizada e previsível, há milhões de pequenos investidores, anônimos. Surpresa! Bombardeados com a enchente de notícias alarmistas, não querem mais as ações de empresas com ficha suja nesses assuntos. Isso começa a mudar as regras do jogo.

Larry Fink, o CEO da gigantesca BlackRock, declara taxativamente que os fundos de investimento têm obrigação moral de revelar aos seus mutuários o que estão fazendo na área ambiental as empresas em que investiram.

Dentre as maiores empresas do mundo, 83% assumiram o compromisso de informar qual a pegada de carbono de sua operação. São 2.957 empresas apoiando a proposta de publicar tal balanço ecológico. Destas, 40 estão no Brasil.

Os banqueiros – que nada têm de bobos – estão preocupados. Saiu recentemente um levantamento dos grandes temores no Fórum de Davos. Quais os maiores riscos para o futuro? Da lista, todos os cinco primeiros são pesadelos que vêm de desastres ambientais. Daí as muitas iniciativas para conter essas agressões – com frequência, correndo em paralelo ao que possam fazer as políticas públicas.

Ora vejam, os executivos do mercado financeiro agora defendem um conceito amplo de sustentabilidade. Não é mais a alternativa bipolar de mata santuário ou depredação. Não viraram ambientalistas nem transbordam em generosidade. Simplesmente, não querem ir para o buraco.

Dado o opróbrio da sociedade, a empresa que emite poluentes fica com um déficit na sua conta (simbólica) de carbono. E sente-se pressionada para que reduza sua pegada ecológica. Se não o fizer, sua imagem pode ser chamuscada. O filtro que reduz a poluição custa caro e não melhora nem o produto nem reduz o seu custo de produção. Mas e o prejuízo de uma reputação manchada?

As emissões de CO2 são as maiores culpadas pelas ameaças climáticas. As chaminés soltam “toneladas de ameaças”. Então, por que não comprar e vender tonelada de CO2 neutralizada?

Não é possível produzir aço sem lançar na atmosfera uma quantidade substancial de CO2. E muitas empresas, em vez de plantar, preferem pagar a quem criar a floresta que compensa a sua poluição. Assim se cria o mercado de carbono. Por que não plantar florestas no Brasil, com toda aquela terra degradada e custos mais baixos? Alguém em Mato Grosso pode semear uma floresta e vender as toneladas de carbono sequestradas por ela.

Infelizmente, sabemos exportar soja, mas ainda não aprendemos a negociar carbono sequestrado. Ainda assim, em três anos essas transações cresceram em 30%.

Assinaram um protocolo 450 instituições financeiras comprometendo US$ 20 trilhões para financiar projetos “limpos”. É um mundo novo que se descortina. Não sabemos se o duende de Zurique está gostando ou não, mas viceja a nova “Economia Verde”. Por exemplo, dava prejuízo plantar uma floresta espelhando uma mata nativa ou tratar efluentes. Com os novos mecanismos financeiros, é possível compensar essa baixa rentabilidade.

É grande o potencial de financiamento para iniciativas que, além de darem lucro, preservam emprego e não lesam o meio ambiente. O Brasil tem uma gigantesca área de terras degradadas e com vocação para reflorestamento. É o destino óbvio desse dinheiro.

Ademais, o nosso país tem um setor moderno bem substancial. Os melhores bancos brasileiros, faz um tempinho, já entraram na Economia Verde. Seguindo esta linha, muitas empresas prometem zerar suas emissões de carbono.

Inicialmente, o setor financeiro acomodou-se às mudanças dos seus investidores. Mas acordou e põe em marcha uma pletora de iniciativas “do bem”.

Investe-se onde são mais elevados os retornos. E, se os financiamentos baratos favorecem plantar árvores ou atividades igualmente saudáveis, é para lá que migram os dinheiros. Isso acontece porque a sociedade mudou seus valores. O mercado não ama florestas ou tratamento de esgotos, ele apenas captura uma nova preferência da sociedade.

Historicamente, muitos dos investimentos “verdes” não eram lucrativos. Porém, juros mais baixos para eles mudam a equação. É o que começa a acontecer.

Diante disso tudo, como fica o Brasil, uma sociedade periférica, com um pé na modernidade e outro no atraso? Difícil de fazer previsões confiáveis. Mas é certo afirmar que o Brasil novo embarcou. As empresas maiores, mais modernas e tecnicamente mais bem equipadas estão alinhadas com o resto do mundo.

Porém não sabemos com que presteza o Brasil velho embarcará nessas novas linhas.

*

M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.