O mistério do Natal

Deus veio ao mundo e abriu a todos o acesso à participação na sua divindade por Jesus

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 03h00

Chega o Natal mais uma vez, envolvendo crentes e não crentes como se fosse uma onda poderosa e irresistível. Os cristãos comemoram o nascimento de Jesus Cristo, fundador do cristianismo, e compartilham com os seguidores de outros credos, ou de nenhum credo também, a alegria de sua fé, convidando-os a fazerem festa com eles.

Não vem ao caso, neste contexto, a discussão sobre detalhes históricos e documentais a respeito da data e do lugar precisos do nascimento de Jesus. E também não é a ocasião para polemizar com quem faz humor de gosto discutível e desrespeitoso com as coisas mais santas e as convicções religiosas das pessoas. Também não vem ao caso responder a quem afirma que Jesus nem existiu, é apenas um mito habilmente inventado, que segue inabalável na fé de grande parte da humanidade, mesmo depois de milênios de contestações. Os testemunhos históricos a respeito de Jesus de Nazaré são sólidos e seu significado religioso e sobrenatural, afirmado pela fé dos cristãos, vai além da ciência, no sentido estrito e positivista.

Objeto das comemorações do Natal cristão é o magnum mysterium – mistério sublime, imensamente grande, profundo e maravilhoso, uma realidade que nos transcende e vai além do que vemos e tocamos, da qual podemos dizer muitas coisas, mas nossos conceitos e palavras serão sempre pobres e insuficientes para expressar todo o significado desse “adorável mistério”.

Recentemente, o papa Francisco escreveu um belo texto sobre o presépio ao visitar Greccio, no centro da Itália, onde São Francisco de Assis fez encenar um “presépio vivo”. A tradição popular dos presépios vem de longe e representa de maneira plástica e criativa a cena do nascimento de Jesus. Elementos essenciais dessa cena e da comemoração do Natal são o menino Jesus, as figuras de Maria, sua mãe, de José, esposo de Maria, do anjo mensageiro do nascimento de Jesus aos pastores de Belém, na Judeia, no tempo da dominação romana sobre aquela região, sob o império de César Augusto. E não pode faltar a referência às narrativas dos Evangelhos de São Lucas e São Mateus sobre o nascimento de Jesus.

Muita outra coisa pode ser dita sobre o Natal e relacionada com ele. A literatura, as artes e a cultura popular estão repletas de narrativas e mitos interessantes sobre o Natal, que aguçam a fantasia e até comovem. Mas sem aquelas referências estará faltando algo essencial. Ceias abundantes, presentes aos montões, árvores enfeitadas, luzes pela cidade, corais e hinos maravilhosos, Papai Noel barbudo e de gorro vermelho, peru assado, cartões de boas-festas enchendo as mídias sociais e as sacolas dos carteiros, “amigos secretos” e tantos usos que acompanham as comemorações do Natal podem ser coisas bonitas e interessantes. Mas sem a referência essencial ao nascimento de Jesus tudo fica vazio e cansa rápido.

Tudo isso, porém, pode ser ainda mais bonito e significativo se for relacionado com o motivo principal da festa. Ceias de Natal serão momentos de alegria compartilhada, em que o mais importante não será a abundância de comida e bebida, mas a experiência da fraternidade e do amor infinito de Deus, que reúne a todos numa grande família em torno de seu Filho, nascido para nós.

Presentes de Natal expressarão a partilha e a gratidão pelo grande e precioso presente que o Céu nos enviou. Árvores enfeitadas de luzes e mensagens falarão da esperança e da luz que brilhou para o mundo inteiro. E a estrela do Natal lembrará aquela que levou os reis magos até Jesus e continua, ainda hoje, a conduzir até ele.

Hinos melodiosos, cheios de ternura e unção religiosa evocarão o coro dos anjos na noite do primeiro Natal, a anunciar aos pastores nos campos de Belém o nascimento do Menino, boa notícia que seria motivo de alegria para todo povo. Cartões de Natal, com mensagens de boas-festas, farão de nós também mensageiros dessa boa notícia, que continua sendo promessa de paz e bênção para os “homens de boa vontade”. “Amigos secretos” poderão ser ocasião para tocar o coração de alguém com um convite para “ir até Belém e ver o que Deus preparou para nós”...

Papai Noel também poderá ter seu lugar no Natal, se for aquele “bom velhinho” que lembra a crianças e adultos o motivo da bela festa e também os levar ao presépio, onde ele mesmo também se ajoelha diante de Jesus Menino. Mas será um intruso na cena se tomar para si as atenções devidas ao Menino deitado na manjedoura, personagem principal da festa.

Observando bem, acontecem duas festas, que correm paralelas e até pouco se cruzam. Uma é o Natal do consumo, centrado no máximo de vendas e ganhos econômicos, com sua lógica própria e que já se inicia meses antes do tempo litúrgico do Advento e do Natal. Ela prescinde e até faz questão de omitir referências explícitas ao nascimento de Jesus e termina com as liquidações, já no dia seguinte ao Natal, talvez marcada pela ressaca e por alguns bons débitos a saldar no cartão de crédito...

Outra é a comemoração religiosa do Natal, com tantos significados profundos que vão além do comprar, presentear, comer e beber. O Natal cristão faz a memória do acontecimento mais extraordinário do mundo, desde que o Eterno Criador deu origem a tudo o que existe, fora do mistério insondável de sua divindade. Deus veio ao mundo, assumiu nossa carne, viveu humanamente entre nós e abriu a todos o acesso à participação na sua divindade por Jesus de Nazaré, nascido da jovem Maria, crido e anunciado pela fé cristã como o salvador de toda a humanidade. Isso parecerá loucura para muitos, mas é bem esse o significado do mistério santo do Natal de Jesus celebrado pelos cristãos.

Desejo, pois, feliz e abençoado Natal a todos os leitores.

CARDEAL-ARCEBISPODE SÃO PAULO

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