O mosquito que derrotou o imperador romano – reflexões sobre o coronavírus

Em poucas semanas pudemos ver quanto o mundo mudou para melhor

Y. David Weitman, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2020 | 03h00

Não é a primeira vez que o nosso país sofre uma epidemia. Em 2015 houve um surto de zika, vírus transmitido pela picada de um mosquito. Naquela época todos nos lembramos de ter visto nos jornais uma conclamação do governo federal a eliminar os criadouros das casas, cujo título, bem chamativo, era “Um mosquito não é mais forte que um país inteiro”.

Já então essa frase me chamou a atenção, pois me remeteu a um trecho do Talmud (Lei Oral judaica) a respeito da morte do imperador romano Tito. Titus Vespasianus Augustus faleceu no ano 81 da era atual, com a idade de 41 anos. Os historiadores discutem a causa dessa morte precoce. Alguns afirmam que foi febre alta, enquanto outros concluem que foi tumor cerebral, malária ou, eventualmente, um assassinato encomendado por Domiciano, seu sucessor.

No Talmud Babilônico (Guitin 56b) consta o seguinte: “Tito, quando retornava de Jerusalém, onde destruiu o Templo e incendiou a cidade, blasfemava e vangloriava-se por ter vencido o D’us de Israel. Naquele momento, uma Voz Celestial lhe respondeu: ‘Tito, quando você desembarcar na Itália, a mais inferior das Minhas criaturas, o mosquito, o espera!’. Quando chegou a Roma, onde foi aclamado, um mosquito entrou por seu nariz, penetrou em seu cérebro e ali ficou picando, causando-lhe enorme dor. O sofrimento de Tito durou sete anos, até ele morrer”. Esse é o relato de sua morte prematura de acordo com as fontes judaicas (similar à opinião de que foi tumor cerebral ou malária, transmitida por um mosquito).

Porém os livros místicos (Tanya, cap. 24) explicam por que o mosquito é chamado de criatura inferior, “pois ele se alimenta, mas não excreta; entra, mas não sai” (realmente, no mundo dos insetos, existe um neuróptero que, em certa fase, possui uma abertura para o alimento, mas não para as fezes). Fica o ensinamento de que cada criatura deve contribuir com algo para este orbe, até mesmo os animais que excretam fezes que retornam ao meio ambiente em forma de fertilizantes. No entanto, esse tipo de mosquito, que apenas absorve (suga o sangue de outros), mas não doa, representa o epítome do egoísta, a criatura mais baixa possível. Assim como o mosquito derrotou o imperador Tito, pessoas que emulam a atitude desse inseto interesseiro e egoísta podem destruir um país inteiro.

Se isso era verdade a respeito do mosquito de Tito (e da zika), o que dizer do coronavírus, um microrganismo sem capacidade própria, que só se pode multiplicar dentro de células vivas de outro organismo? O parasita par excellence, que só se pode reproduzir invadindo outro ser vivo. Pior que o mosquito, o vírus da covid-19 é o paradigma do egocentrismo, receber sem doar, pegar sem contribuir e ainda prejudicar ao máximo.

Assim como existe uma luta implacável da medicina e da tecnologia moderna para conter o vírus e seus efeitos nocivos, não há dúvida de que existe também uma forma de combatê-lo espiritualmente. A promoção da solidariedade, o amparo ao próximo, a mão estendida e qualquer atitude altruísta são os antídotos para o mal deste vírus.

O corona obriga a nossa sociedade a desinfetar as mãos de qualquer contato com egoísmo e a soberba individualista que possa macular a nossa alma. O compromisso com o bem-estar do próximo deteve o rumo individualista do mundo contemporâneo. Finalmente o homem enxergou que não pode isolar-se numa ilha imaginária pensando apenas em seu sucesso e sua felicidade. O planeta é interconectado: alguém espirra em Wuhan e outra pessoa é afetada em Milão; um aperto de mão em Barcelona tem consequências em Nova York. Precisamos uns dos outros e somos influenciados uns pelos outros. Se um microrganismo pode semear tanto caos e destruição, nossas boas ações tanto mais podem ter efeito global.

Em poucas semanas pudemos ver quanto o mundo mudou para melhor. As pessoas apreciam mais o lar e a família, cultivam novas formas de relacionamento com o semelhante e com o Todo-Poderoso, preocupando-se principalmente em não infectar ou prejudicar os outros. O esforço comum para salvar o próximo e o planeta prevalece acima de qualquer interesse pessoal. Mesmo no isolamento, o ser humano solitário tornou-se mais solidário. Surgiram experiências magníficas de amparo social aos mais vulneráveis, exemplos louváveis da defesa da dignidade humana, numa sociedade em que a injustiça social existe.

Tudo isso são manifestações verdadeiras e genuínas de amabilidade e generosidade do ser humano, criado à imagem de D’us. Em especial a dedicação e a devoção do que há de melhor entre nós: médicos, enfermeiros, policiais, profissionais de farmácias, supermercados e outros serviços essenciais, que, apesar do risco, não poupam esforços para cuidar da população com carinho.

Ao contrário do mosquito e do vírus, voltamos à direção horizontal saudável, dar e receber, que, afinal, também é parte da direção vertical, visto que “amarás ao próximo como a ti mesmo” é um mandamento Divino. E Rabi Akiva (contemporâneo de Tito) já dizia: “Este é um conceito básico da Torá”.

RABINO-CHEFE DA CONGREGAÇÃO BEIT YAACOV, SÃO PAULO, É ESCRITOR E PALESTRANTE

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