O motoqueiro do vírus, o risco de morte e a lição das emas

Não faltou só a máscara. Faltou também aplicar a verba da saúde

Rolf Kuntz *, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2020 | 03h00

Rejeitado pela ema, o presidente Jair Bolsonaro tirou a máscara, parou para conversar e pôs em risco a saúde e a vida de funcionários da limpeza nos jardins do Palácio da Alvorada. Crime ou mero deslize? “Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente” é crime punível com detenção de três meses a um ano, segundo o artigo 132 do Código Penal. Um dia antes, na quarta-feira, havia saído o resultado de um novo teste: o presidente continuava contaminado pelo coronavírus. Não desconhecia seu estado nem a recomendação médica de evitar contatos e de usar máscara quando tivesse de se aproximar de pessoas. Especialistas em leis poderão discutir se um crime foi cometido - nesse e em outros contatos do presidente com assessores, ministros, apoiadores e jornalistas. Se a conclusão for negativa, prestarão bom serviço explicando quando é aplicável e se tem alguma serventia aquele artigo 132, aparentemente tão claro.

Com 1.317 mortes confirmadas em 24 horas, o total de óbitos causados pela covid-19 passou de 84 mil em 23 de julho, segundo balanço divulgado no começo da noite. Registrados 58.080 novos casos, chegou a 2,29 milhões o número de infectados desde o início da epidemia no Brasil. Essas informações foram apresentadas horas depois da aventura do motociclista Jair Bolsonaro nos jardins do Palácio. Os novos números deveriam valer como recomendações adicionais de cautela - contra todas as formas de contágio e, de modo especial, contra ações e omissões de autoridades irresponsáveis. O bom exemplo veio das emas.

Também na quinta-feira o presidente aproximou-se de uma ave, no gramado do Palácio, exibindo uma caixa de hidroxicloroquina. Não houve bicada nessa ocasião, mas a ema rejeitou o remédio. Talvez estivesse mais informada que as pessoas ainda dispostas a seguir os conselhos do presidente.

No mesmo dia um novo estudo, conduzido por pesquisadores brasileiros em 55 hospitais do País e publicado no New England Journal of Medicine, pôs em xeque mais uma vez a medicina presidencial. Segundo a pesquisa, a hidroxicloroquina, sozinha ou combinada com azitromicina, foi ineficaz no tratamento de pacientes de covid-19 em condição leve ou moderada.

Além disso, o estudo, realizado com 667 pessoas hospitalizadas, confirmou o risco de efeitos colaterais, com agravamento de problemas cardíacos ou hepáticos. Os autores admitiram limitações do estudo, sem rejeitar definitivamente a hipótese de algum efeito benéfico ainda sem comprovação. Mas as conclusões agora apresentadas numa revista de alta reputação corroboram aquelas já publicadas por pesquisadores de vários países.

Sucessivos estudos têm contestado o valor da terapia pregada pelo presidente Bolsonaro, aceita por seus seguidores e pelo menos por alguns de seus auxiliares. Essa terapia é inspirada, naturalmente, pelo exemplo do presidente Donald Trump, guia espiritual, ideológico, diplomático e medicinal do motoqueiro sem máscara do Alvorada.

Quem é de direita, disse o motoqueiro numa entrevista famosa, toma cloroquina. Quem é de esquerda, acrescentou, toma tubaína. Talvez tenha citado esse refrigerante, mais conhecido no interior de São Paulo, só pela rima. Pode ter sido um esforço poético, prova de alguma afinidade com as letras, tão desprezadas nos meios bolsonarianos. Mas a importância da declaração vai além do valor literário. Escancara o sentido da ação presidencial em relação à pandemia.

O cavaleiro da motoca sempre tratou a covid-19 como questão ideológica e eleitoral, menosprezando a saúde pública. A vida dos brasileiros nunca apareceu no topo de suas prioridades. Confrontado com a mortandade, ele reagiu com frases dificilmente esquecíveis. A mais famosa talvez seja uma pergunta: e daí? Não sou coveiro, disse ele em outra ocasião, rejeitando falar sobre os óbitos. Sou Messias, mas não faço milagres, foi outra resposta notável. Ele ainda se referiu à inevitabilidade da morte, várias vezes, como se cuidar da vida de milhares fosse perda de tempo e de esforço.

Desde o começo da epidemia o presidente pregou o isolamento limitado e a rápida retomada econômica. Dado seu currículo, só o interesse eleitoral explica seu apoio às medidas de ajuda às empresas e aos trabalhadores. Propostas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, essas medidas são semelhantes às tomadas em dezenas de países, com apoio, em muitos casos, do Fundo Monetário Internacional.

A maioria das pessoas certamente ignora esses dados, e o presidente colherá dividendos políticos por ter agido como dezenas de outros chefes de governo. Mas quantos governos terão aplicado só um terço do dinheiro destinado à saúde? Isso ocorreu no Brasil, segundo o Tribunal de Contas da União.

Ao conversar sem máscara com os limpadores do Alvorada, o motoqueiro da pandemia mais uma vez mostrou desprezo à segurança e à vida alheias. Era o mesmo presidente empenhado em facilitar o acesso às armas e em dispensar os motoristas de usar cadeirinhas para crianças. Novidades: dessa vez ele estava de motoca e transportava um vírus.

* JORNALISTA

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