O País entre salsichas e muros

Brasil, maior exportador de carne bovina, tem mais da metade de sua população migrando para o consumo de carnes processadas.

Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 03h00

Foi na iminência da Segunda Guerra Mundial que o habilidoso presidente americano Franklin Delano Roosevelt, não sem contestações de radicais separatistas, encontrou cenário para aproximar os Estados Unidos da ex-metrópole, convidando o rei George VI e a rainha consorte Elizabeth (Rainha Mãe) para uma visita oficial a seu país.

A relação ruidosa entre as duas nações principiara, obviamente, em 4 de julho de 1776, e desde então nenhum monarca britânico reinante pisara em solo americano, mas em 8 de junho de 1939 o casal real estava em Washington DC para cumprir dois dias de agenda diplomática formal.

Porém os momentos sublimados pela Rainha Elizabeth e transcritos por ela em carta à Rainha Mary, sua sogra, foram os dois dias seguintes, no convívio com a família Roosevelt na propriedade particular do presidente, em Hyde Park, próxima ao Rio Hudson, a aproximados 120 km de Manhattan.

A imprensa americana simbolizou a informalidade da estada com o piquenique oferecido pelo anfitrião no último dia, com o The New York Times (NYT) estampando em sua capa King tries hot dog and asks for more (O rei experimentou cachorro-quente e pediu mais), sem qualquer alusão a possíveis acordos, que de fato mais tarde traçariam os rumos mundiais.

Às vésperas da queda do Muro de Berlim, em 1989, noticiava-se que a população da (ainda) União Soviética, carente de vários produtos básicos há décadas, via-se defronte de forte escassez de sua principal fonte proteica alimentar, as salsichas. O momento coincidia com numerosas análises socioeconômicas assegurando que o ferro da cortina enferrujara e caíra, e seus detentores apenas ganhavam tempo para rendição honrosa.

De mim mesmo e para nenhuma outra contribuição, além de compor a parte agradável de minhas memórias, lembro uma de minhas viagens a Viena, quando, ao participar de jantar gastronômico oferecido por amigos, evitei vários pratos da sequência na intenção de poupar forças (e apetite) para consumir um famoso hot dog às portas de uma estação de trem.

Outra abordagem deste alimento envolve indagações de sua intimidade, como a intrigante “os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”, frase creditada ao estadista alemão Otto von Bismarck, porém de autoria do poeta americano John Godfrey Saxe.

Em minha seara e de tom menos agradável está o alerta do Instituto Nacional do Câncer (Inca) sobre o consumo de carnes processadas, que registra “as substâncias presentes na fumaça do processo de defumação, os conservantes (como os nitritos e nitratos) e o sal podem provocar o surgimento de câncer de intestino (cólon e reto – ‘entre outros’)”, universo em que as salsichas podem conter todos os possíveis elementos danosos.

Pouco estimulante, embora importante, é ler o anexo IV da Instrução Normativa n.º 4, de 31 de março de 2000 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), aquele que conduz as regras obedecidas na fabricação do citado artigo. Entre os componentes, a depender da receita, a mistura pode conter até 10% de miúdos e vísceras comestíveis (coração, língua, rins, estômagos, pele, tendões, medula e miolos), itens pouco simpáticos a nossos paladares.

Porém, de fato preocupantes são os relatos divulgados em junho deste ano pela Consultoria Kantar, líder global em dados, demonstrando que, decorrente da crise econômica pandêmica, as famílias de menor poder aquisitivo têm trocado a carne por alternativas proteicas mais baratas. Então, o Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, tem mais da metade de sua população migrando para o consumo massivo de carnes processadas, o que faz da salsicha, emblemático representante, uma imposição, e não uma alternativa.

Já se vão 5 mil anos e continuamos procurando um modelo civilizatório consensual, enquanto nos mantemos divididos em vários escalões, de nobres a plebeus, os quais nos conferem o poder para várias escolhas alimentares, não pelo que queremos, mas pelo que podemos.

Como seria possível para o trigo e as batatas, o espectro cosmopolita deste comestível processado oferece observações sanitárias, nutricionais, culturais, filosóficas e, sobretudo, socioeconômicas que podem flutuar através da História para permitir leituras significativas.

A inflação de julho foi a maior desde 2002, e após ano e meio de pandemia 70% dos brasileiros encontram-se acuados por suas perdas e danos. Sob a heroica tutela do SUS, sobrevivem à covid-19, mas sob o fogo cruzado do desemprego e dissonâncias político-ideológicas falta-lhes progressivamente mais do básico.

O poeta astuto fez comparação ardilosa deste embutido com as leis, o presidente articulador parece ter dissolvido quase dois séculos de discórdias com dois hot dogs, este pretenso cronista já preteriu alta gastronomia para degustá-lo na noite vienense e as instituições regem a fabricação e advertem acerca de seus riscos.

Mas, seguramente, seu consumo deve ser eventual, pois seu protagonismo nacional às mesas é mau presságio, sugerindo que algum muro pode estar para cair!

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DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

 

 

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