O papel do Brasil na catástrofe climática

Em seu próprio interesse, o País deve reverter a destruição da Floresta Amazônica

Vinod Thomas*, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 03h00

O Brasil e diversos outros países deveriam alarmar-se pelo fato de que as evidências científicas sobre a urgência de reverter o aquecimento do planeta estão em desacordo com as realidades em cada região. As emissões de dióxido de carbono (CO2), a principal fonte do aquecimento global, vêm aumentando nos principais países emissores: China, Estados Unidos e Índia. Para coroar essa tendência inquietante, o Brasil, sob o novo governo, depara-se com um aumento dos incêndios na Amazônia. Por estar na linha de frente dos riscos naturais, o Brasil deve reverter a tendência do desmatamento em prol da saúde e do bem-estar de sua população, assim como dos países vizinhos.

A eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, tal como a de Donald Trump nos Estados Unidos, adotou a falsa premissa de que a promoção de uma ampla “desregulamentação” do meio ambiente impulsionaria o crescimento econômico. A evidência clara, contudo, é que o esgotamento do capital natural, como as florestas no Brasil, só prejudicou o crescimento no longo prazo, especialmente para a população de baixa renda. Nos últimos 50 anos não houve nenhuma retomada do crescimento no País devida à exploração madeireira ilegal e aos incêndios florestais. De fato, observou-se o inverso, especialmente quando os períodos de menor desmatamento coincidiram com um crescimento relativamente forte, em particular na agricultura.

O sensoriamento remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicou um aumento do desmatamento desde a posse do novo governo, em janeiro. Da mesma forma, o número de incêndios florestais de janeiro a agosto deste ano é o maior desde 2011, com um aumento de 82% comparado ao número de 2018. As temperaturas locais estão subindo rapidamente acima das tendências globais, produzindo estações mais secas no sul da Amazônia, além de secas generalizadas que favorecem a propagação de incêndios. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais adverte sobre um ponto de inflexão acima do qual o ecossistema da floresta tropical poderá entrar em colapso.

No mundo inteiro, as emissões de carbono levaram a concentração de CO2 atmosférico atingir 415 partes por milhão (ppm) em maio, pressionando o aumento das temperaturas globais. No ritmo atual das emissões, o limite catastrófico de 450 ppm poderá ser ultrapassado em menos de 15 anos. O Brasil, como os Estados Unidos, vem enfrentando extremos do clima, com temperaturas mais altas intensificando secas, tempestades e inundações juntamente com os sinais de elevação do nível do mar.

Diante desse cenário, é vital que o Brasil invista fortemente em adaptação, antecipando ajustes da economia às mudanças causadas pelo aquecimento global. Japão, Holanda e Cingapura são líderes na construção de defesas contra a elevação do nível do mar. É certo que a renda per capita dessas nações é 4,5 vezes maior que a do Brasil, mas, infelizmente, a mudança climática não leva em conta as diferenças de renda entre os países. Em todo caso, as nações com renda média e baixa pagam um preço mais elevado pelas consequências traduzidas por mortes e destruição.

Visto sob a perspectiva dessa realidade, o Brasil não tem atuado de modo suficiente para reforçar suas defesas contra as mudanças do clima. A prioridade das despesas com gestão dos desastres naturais deve aumentar de modo significativo, talvez multiplicar. Uma das principais ameaças que o Brasil enfrentará é o provável impacto na produção agrícola causado pela mudança nos padrões pluviométricos no cinturão de grãos do Centro-Oeste do País. O desmatamento em larga escala na Amazônia certamente afetará o clima em proporções continentais. É urgente ampliar a resiliência da agricultura, da pesca e dos sistemas de saúde e energia.

No entanto, a adaptação sem mitigação para descarbonizar as economias não acompanhará o ritmo das mudanças climáticas descontroladas. Todos os países, mas especialmente os maiores emissores – China, Estados Unidos e Índia – precisam substituir os combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis. As notícias boas são de que a energia solar fotovoltaica e a energia eólica, ambas não emissoras de carbono, se tornaram as principais opções em todo o mundo. O custo médio dessas fontes de energia renovável se situa agora na faixa de custo dos combustíveis fósseis.

Mesmo assim, os combustíveis fósseis correspondem a mais de dois terços da necessidade global de energia. Uma razão é ser ainda baixo o uso da energia renovável no transporte, nas residências e nos processos industriais. As políticas destinadas à promoção das energias renováveis e da eficiência energética na indústria e nos edifícios são esparsas. Além disso, o CO2 relacionado à energia também vem aumentando por causa do maior consumo de combustíveis fósseis, incentivado por subsídios governamentais. Em termos globais, esses subsídios em 2018 totalizaram cerca de US$ 400 bilhões.

Os riscos de catástrofes maiores e mais frequentes causadas pelos desequilíbrios do clima nos impõem tomar medidas imediatas. Nosso prazo para agir são os próximos anos, na vigência dos atuais governos. As mudanças no Brasil poderão ser ainda mais dramáticas pela possibilidade de a Amazônia, sem controle do desmatamento, deixar de ser um reservatório de carbono fixado na floresta para ser uma grande fonte emissora, afetando a saúde, o bem-estar e a economia dos brasileiros e seus vizinhos. China, Estados Unidos e Índia devem promover uma mudança radical e substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis. E o Brasil, por compromisso com seu próprio futuro, deve reverter a destruição da Floresta Amazônica.

*EX-DIRETOR DO BANCO MUNDIAL NO BRASIL E AUTOR DE ‘O BRASIL VISTO POR DENTRO’ (JOSÉ OLYMPIO, 2006), E ‘CLIMATE CHANGE AND NATURAL DISASTERS’(ROUTLEDGE, 2018). E-MAIL: VNDTHOMAS49@GMAIL.COM

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