O preço do tal ‘mercado’

Precisaremos de mais 300 mil defuntos para que diga o que precisa ser dito, fora Bolsonaro?

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 03h00

À parte a declaração da parcialidade do juiz Sergio Moro no caso de Lula, o que se deu em turbinadíssima sessão da Segunda Turma do Supremo, anteontem, em clima de final de BBB (as transmissões da TV Justiça têm o andamento de um reality show de mau gosto, uma espécie de circo de gladiadores em que os esquartejamentos são verbais e os leões esfaimados vestem toga); à parte o discurso do mitômano, também anteontem, tentando reescrever a história da pandemia no Brasil à moda do Big Brother de George Orwell; à parte termos ultrapassado o marco dos 3 mil cadáveres por dia, em curva vertical, a semana transcorreria monótona. Acontece que, além disso, daquilo e daquilo outro, tivemos a momentosa carta aberta de banqueiros, economistas e empresários que, sem citar o nome do mitômano, cobra dele uma conduta menos psicopática (sem usar esse termo também) no enfrentamento da pandemia.

Não se descarte a hipótese de que a fala presidencial na terça à noite, acompanhada de panelaços e buzinaços, tenha sido uma resposta à famigerada carta, cuja repercussão jornalística foi, para sermos conservadores, colossal. Editoriais e longas reportagens se dedicaram a esmiuçar trechos do tão propalado documento. Nas entrelinhas da vasta cobertura, havia um quê de “agora sim”: agora que “o mercado” finalmente protestou, o presidente da República vai ser enquadrado e vai se emendar. Ou: agora que “o mercado” ralhou, o apoio da Avenida Faria Lima ao mandatário que nos desgoverna vai minguar.

Tomara que assim seja, mas será que assim será? O tipo se emenda? Será. Haverá nesse necrodoido, nesse Nero de Twitter, um coté de Mahatma Gandhi? Francamente, nem “o mercado”, agraciado por tantas bondades e promessas, acredita nisso. De outra parte, será que “o mercado” despachará a ordem para que se destitua o governante de uma vez por todas? A ver – para não crer.

O fato é que “o mercado”, se tem mesmo disposição para agir, demorou demais para dar sinais de vida cívica. Agora é tarde, senhoras e senhores. Tarde demais. No copioso abaixo-assinado dos financistas – viramos, em definitivo, uma terra das extravagâncias discursivas, em que até a especulação de capitais deu de fazer abaixo-assinado –, duas frases chamam especialmente a atenção. A primeira delas: “Não há mais tempo a perder em debates estéreis e notícias falsas”. A segunda: “O país tem pressa”.

Ocupemo-nos desse interessante senso de urgência. Se levarmos em conta que a carta aberta começou a circular no domingo à noite, devemos subentender que até domingo, aí, sim, ainda havia alguma gordura de tempo a perder e, até então, o País não tinha tanta pressa assim, só tinha um pouquinho de pressa. Ou devemos subentender outra coisa?

Pensemos um pouco a respeito. Os profissionais que ganham a vida lidando com dinheiros, mandando cifrões para lá e para cá, são remunerados por sua capacidade de se antecipar. O bom operador é o que identifica uma tendência antes dos outros, de tal sorte que o concorrente é apanhado de calças curtas. Os geninhos do “mercado” se distinguem por saber primeiro, por antever.

Mas quando o assunto é a catástrofe humanitária em que soçobramos – por obra autoral do mitômano que “o mercado” apoiou com seu silêncio até domingo passado –, parece que as virtudes tão valorizadas nesse segmento trilionário da humanidade se invertem. Agora a rapidez dá lugar à lentidão. As assinaturas que no dia a dia profissional se gabam de ver as coisas que vão acontecer antes que aconteçam de verdade se enfileiram para contar ao País o que o País inteiro já sabe de trás para diante. Falam em máscaras, falam em ouvir a ciência e chegam a demonstrar, numa espécie de business plan da imunização em massa, que o ROI das vacinas é altamente compensador. Nada a opor quanto a isso, mas... isso é tudo?

É claro que os brasileiros devem comemorar que, antes tarde demais do que nunca mais, juristas, ex-presidentes do Banco Central, acadêmicos e todos os tantos quantos do “mercado” venham dizer em público que a barbárie precisa ser contida. É claro que o gesto merece aplausos. Tudo certo até aí. Mas precisava ser assim, em palavras tão contidas, tão moderadas, que nem mesmo apontam a responsabilidade direta do mitômano pelo morticínio? E precisava demorar tanto?

O que é que o País faz com isso agora? Para onde poderá seguir? Qual o próximo passo? A sustentação do “mercado” a esse governo vai prosseguir intrépida e incólume, confiante na parolagem de Chicago envelhecida por 40 anos em tonéis de cloroquina? Sim, sim, “o mercado” moveu a sobrancelha, palmas para ele. Mas vai romper? Ou meia calabresa, meia muçarela?

Será que precisaremos de mais 300 mil defuntos em contêineres, em corredores de hospitais, em caminhões fazendo filas noturnas em cemitérios de valas abertas por retroescavadeiras para que “o mercado” diga o que de fato precisa ser dito, fora Bolsonaro? É cruel perguntar assim, dói na carne viva, dói na natureza morta em que nos convertemos, mas é preciso. Qual será o preço em vidas humanas?


JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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