O primeiro encontro das quatro vestais

Por que Joaquim Tenreiro, Oscar Niemeyer, Burle Marx e Cândido Portinari foram trabalhar juntos numa cidadezinha do interior de Minas?

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2022 | 03h00

Primeiro, meu salvo-conduto. Não sou arquiteto ou crítico de arte. Não fiz pesquisas sistemáticas sobre o assunto aqui tratado. Tenho impunidade para errar, pois falo de assuntos em que minhas credenciais são pífias.

Percorrendo catálogos de leilões de arte, o nome Joaquim Tenreiro aparece sempre. É o mais incensado dos marceneiros, assinando móveis elegantes e vendidos por preços espantosos. Descobri no Google que é filho e neto de marceneiros, começando sua carreira na oficina da família e completando a sua formação no Liceu de Artes e Ofícios. Foi trabalhar como marceneiro numa fábrica de móveis. Porém, abriu seus horizontes, formando-se na Escola de Belas Artes. Contudo, renegou o academicismo da época. Com Milton da Costa, Pancetti e outros, trilhou os novos rumos do modernismo. Em razão de sua dupla militância, virou a grande vestal dos móveis modernistas brasileiros. A escultura veio depois.

O Google me levou para Cataguases, uma cidade de Minas Gerais (cerca de 10 mil habitantes, na década de 1940). Apenas a conhecia de nome, pois meu avô nasceu lá. Em 1940, Francisco Inácio Peixoto, o dono de uma indústria têxtil local, resolve construir a sua casa. Na busca do arquiteto à altura de seus sonhos, ouviu falar de alguém que começava a chamar a atenção. Fechou negócio com Oscar Niemeyer. Segundo o arquiteto, “plasticamente, (a casa) apresentará esse aspecto simples e despretensioso que caracterizou a nossa velha arquitetura colonial”. Hoje, está tombada pelo Iphan.

Obviamente, a casa precisava de um jardim. Aparece, então, um pintor muito talentoso, formado na Alemanha e que, além dos seus quadros, estava ensaiando o paisagismo. A sua família judia era de Trier, uma minúscula cidade na Alemanha. Acontece que lá nasceu também um homem brilhante e controvertido, exibindo o mesmo sobrenome. Naquele lugarzinho, não há como não haver parentesco entre Burle Marx e o outro Marx. Sendo Niemeyer um comunista convicto, teria o sobrenome influenciado na escolha? Pura maledicência da minha parte. Burle Marx não plantava jardins e esta foi a revolução que trouxe. Ao contrário, seu paisagismo consistia em “pintar” com plantas. Em vez de tinta e tela, pintava na natureza, com blocos de plantas de diferentes cores e texturas.

Veio a tornar-se um dos maiores paisagistas do século 20 – segundo o The New York Times. Nesse início de carreira, cuida dos jardins do dr. Peixoto.

O que tornaria mais formosas as paredes da casa? Uma pintura de um preto velho fumando cachimbo? Nem pensar, pois havia coisa melhor. Despontava na cena artística um pintor do interior de São Paulo. Agrega-se ao grupo Cândido Portinari, para dar lustre às paredes da residência.

E os móveis? Contentar-se com os que se vendiam na Rua do Catete, no Rio? Não, tinham de estar afinados com o espírito do projeto. É a vez de Joaquim Tenreiro desenhar e construir os móveis, ajudando a forjar a cara da arquitetura moderna brasileira. Trabalhando numa fábrica de móveis, não tinha qualquer liberdade de projetar o que construía. Foi em Cataguases que passou da mera execução para o desenho.

Por primeira vez, se juntam os quatro. Não por acaso, pois o DNA do modernismo corria em suas veias. E foram os expoentes máximos nas suas especialidades. De resto, colocaram o País numa posição destacada no cenário mundial. Vale lembrar, as raízes estão na Semana de Arte Moderna, em São Paulo.

Outros diretores da fábrica encomendam projetos dos quatro artistas. Mais curioso ainda, recebem a missão de projetar uma escola. Nela, Portinari pinta um mural gigantesco que, mais tarde, foi transferido para o Memorial da América Latina, em São Paulo, ganhando a visitação que merecia.

Diante de uma capital federal elegante e vaidosa e dos sinais inequívocos da pujança industrial de São Paulo, por que os quatro vão, por primeira vez, trabalhar juntos numa cidadezinha do interior de Minas Gerais?

Não foi por acaso. Cataguases, terra do cineasta Humberto Mauro, já tinha certa tradição cultural. Além de fazendeiro e industrial, o dr. Peixoto era intelectual, escritor e poeta – incluindo versos eróticos. E seu patrimônio financeiro ajudava a alavancar os destinos artísticos da cidade. Figuras hoje consagradas foram atraídas pela sua vida cultural. Até um padre fez erigir uma basílica dotada de méritos arquitetônicos, coisa rara. Hoje, o centrinho está tombado pelo Iphan.

Qual foi a mágica? Começa com um líder inspirado e com muitos interesses e competências. O timing foi feliz. Pegou os quatro em início de carreira, ainda soltos no mundo. O resto é efeito, e não causa. O bom ambiente atraiu outros artistas, pois Cataguases continua sendo uma cidade com bastante vida artística.

Mas atenção, a coleção de “Imagens” do Google reflete os interesses da sociedade. Digitando “Cataguases”, quase nada aparece de suas proezas artísticas. Há fotos de tudo, abundantes. Mas dos prédios tombados, praticamente nada. O Google parece dizer bastante sobre o nosso atraso cultural.

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M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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