O que aprenderemos com essas lições amargas?

Insensatez, cretinice e estupidez no poder tornam nosso futuro especialmente incerto

Jorge J. Okubaro, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h55

Será que 2020 termina até o ano que vem? Desde março do ano passado, nossa vida tem sido marcada pela pandemia. Tudo mudou. E está demorando para voltar ao normal. Muitos ainda tememos sair de casa. É preciso resistir a convites de autoridades irresponsáveis para desprezar a saúde pessoal e a do próximo. Na ânsia de nos vermos livres do que nos aflige, porém, todo e cada avanço parece pouco. Quando, afinal, nos sentiremos seguros? Sinais de crescimento pedem mais cautela do que celebração. Não houve investimentos suficientes para assegurar avanço duradouro. Cresce-se com o uso do que estava parado e com ajuda externa involuntária. O desemprego bate recordes, a inflação voltou. Mais uma esperança se esvai?

Nesse clima, vamos adiando o que precisa ser feito. A pandemia, que não passa, parece dar-nos a sensação de que o tempo também não passa. Quando nos dermos conta de que o tempo passou, talvez não tenhamos tempo para fazer o que deveríamos ter feito. Neste país de procrastinações, temos adiado demais coisas essenciais para nos recolocar naquilo que há muito tempo é normal no mundo que progride. Temos feito escolhas erradas com pertinácia, mas podemos começar a fazer as coisas certas agora que estamos (novamente?) à beira do precipício.

É para esse momento, de oportunidade e risco, que nos chama a atenção o economista e colaborador do Estado Gustavo Franco em seu mais recente livro, Lições Amargas (Editora História Real). Trata-se, como anuncia seu sugestivo subtítulo, de “uma história provisória da atualidade”.

Tivemos e temos tido, no ano longo da pandemia, lições que, a despeito de amargas, pois “obtidas à custa de muitos sofrimentos e privações”, têm grande valor. Embora reconheça que, no momento, “a única coisa clara é o nevoeiro”, Franco – de grande experiência na gestão pública, pois foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda antes de ocupar a Diretoria de Assuntos Internacionais e, especialmente, a presidência do Banco Central – supõe que a agudização dos problemas fez crescer o sentido de urgência na busca de soluções, assim como pode ter reduzido nossa tolerância à procrastinação. Já não era sem tempo.

Em tempo em que as pessoas escrevem textos “para durar menos que uma tarde”, talvez tenha sido uma temeridade escrever um livro sobre temais atuais. Livros comprometem, pois costumam durar mais. Mas é isso que Gustavo Franco quer: assumir compromisso com ideias mais duradouras, mesmo tratando de temas atuais. Pois por aqui questões antigas, sempre evitadas e nunca resolvidas, continuam atuais, ainda mais na pandemia.

Há décadas sabemos que educação de qualidade e disseminada é essencial para formar gerações que nos levem a posições cada vez mais avançadas entre as principais nações do mundo. O que temos feito, no entanto, é o oposto disso. Os índices internacionais nos mostram como temos perdido tempo, em relação a outros países. Talvez seja até covardia lembrar que há uns 30 anos estávamos em posição comparável à da Coreia do Sul na corrida pelo crescimento econômico, pela modernização do sistema produtivo, pelos ganhos de eficiência. O que aconteceu depois deveria deixar-nos envergonhados. Não fizemos quase nada em décadas para resolver o problema. A pandemia pode ter tornado as coisas piores. O que era difícil de resolver vai exigir ainda mais esforço, competência, visão realista e responsável de questões públicas. Teremos tudo isso num prazo previsível?

O quadro é o mesmo em outros campos. Há quanto tempo ouvimos que as reformas são indispensáveis para recolocar o Brasil no trilho da modernização, do crescimento acelerado, do ganho de competitividade, da redução das desigualdades, da melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas hoje excluídas do progresso? O que se fez é muito pouco perto do que precisa ser feito. Fracassamos, diz Franco. O preço é muito alto. “Não apenas continuamos emergentes, como agora a maldição que assomou a Argentina no século XX – terminar o século mais pobre do que começou – parece muito próxima do Brasil do século XXI.”

Exagero? Melhor levarmos a advertência a sério. Ainda falta muito tempo, mas temos mostrado imensa eficiência em desperdiçá-lo. A insensatez, a cretinice, a estupidez – quem poderia imaginar algo tão estúpido quanto oferecer cloroquina a uma ema? – predominam em ambientes do poder e tornam nosso futuro especialmente incerto.

A lista de problemas antigos, e persistentemente atuais, é conhecida. Um dia teremos de enfrentá-los de verdade. A pandemia será forte o bastante para nos empurrar nessa direção? Se sairmos desse ano que não termina “mais tolerantes e solidários, produtivos e criativos”, como espera Gustavo Franco, e não “mais pobres, ressentidos e machucados”, teremos aprendido pelo menos parte da lição. O ano longo demais não terá sido de todo perdido.


JORNALISTA, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DO LIVRO ‘O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!)’, EDITORA TERCEIRO NOME

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.