O que fazem os cristãos na América?

Assembleia Eclesial aproximou os católicos do continente e deixou claro que todos podem compartilhar sua bagagem com os povos de onde estão inseridos

Dom Odilo Pedro Scherer, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2021 | 03h00

Algo novo acontece na Igreja Católica da América. De 21 a 28 de novembro passado, realizou-se a 1.ª Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, na Cidade do México. Preparada durante dois anos pelo Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), a assembleia contou com a participação de mais de mil delegados, oriundos de todos os países do continente. Apenas um de cada dez esteve presente no México, e os demais participaram dos trabalhos de maneira remota, em suas casas, mediante plataformas da internet. A abertura e a conclusão do evento ocorreram na basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México.

A assembleia fez a memória dos 14 anos da Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, realizada em Aparecida (2007), e já foi orientada pela perspectiva da comemoração dos 2 mil anos da morte de Jesus Cristo, em 2033. Quis o papa Francisco que todos os membros da Igreja estivessem representados nessa assembleia, e não apenas os bispos, como geralmente ocorre numa iniciativa eclesial desta envergadura. De fato, o grupo dos leigos teve a maior representação, com quase metade dos delegados da assembleia.

A situação de cada povo desta parte do mundo repercutiu na assembleia, com suas belezas e riquezas culturais e religiosas, mas também com suas angústias e sofrimentos, que desafiam a presença e a atuação dos cristãos e clamam por um renovado esforço de mudança e renovação. Grande destaque mereceu o empobrecimento constante das populações tradicionalmente já excluídas da vida econômica e social, em decorrência de sistemas econômicos e políticos nada justos e da falta de solidariedade entre os povos. Vítima destes mesmos sistemas também é a natureza, nossa “casa comum” e o ambiente da vida; desnecessário é dizer que as atenções voltaram-se especialmente para a grande Amazônia.

Motivo de preocupação também foi a crise da democracia nos sistemas políticos em nosso continente, a corrupção e a impunidade que continuam sem solução em várias partes, a violência estrutural e cultural e a legitimação do narcotráfico e da violência contra a mulher. Dolorosa é a condição dos migrantes, sobretudo da América Central e de algumas áreas do Caribe para a América do Norte, configurando-se como um verdadeiro êxodo, com sofrimento enorme para as pessoas entregues à própria sorte. A voz angustiada dos povos originários e dos afrodescendentes fez-se ouvir de maneira clara e forte no plenário da assembleia.

Como não poderia deixar de ser, a assembleia também refletiu sobre problemas internos da Igreja, como o clericalismo e os escândalos morais. Observou-se o desempenho ainda tímido dos católicos na vida social e pública, muitas vezes voltados sobretudo para dentro de seus próprios grupos. Foi pedida maior participação dos jovens e das mulheres nas comunidades e na vida da Igreja. Conforme o tema da assembleia eclesial, os cristãos são chamados a serem discípulos missionários em saída, para levar aos diversos espaços e ambientes do convívio social o bom fermento do Evangelho, colaborando com a construção de um mundo bom para todos.

Um dos objetivos da assembleia eclesial continental era avaliar o caminho feito após a 5.ª Conferência Geral do Episcopado do continente, realizada em maio de 2007, em Aparecida. Naquele evento, o papa Francisco, ainda em vestes de cardeal Mario Bergoglio e arcebispo de Buenos Aires, desempenhou o papel importante de coordenador da comissão de redação do documento final, no qual se incentivam as igrejas locais a passarem de uma pastoral de mera conservação a uma grande renovação missionária. Iniciativas nesse sentido foram tomadas um pouco por toda parte, mas ainda será necessário ampliá-las.

Muitos elementos de esperança também foram apontados, como o envolvimento amplo das comunidades da Igreja no socorro às vítimas da pandemia, do tráfico de drogas e de seres humanos, na acolhida generosa de tantos caídos ao longo das ruas e praças de nossas metrópoles, no esforço em superar a pobreza e na defesa do ambiente, na promoção da família e do respeito à vida. Crescem os grupos de fé e política, onde os cristãos procuram confrontar sua fé com a participação na vida pública.

A Igreja Católica, enquanto instituição, não busca o poder político, mas encoraja seus membros, enquanto cidadãos, a participarem ativamente da vida política de suas comunidades. A assembleia eclesial aproximou mais os católicos presentes neste vasto continente e deixou a percepção mais clara de que, apesar das muitas diferenças, todos têm muito em comum e podem compartilhar sua bagagem com os povos de onde estão inseridos.

Os cristãos não formam uma sociedade à parte: são membros das comunidades locais, cidadãos e atores sociais e culturais. E o Evangelho de Cristo que levam no coração lhes dá luzes e inspirações para lutarem pela superação das mazelas que afligem as pessoas e edificarem a sociedade no bem.

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CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

 

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