O que ganhamos com a pandemia?

Os inúmeros exemplos de amor generoso ao próximo deixaram uma marca indelével

Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 03h00

Há cinco meses a pandemia de covid-19 se espalha pelo mundo, causando pânico e transtornos de toda sorte na vida das pessoas e comunidades. E ainda não se entrevê o final desta experiência, de certa forma, humilhante para a humanidade. Com todo o desenvolvimento científico e tecnológico, enviando sondas para Marte e para além dele, somos derrubados por um vírus!

No entanto, não deveríamos subestimar as lições que a pandemia nos ensina, ou recorda. Aprendemos novamente a fazer as contas com a nossa fragilidade e os medos mais genuínos, não causados por fantasmas imaginários, que demandam horas de divã e alguns medicamentos fortes. É o medo de ficar doente, de não mais conseguir respirar direito, de perder a própria vida ou a vida de pessoas queridas... Continuamos humanos e vulneráveis, apesar das inegáveis e belas conquistas científicas e tecnológicas, e percebemos de novo que o mais precioso e belo da vida é o fato de viver e partilhar a vida com as pessoas ao nosso redor. Parece-me uma lição salutar.

A pandemia, por outro lado, obrigou-nos a reconhecer que todos, sem distinção, estamos expostos ao risco e precisamos uns dos outros. O cuidado que cada um tem pela própria saúde conta para a saúde dos outros também. Nossos projetos pessoais e coletivos, estribados no individualismo, são duramente postos à prova. Ninguém vence a pandemia sem a ajuda dos outros.

Que venha logo o fim dessa crise! Mas não sem nos perguntarmos sobre o que ela nos ensina e sobre o que levaremos para a vida que segue depois dessa crise. Voltar, simplesmente, a uma afirmação individualista da vida seria insensato. Não seria este o momento propício para uma postura nova diante de tantos outros desafios a serem resolvidos de maneira solidária, como a pobreza, que se agravou, as doenças endêmicas, os problemas antigos da habitação, educação de qualidade e satisfação das necessidades básicas da condição humana? Como ser felizes com tantos irmãos ainda vivendo em condição precária e até sub-humana? Voltaremos a uma economia de acumulação, em vez de partilha, em vista do bem comum?

Experimentamos, neste tempo, a importância da atenção abnegada de profissionais da saúde e outros agentes sociais, que expunham ao risco a própria vida para salvar a de outros. Todos temos algo a ser posto mais efetivamente a serviço dos demais. Ninguém é tão pobre que não possa ajudar alguém; ninguém é tão rico que não tenha nada a receber; a sensação de autossuficiência, de fato, empobrece os sentimentos humanos.

Todos temos algo a aprender dos outros, mesmo daqueles que têm convicções diversas das nossas. Seria hora de valorizar aquilo que se conseguiu descobrir e fazer em comum para a superação das emergências desencadeadas pela pandemia. Muitas energias positivas foram suscitadas e deveriam ser valorizadas, uma vez superada a crise. Os grandes objetivos comuns da existência humana e os muitos desafios que enfrentamos oferecem motivos suficientes para não desperdiçarmos energias preciosas em divisões e polarizações excludentes e fratricidas.

Durante a pandemia, muito se fez “a fundo perdido”, como observou o papa Francisco a um grupo de médicos e enfermeiros italianos recebidos por ele em audiência no dia 20 de junho passado. Esse investimento, “a fundo perdido”, em dedicação profissional, iniciativas de voluntariado, amor ao próximo e também em dinheiro tem um alto significado e mostrou que há uma enorme reserva de bondade e compaixão no coração das pessoas.

Ninguém pensaria, agora, em recuperar esse capital investido nos enfermos recuperados ou naqueles que, infelizmente, perdemos. É para isso que trabalhamos, movemos a economia e fazemos ciência: para ajudar a viver melhor e produzir efeitos de salvação e valorização da pessoa e de sua vida. Neste momento, fazer cálculos sobre perdas e cessação de ganhos durante a pandemia seria cínico e desumano. Ter sobrevivido e ter aprendido a valorizar mais a própria vida e as pessoas já é um ganho inestimável. Mais que os números da economia e das contas bancárias, valem as pessoas.

É hora de valorizar as pequenas e grandes conquistas alcançadas, que produzirão frutos no presente e no futuro. Talvez o êxito mais importante desta crise tenha sido a recuperação de algo mais do senso de humanidade, que andava descuidado e esquecido. Sinais disso são a maior proximidade e atenção às pessoas, a sensibilidade diante de suas angústias e seus sofrimentos, as muitas iniciativas de voluntariado para assistir os mais necessitados.

O sofrimento dos doentes, o sacrifício de quem se dedica a eles e a perda de tantas vidas requerem, agora, a união de esforços para construir um amanhã melhor. Olhemos para o futuro, para honrar o sacrifício dos que perdemos na pandemia. Os inúmeros exemplos de amor generoso ao próximo deixaram uma marca indelével na consciência pessoal e no tecido social. Por elas valem a pena o sacrifício e o esforço para alimentar a fraternidade e a convivência civil.

CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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