O que nos une

Se queremos paz, temos de ser muito mais liberais: respeitar mais a liberdade de cada um.

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 03h00

Além de falarmos a mesma língua e de habitarmos o mesmo território, o que nos une enquanto brasileiros? A atual polarização político-ideológica – alguns chegam a falar em guerra cultural – parece deixar pouco espaço para uma identidade nacional. É cada vez mais difícil de listar características comuns dos brasileiros.

Gostaríamos, talvez, de poder dizer que nos unem a fraternidade, a preocupação com o outro, a aspiração por uma maior igualdade social, o cuidado com o meio ambiente, a educação como prioridade, o respeito à liberdade de pensamento e de expressão, o zelo pela coisa pública, a excelência no trabalho e tantos outros valores e virtudes. Mas não. Sabemos que isso é uma fantasia. Não somos assim. Não educamos nossos filhos assim.

Quem somos, então? O que nos une? Penso que um traço comum é a aspiração de viver em paz, de desfrutar da vida em paz. Talvez outros povos tenham outras aspirações, mais complexas, capazes de produzir maiores transformações – e também maiores conflitos. Aqui, ainda que às vezes imaginemos querer projetos magnânimos e mudanças profundas, queremos sobretudo viver em paz. Que não mexam com a gente. Que não mexam com aquilo que é importante para cada um de nós.

No entanto, apesar de toda essa aspiração, cada vez mais parece que querem mexer com a gente, com aquilo que é importante para cada um de nós. Há uma sensação de desconforto, como se estivessem querendo impor determinado modo de vida, uma específica visão de mundo. Seja qual for nossa orientação ideológica, é cada vez mais comum a sensação de que outros estão tentando fazer prevalecer uma determinada cultura na escola, nas relações afetivas, na família, na arte, nas leis, no Estado.

Há um incômodo. Queremos viver em paz, mas não nos deixam. Às vezes, este sujeito indeterminado ganha nome e sobrenome; outras muitas, é uma sensação difusa mesmo. Seja de um modo ou de outro, a percepção é de que estamos sendo atacados em nossos valores, em nossas causas, em nossa vida.

Se o fenômeno é tão comum, percebido por diferentes correntes ideológicas, devemos talvez concluir que aqui esteja outro traço comum do nosso jeito de ser. Queremos paz, mas também queremos que as outras pessoas sejam parecidas conosco. Que nossos valores predominem na cultura, na educação, no espaço público.

Tem-se aqui um aspecto relevante. Vivemos numa sociedade plural, mas em alguma medida temos uma concepção política pré-moderna, não plenamente laica. Ainda pensamos o Estado como difusor do bem e da virtude (do que cada um entende por bem e virtude), e não como promotor de um ethos de paz e liberdade (concepção de Estado nascida após a reforma protestante).

Ao gerar nos países europeus um novo patamar de diversidade social e cultural, a reforma protestante exigiu uma nova cultura política. A laicidade do Estado – entendida não apenas como isenção do Estado em questões religiosas, mas também em questões morais – deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade.

No Brasil, é ainda muito difundida a pretensão de que o Estado assuma determinada moralidade, seja permissiva ou repressora. Por exemplo, discute-se regime jurídico do casamento como se o poder estatal estivesse avaliando moralidade de atos sexuais, e não os efeitos sociais das diferentes modalidades de relacionamentos. O debate público é ainda dominado por razões morais, e não por razões políticas, generalizáveis a todos os cidadãos.

Queremos paz, mas temos dificuldade de perceber que a sociedade é incrivelmente plural. O vizinho, o colega de trabalho, as famílias da escola serão cada vez mais diferentes de nós. Pode-se tentar reduzir a diversidade do nosso círculo social e familiar, mas será sempre uma construção artificial. No espaço público, temos de lidar e conviver com todos.

Se queremos paz, precisamos ser muito mais liberais: respeitar mais a liberdade de cada um, a dignidade de cada um. Ao longo da história, houve diversas tentativas de que o Estado, a escola, a família, a igreja ou o partido tivessem uma prevalência na formação das novas gerações, na configuração da cultura, na determinação dos valores de uma sociedade. Os resultados foram sempre profundamente insatisfatórios. O ser humano teima em ser livre.

Atualmente, o instinto de liberdade – que nos leva, entre outras coisas, a reagir quando nos sentimos atacados em nossos valores – é cotidianamente explorado para gerar engajamento, seja nas redes sociais, seja nas urnas. É preciso estar atento. Nossa defesa pode se transformar em armadilha, afastando-nos da paz que tanto desejamos.

A convivência pacífica não virá de uma utópica uniformidade cultural ou ideológica. A pluralidade de visões de mundo, e também de sensibilidades, é um fato. Queremos viver em paz? Precisamos de uma nova cultura de liberdade, de uma nova tolerância, de um novo olhar para quem vive e pensa de forma diferente de nós – que assegure, entre outros pontos, uma laicidade estatal mais qualificada. O Estado não é nosso tutor – e também não deve ser do nosso vizinho.

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