O que você teria feito se fosse um judeu no Holocausto?

Vamos lembrar e refletir sobre o que são capazes os regimes sombrios e cruéis

Alon Lavi *, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 03h00

Todos os anos, duas vezes por ano, minha cabeça fica repleta de pensamentos e fico sobrecarregado com as emoções sobre o Holocausto. Isso acontece no dia 27 do mês da Nissan (de acordo com o calendário lunar judaico), quando Israel observa o Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo, e em 27 de janeiro, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) comemora o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

As memórias do Holocausto sempre acompanham a minha vida, principalmente porque meu filho primogênito recebeu o nome de meu avô que a ele sobreviveu: Moredechai. Nesses dois dias, várias lembranças, diversos pensamentos e sentimentos surgem em mim. E geralmente chegam em três eixos principais.

Antes de tudo, não consigo assimilar o horror e a perda. Como uma pessoa pode, realmente, internalizar, bem como entender o significado e a magnitude do assassinato de 6 milhões de pessoas, simplesmente por terem uma fé diferente? Foram 6 milhões de judeus sistematicamente exterminados apenas por serem judeus; 6 milhões de almas eliminadas tão somente por terem uma religião diferente.

Pensar na morte de tantas pessoas, homens e mulheres, crianças e idosos, professoras e faxineiras, banqueiros e metalúrgicos, é quase impossível. Em contraste com o presente e para entender a magnitude desse massacre, 6 milhões de pessoas é a quantidade aproximada da população total do Estado de Goiás. Esses pensamentos me levam a uma espiral sem fim, em que o coração não entende o que a mente há tempos já sabe.

A segunda pergunta que sempre me ocorre é: o que eu teria feito se estivesse no Holocausto? Poderia ter sobrevivido como o meu avô, transportado de um gueto para um campo de trabalho ou para um campo de concentração? Poderia ter resistido por meio do trabalho pesado, sendo esforçado e determinado não apenas para continuar vivo, mas também para salvar a vida de seu irmão menor? Ou talvez fosse como minha avó, que fugiu para o bosque e viveu escondida durante anos, procurando comida e batalhando para não sucumbir ao clima congelante durante o duro inverno? Ou será que eu teria me juntado a um dos grupos de resistência formados por judeus corajosos que lutaram contra os nazistas, apesar das baixas chances contra eles?

As estatísticas sugerem que eu teria tido o mesmo destino dos meus quatro bisavôs, parte dos 6 milhões que foram assassinados. Essa questão sempre me preocupou e sei que tenho sorte de ter nascido na terra judaica, Israel, que nunca, jamais permitirá um outro Holocausto.

Por último, durante esses dois dias em que nos lembramos do Holocausto, reflito sobre a vida. Sei que parece estranho, afinal, reitero que 6 milhões de judeus foram exterminados. No entanto, ainda fico surpreso e impressionado com o fato de as pessoas terem conseguido transformar sua vida e constituir famílias após o horror que viveram. Muitos sobreviventes ainda foram capazes de desenvolver seus negócios e contribuir nos campos da ciência, da medicina e da literatura.

Este ano, um novo conjunto de questões complicadas surgiu na minha vida. Meu filho Moredechai começou a me perguntar sobre a guerra, o Holocausto e a história de nossa família. É extremamente difícil para mim entender a Shoah – como chamamos o Holocausto em hebraico –, então, como posso falar sobre algo que me incomoda tanto com uma criança de 9 anos? E refleti sobre como lidar com esse problema: como proteger a sua inocência, mas compartilhar sobre o nosso passado? Como explicar tal atrocidade sem assustá-lo e sem ferir sua autoestima? 

Sinto-me obrigado não apenas a educar meus filhos a respeito dessa parte vergonhosa da História mundial, mas também a dar-lhes as ferramentas para combater as ideias que levaram à Shoah. É responsabilidade e dever de todos educar os jovens e as próximas gerações sobre a Shoah para evitar que uma truculência como essa se repita.

A data que a ONU escolheu para lembrar o Holocausto, 27 de janeiro, é o dia da libertação de Auschwitz-Birkenau, o maior campo de concentração e extermínio nazista, pelo Exército Vermelho, em 1945. Hoje comemoramos 75 anos de um dia que representa o triunfo da vida sobre a morte.

Na quinta-feira passada, Israel recebeu 49 chefes de Estado e delegações internacionais para o 5.° Fórum Mundial do Holocausto, o maior da história do país, no Yad Vashem (Museu do Holocausto de Israel), que lembrou a data. Além disso, Israel escolheu nomear o dia da comemoração do fim do Holocausto como Dia da Memória do Holocausto e do Heroísmo. Heroísmo daqueles que lutaram para sobreviver e salvar a vida de outras pessoas.

Vamos aproveitar esta data para lembrar e refletir sobre o que regimes sombrios e cruéis são capazes. Lembremos a importância de erradicar o racismo, o antissemitismo, a discriminação e o ódio ao próximo apenas por suas crenças e diferenças. Vamos aproveitar este dia para garantir que o Holocausto e outras monstruosidades não se repitam. 

Nunca mais!

* CÔNSUL-GERAL DE ISRAEL, É NETO DE SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO

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