O risco Bolsonaro em 2022

O presidente que emperra a vacinação de crianças é o mesmo do desemprego, da inflação e do empobrecimento

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 03h00

Mais do que nunca, apesar de Bolsonaro, Queiroga e seus assemelhados, é preciso insistir nos votos de feliz ano novo, mesmo diante da perspectiva de mais 12 meses de irresponsabilidade, incompetência e desmandos. É preciso manter a esperança e fazer o possível para dificultar o avanço da perversão e da barbárie. O pior presidente da história brasileira encerrou 2021 emperrando a vacinação de crianças contra a covid-19. Já havia retardado, em 2020, a vacinação de adultos, num jogo sinistro com centenas de milhares de vidas. Desta vez, além de questionar a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cobrou os nomes de quem participou da decisão. Com seu exemplo, incitou militantes do ódio a ameaçar diretores da agência. Obediente a seu amo, o ministro da Saúde – sim, da Saúde – anunciou uma consulta pública sobre a imunização das crianças, como se esse fosse o meio de resolver uma questão técnica e científica.

Ao dificultar essa vacinação, o presidente Bolsonaro acrescentou um capítulo especial a seu currículo tenebroso. Até aí, havia ameaçado as crianças de forma indireta, empobrecendo sua família, comprometendo sua educação e pondo em risco seus pais. O defensor da cloroquina, do kit covid e do famigerado tratamento precoce é o grande responsável, também, pela estagnação econômica, pela inflação acima de 10% e pelo desemprego acima dos padrões internacionais. O mesmo desgoverno produz o desastre sanitário, a destruição das florestas, o desarranjo dos negócios, a explosão dos preços e o reaparecimento da fome.

É preciso insistir, apesar de tudo, em desejar e buscar um feliz 2022, mas sem autoengano. As projeções indicam para o próximo ano um crescimento econômico na faixa de zero a 0,5%. A inflação de 2021 deve ter sido quase o dobro do teto da meta. A meta é 3,75% e o limite superior de tolerância, 5,25%. Para o próximo ano os dois sinalizadores são 3,50% e 5%, mas já se previu, na semana passada, uma alta de preços de 5,03%. Tentando frear os preços, o Banco Central (BC) já elevou os juros básicos a 9,25%. Em fevereiro a taxa deverá chegar a 10,75%. Em dezembro estará provavelmente acima de 11,25%.

Com inflação disparada, renda familiar corroída e juros muito altos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente será superior àquele 0,5% já estimado. Com isso, as condições de trabalho continuarão muito ruins, mesmo com alguma redução do desemprego. O último levantamento, referente ao trimestre móvel encerrado em setembro, indicou 13,5 milhões de desocupados, 12,6% da população economicamente ativa. Nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média recuou de 5,8% em setembro para 5,7% em outubro. A organização é formada principalmente por países desenvolvidos e alguns emergentes, incluídos Turquia, Chile, Colômbia, Costa Rica e México.

A economia brasileira continuará em excessiva dependência do agronegócio, o segmento mais dinâmico e mais competitivo da produção nacional. A indústria já ia mal antes do período Bolsonaro, piorou a partir de 2019 e nada se fez, nestes quase três anos, pela recuperação do setor industrial.

Nem se pode, a rigor, falar de uma política econômica. Não há planos, nem metas, nem programas. A única reforma relevante, desde o começo do atual mandato, foi a da Previdência, um assunto já encaminhado pelo presidente Michel Temer. Na área econômica federal, só dois organismos demonstraram eficiência e alguma clareza de objetivos neste período – o Ministério da Agricultura e o Banco Central.

A maior parte da administração central tem padrão compatível com as qualidades do presidente. Os problemas climáticos de 2021 estavam previstos no começo do ano, mas nada ou quase nada se fez para um enfrentamento ordenado e eficiente da redução da água em reservatórios e da crise energética. Na área da saúde, os cuidados com a pandemia dependeram basicamente dos governos estaduais e municipais. As intervenções do presidente foram em geral marcadas pelo negacionismo, pela rivalidade com governadores e pelo empenho em manter a comunicação com os militantes do ódio.

A resistência, pelo menos inicial, à vacinação de crianças é compatível com o comportamento mantido até agora pelo presidente e por ministros da área. “A pressa é inimiga da perfeição”, disse o ministro Marcelo Queiroga, fiel continuador do general Eduardo Pazuello, num patético esforço de justificação. No seu caso, a imperfeição decorre muito mais da incapacidade administrativa, da subserviência a um chefe despreparado e do aparente esquecimento dos deveres de médico. Dois colegas de profissão, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o antecederam no posto, na gestão Bolsonaro, e rejeitaram as ideias do presidente sobre como agir na pandemia. O ministro mais duradouro foi Pazuello, famoso como pregador da obediência. Será lembrado também pela inércia de seu ministério enquanto pacientes de covid morriam sem oxigênio em Manaus. Esse padrão permanece e permanecerá, tudo indica, definindo o desgoverno bolsonariano.

*JORNALISTA

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