O romance ‘A Peste’, de Albert Camus, e o coronavírus

Além dos danos à saúde, os efeitos do temor e da precaução ameaçam o crescimento econômico

José Medina Pestana, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 03h00

O Nobel de Literatura Albert Camus publicou em 1947 o romance existencialista A Peste, imaginando uma epidemia na cidade argelina de Oran, no norte de África, sitiada para contenção de sua disseminação. A cidade, de 200 mil habitantes, é surpreendida pela misteriosa morte de milhares de ratos, que, desgovernados, morriam em locais que não frequentavam. Enquanto a população, apreensiva, especula sobre a doença dos roedores, aconteceu sua disseminação entre humanos, manifestada por febre seguida de morte em poucos dias.

No início as autoridades refutam a possibilidade do diagnóstico médico de peste e o risco de sua disseminação exponencial, mas, depois de muitas mortes, fecham as fronteiras. Cada cidadão confinado tem de aprender a lidar com seu particular sofrimento associado ao medo, racionamento e isolamento de amores e familiares. Escolas são transformadas em hospitais auxiliares. Funerais passam a ser fiscalizados e contagiantes são postos em quarentena. O estoque de soro se esgota e um dos personagens acumula riqueza com contrabando de bens racionados.

O sermão de um erudito padre jesuíta, numa interpretação fake, atribui o evento a castigo divino aos pecadores, mas é desacreditado quando ele mesmo se torna vítima da doença. Sem tratamento, a epidemia segue seu curso natural e desaparece em meses.

Causada por uma bactéria, hoje a peste é restrita a focos isolados, limitados pelo uso de antibióticos.

A epidemia do novo coronavírus (covid-19) mimetiza parte do romance. Contestada em dezembro, foi admitida no mês seguinte, depois da comprovada transmissão entre humanos em Wuhan, cidade chinesa de 10 milhões de habitantes, logo sitiada para contenção da doença. O mundo, apreensivo, esperava que esse surto seguisse o rumo de anteriores, geograficamente restritos pela baixa capacidade de disseminação. Entretanto, em menos de três meses ele se disseminou por mais de cem países, com mais de 100 mil casos confirmados, cuja mortalidade, ao redor de 2%, é semelhante à da gripe espanhola, que assolou o mundo em 1918. No Irã a mortalidade parece maior pela indefinição do número de pessoas infectadas com manifestações leves. Na Lombardia (Itália), o principal foco ocidental da doença, cidades foram isoladas e as aglomerações, limitadas, com restrições ao fluxo de pessoas; as atividades escolares foram interrompidas, plateia de partidas de futebol, excluída e missas dominicais, canceladas. A restrição doméstica dos infectados menos graves e de seus contatos é mandatória e o cotidiano dessas pessoas, deteriorado como no romance. Nos Estados Unidos seu presidente comunicou pessoalmente a primeira morte no país e colocou seu vice na liderança do comitê dessa crise. No Japão a realização da Olimpíada está ameaçada.

No Brasil poucas dezenas de casos foram confirmadas, a maioria importada e confinada em quarentena em suas residências. Entretanto, o número de suspeitos tornou-se progressivo depois da recente identificação de casos de transmissão interna. Assim, pessoas com sintomas respiratórios semelhantes, causados por diversos vírus da gripe comum, naturalmente se assustam. Já há desabastecimento de produtos como máscaras hospitalares de proteção individual, cujo preço aumentou. A ameaça de epidemia em aglomerações habitacionais sem infraestrutura apropriada, ou no sistema carcerário, demandará muito pensamento e ação para conter uma possível disseminação da doença em condições onde o isolamento em quarentena se torna praticamente impossível. 

Bill Gates publicou há poucos dias artigo numa das principais revistas médicas do mundo, New England Journal of Medicine, clamando para que governantes, indústria e lideranças promovam ações que tornem disponível a assistência para as populações e regiões com maior necessidade como a única forma de minimizar a disseminação do coronavírus e prevenir futuras pandemias.

O comportamento deste coronavírus é repleto de enigmas, desde a potencialidade de sua disseminação e de gravidade em diferentes áreas geográficas e étnicas até a possibilidade de sua incorporação entre as gripes sazonais, como aconteceu com a influenza H1N1. É menos provável que um medicamento possa controlar a doença, seu controle sustentado deve depender do desenvolvimento de vacinas, como foi com a gripe causada pelos vírus da influenza. Essa ansiada expectativa cria mais uma oportunidade para que a fração descrente da população volte a entender a importância da vacinação para a manutenção da saúde pública, conceito recentemente abalado pela disseminação de fake news relacionadas ao sarampo.

Além dos danos para a saúde, os efeitos do temor e precaução que determinam redução do fluxo internacional de pessoas, bens e suprimentos causam enorme repercussão econômica na cadeia global de produção e consumo, levando à queda nas bolsas de valores e ameaça ao crescimento econômico semelhantes às maiores crises do passado.

PROFESSOR TITULAR DA UNIFESP E-MAIL: MEDINA@HRIM.COM.BR

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