O valor de um currículo acadêmico

Uma democracia está obrigada a investir em universidades públicas, patrimônio de todos

Alcir Pécora e Marcelo Knobel, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 03h00

A constrangedora fraude curricular do ministro da Educação que, embora nomeado recentemente pelo governo federal, pediu demissão antes de tomar posse devia servir ao menos para esclarecer a opinião pública sobre o valor de um título acadêmico legitimamente defendido e obtido numa universidade de prestígio. Nos dias estranhos que correm, isso já não é óbvio. Ao contrário, são frequentes os comentários depreciativos sobre a carreira dos professores, mesmo no âmbito de universidades que exigem pesquisa, docência e extensão.

É preciso saber que para se tornar docente numa universidade de excelência é necessário possuir título de doutor, que leva de três a cinco anos para ser obtido. Mas isso só é possível após uma graduação de quatro a seis anos e de um mestrado de mais dois. Algumas áreas exigem especialização, residência ou exame específico. Várias pedem dois anos de estágio de pós-doutoramento no exterior, período que não se resolve com uma visita rápida a uma instituição estrangeira, como escancarado no caso recente do ex-ministro. São anos complicados, com bolsas de estudos de valor baixo, que só atendem às necessidades básicas de vestuário, alimentação e moradia da pesquisadora ou do pesquisador e de sua família. 

Após a formação, chega a hora dos concursos públicos. São estressantes, raros e disputados, podendo haver 30 ou mais candidatos para uma única vaga. Muitos passam anos até conseguir ser aprovados, mantendo-se ativos na área graças a alguma modalidade de bolsa ou de subemprego. Após vencer esse funil e ser contratado por uma universidade pública, não há dolce vita. Além de aulas obrigatórias na graduação e na pós, aumenta a pressão sobre o docente. A universidade e a comunidade científica exigem demonstrações da qualidade em pesquisa manifesta em artigos, livros, apresentações em congressos no Brasil e no exterior.

Para avançar na carreira, cada passo é submetido a bancas de arguição e à avaliação de mérito. Ao fim de 20 ou 30 anos de serviço, poucos conseguem pleitear o concurso da titularidade, último passo da carreira. Numa universidade de excelência, é preciso ainda orientar estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, supervisionar pós-doutorados e estabelecer um grupo de pesquisa capaz de pleitear reconhecimento nacional e internacional. 

A demanda por recursos aumenta, pois é necessário comprar equipamentos, pagar bolsas e encontrar meios de financiamento da pesquisa. Os docentes estão obrigados não apenas a fazer ciência, mas a administrá-la – preparando projetos, escrevendo relatórios, prestando contas e gerenciando colaborações.

Professoras e professores também têm forte demanda para colaborar com a administração da universidade. São convocados a compor comissões, chefiar departamentos e outros órgãos, o que significa distribuir seu tempo e sua responsabilidade em tarefas que precisam ser aprendidas durante seu próprio exercício. Em algumas áreas, como nos hospitais universitários, médicos e enfermeiros atuam como única opção de atendimento a milhões de pessoas sem plano de saúde e sem outro acesso a procedimentos caros e sofisticados.

A vida de um educador comprometido com a universidade pública exige formação longa, responsabilidade elevada, participação em pesquisa de ponta e engajamento na formação de recursos qualificados para o País. Os salários não são altos e, dependendo da área, são incompatíveis com a remuneração em funções análogas ou próximas no mercado. Boa parte desses docentes teria condições de assumir postos nas melhores universidades do mundo, com salários e infraestrutura superiores. Isso não significa que seja uma carreira para loucos ou abnegados. O que leva os docentes a escolhê-la é que, assentada a possibilidade de uma vida digna, com liberdade de pensamento, a carreira universitária oferece abertura, como poucas, para a criação autoral, a formação de futuras gerações, o vínculo com a sociedade e o desenvolvimento do País.

Uma democracia está obrigada a investir em infraestrutura, projetos e quadros das universidades públicas, um patrimônio de todos. A despeito do momento incerto que vivemos, a universidade pública oferece motivos de confiança. Enfrentando diversas crises, a incompreensão de governantes e a desfaçatez das fraudes cometidas à margem delas, as universidades evoluíram a ponto de estar entre as melhores da América Latina e divisar as melhores do mundo.

É preciso que a sociedade brasileira defenda a continuidade e a ampliação do investimento na formação das próximas gerações de pesquisadores em todas as áreas do conhecimento, como o País vinha fazendo nos últimos 70 anos por meio de bolsas, apoio a equipamentos e custeio. Não reconhecer o valor das universidades e das carreiras universitárias significará mais que o desplante de falsificar currículos: significará conformar-se, mais uma vez, com um futuro mediocremente perdido.

* ALCIR PÉCORA E MARCELO KNOBEL SÃO, RESPECTIVAMENTE, PROFESSOR TITULAR DA ÁREA DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP; E REITOR DA UNICAMP, PROFESSOR TITULAR DA ÁREA DE FÍSICA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.