O vício das disputas

A cultura do ódio e o descontrole das emoções são dois os seus sintomas

Geder Parzianello, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 03h00

Existem pessoas simplesmente viciadas em disputas de opinião. Precisam estar irremediavelmente sempre certas. Sentem um inexplicável prazer nisso, uma satisfação pela discussão e por superar o diálogo. Elas gostam do embate de argumentos, sentem-se poderosas quando pensam ter conseguido desarmar o oponente, deixando-o sem palavras. Pessoas assim querem sempre debater, mas desde que consigam fazer prevalecer seus pontos de vista. Encaram toda conversa como uma disputa e querem vencer. Para elas, a vida foi orientada para o sucesso, como critica Jürgen Habermas.

Como todo viciado em jogos, pessoas assim não aceitam perder. Estão sempre criando armadilhas argumentativas para que o outro caia nelas e acabam vivendo da ilusão de que são inteligentes porque parecem espertas. Em geral, gostam de repetir o que ouviram e serve aos seus interesses, não importa se o que dizem é real ou não: o importante é que pareça lógico e tenha força persuasiva ou de convencimento (na visão delas, é claro). Não gostam de ser contrariadas.

Todos nós conhecemos pessoas assim. E não apenas nas redes sociais. Em certas situações, nós somos também muito parecidos com elas. Mas gostamos de pensar que não somos viciados.

A primeiro condição para o tratamento do vício é o reconhecimento dessa dependência. É assim com quem busca livrar-se do álcool, das drogas ilícitas ou dos jogos de azar.

Nossa cultura ainda não dá o devido valor e cuidado a dependências novas que vêm surgindo com a realidade virtual, as tecnologias móveis e a digitalização da vida social. A cultura do ódio e o descontrole das emoções são sintomas desse vício por disputas. Muitas pessoas parecem ter adoecido da dependência de conseguir vencer uma disputa opinativa optando por agredir, ofender ou desqualificar o outro. Começam a tornar, aos poucos, esse comportamento como que um traço de sua personalidade. Pessoas assim acabam se tornando compulsivas, mesmo sem notar.

Dominique Wolton surpreendeu especialistas em comunicação quando sentenciou, poucos anos atrás, que não nos comunicamos apenas porque interagimos, diferentemente do que pensam outros teóricos tão relevantes quanto ele. É preciso que exista mais que interação para que haja uma real comunicação.

É preciso que queiramos e possamos falar, e não nos protejamos na alienação dos silêncios, nem que falemos apenas a quem pensa como nós, porque, como explica Edgar Morin, não há diálogo se não for com a diferença. É preciso também que tenhamos capacidade de escuta e dispositivos cognitivos, ou capacidade de aprender. Porque aprendemos com os outros ao escutá-los. Seja sobre a ignorância deles, seja sobre a nossa.

A comunicação efetiva requer empatia, sensibilidade para perceber as razões do outro, mesmo quando nos pareçam absurdas. Porque somente quando imbuídos desses bons sentimentos é que conseguimos ouvir o outro de verdade, somos capazes de compreendê-lo, sem que isso signifique, necessariamente, concordar com ele. É um exercício. Em alguns círculos e culturas, esse comportamento já parece introspectado, já faz parte da consciência do indivíduo.

Em outras culturas, essa aprendizagem e esta prática também podem ser feitas, mas parece bem mais difícel. Requer que saibamos escolher, como explica Dominique Barter, um lugar adequado para cada coisa que fazemos. Assim como fazemos nossa higiene no banheiro, usamos o quarto para dormir, precisamos também de um ambiente apropriado para que a comunicação dialógica se realize, e de forma não violenta. Ela não pode ser feita na pressa do dia a dia, nos grupos de aplicativos de conversa em smartphones, a qualquer hora e em qualquer lugar, nem nas redes sociais. O tempo dos outros não é o nosso, nem a paciência ou a disponibilidade para a aprendizagem. É preciso haver um acordo.

É ingenuidade pensar que as redes sociais seriam ambientes para evoluirmos nesse sentido. Utopismo das primeiras gerações de estudiosos da chamada cibercultura. As redes sociais servem a outros usos, todos bem sabemos. Muitos se deram conta disso há bastante tempo, não aceitam mais o jogo que elas representam, saíram dessas redes e nunca mais voltaram. Outros, vêm caindo em si aos poucos, com as redes admitindo a perda crescente de usuários – muitos, em parte, também por causa dos episódios de censura tardia de seus administradores contra Donald Trump, depois de anos de seus abusos na incitação à opinião pública mundial.

Pode ser também uma forma de alienação sair das redes como quem decide não consumir mais um conteúdo de televisão, ou assistir a uma emissora, por exemplo, agindo como um avestruz. O mais sadio sempre, no entanto, como se aprende sobre tudo na vida, é saber consumir, porque só se precisa abrir mão totalmente quando se está mesmo doente. Ao viciado faz mal o primeiro gole.


DOUTOR EM COMUNICAÇÃO COM PÓS-DOUTORADO NA ALEMANHA, LECIONOU NA UNIVERSITÄT ZU KÖLN E É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA (EM SÃO BORJA, RS)

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