Os bastidores da ciência

Com o coronavírus, há choque entre cientistas mais ortodoxos e os que estão na linha de frente

*Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 03h00

Apesar de maltratada por autoridades e “orçamenteiros”, com a epidemia do novo coronavírus a ciência está indo à forra. De fato, dependemos quase servilmente dela. Porém desacordos e trocas de farpas sugerem que virou balbúrdia. Será?

Sempre tentei mostrar a meus alunos o esplendoroso edifício da ciência, uma construção onde vai um tijolo sobre o outro. Tem cumulatividade e produz resultados sólidos. Há um imperativo de buscar erro em tudo. Sendo assim, o que sobrevive merece confiança. Pode demorar, mas os desencontros e as controvérsias acabam sendo resolvidos. Valores pessoais são progressivamente banidos. E toma água sanitária nas contaminações ideológicas!

Entra ano, sai ano, a máquina do método científico vai esmerilhando arestas e esmagando estultices – por mais promissoras que parecessem. No seu ritmo pachorrento, vai desbastando o entulho. 

De repente, vem o coronavírus! O palavrório e as colisões fragorosas dão a impressão de que o método científico está sendo defenestrado. Pesquisadores proclamam com ferocidade suas ideias e versões. E quase sempre se chocam com as verdades de outra prima-dona. Soçobrou a ciência?

Há hoje um real e inevitável choque entre os cientistas mais ortodoxos e os que estão na linha de frente, geralmente, os médicos. Os primeiros passaram a vida proclamando os rigores do método científico. Por que agora seria diferente? 

Tradicionalmente, a medicina ampara-se na ciência. Porém a ciência só chega até certo ponto. Daí para a frente, o campo é pantanoso. E os médicos sempre conviveram com essa penumbra do que é apenas parcialmente iluminado pela ciência. Entra em cena o conhecimento tácito, o “olho clínico”. E a decisão não pode esperar os testes, demorados e caros. Diante do médico está o paciente. A inação não é uma escolha.

Arrisco dizer que jamais um fármaco foi objeto de batalhas tão virulentas como a hidroxicloroquina. Ademais, virou cavalo de batalha de políticos. 

Os chineses usaram a hidroxicloroquina e não concluíram nada. Os italianos, tampouco. Um médico francês, meio bizarro, garante que funciona. Outro de Nova York afirma o mesmo. Até agora os resultados são inconclusivos. Para a ciência, estamos na estaca zero. 

No furor da batalha, os minuciosos e arcanos protocolos da ciência parecem estar sendo esquartejados. O edifício da ciência se esboroa? O público, atônito, percebe as guerras encarniçadas e dilacerantes entre os cientistas. Entram também em cena os que entendem alguma coisa e mais os que não entendem nada. Em geral, estes são os mais pródigos em palpites definitivos. 

Pior, para promover suas agendas, políticos e oportunistas de todos os matizes reivindicam ser verdade científica o que dizem. Às vezes parece que existe uma ciência de esquerda e uma de direita. Não obstante, como os médicos, os dirigentes têm de tomar decisões.

E aí, além de vidas, o coronavírus está destruindo o delicado tecido com que se constrói a ciência? A hipótese deste ensaio é pela negativa. 

Tudo segue muito parecido, segue como sempre foi. O que mudou foi o ritmo em que, diante da crise, passou a operar a ciência. E, também, a maior transparência pública das controvérsias, com as redes sociais tornando tudo escancarado.

Mas parece-me que, no que conta, muda apenas a velocidade. A ciência tradicional anda em câmera lenta, em comparação com o ritmo frenético de hoje. 

Tradicionalmente, impunha-se a sobriedade gélida das pesquisas. Ela ia limpando o campo. Sobrava espaço apenas para os sobreviventes (simplificando um pouco). 

Antes das pesquisas sólidas, a brigalhada sempre existiu. Ainda assim, tudo se passava longe, mesmo dos cidadãos mais bem-educados. Não por sigilo, mas pela aridez do tema ou pela incapacidade de penetrar na sua linguagem hermética. 

Os egos transbordavam, monumentalmente. Newton nutria por Leibnitz um ódio doentio. Galileu duelou ferozmente com o Vaticano. A maioria das desavenças não comoveu os leigos. É o caso das discordâncias de Einstein com seus colegas. Ou Edison com Tesla. Outras polarizaram mais do que a hidroxicloroquina. Darwin buliu num vespeiro. 

Mas são brigas que se diluem ao longo dos séculos. Em contraste, agora se compactam em semanas e têm como espectador ansioso o grande público. Este apenas vê as colisões espetaculosas, não percebendo que, alguma hora, a poeira baixa e os resultados não admitem mais desacordos.

De janeiro para cá, circularam 7.500 novas pesquisas no mundo científico. Boa parte nem merecerá publicação nos periódicos sérios. Das publicadas, pouquíssimas chegarão a ser citadas. Como sempre, sobra apenas um punhadinho. 

Um estudioso dos processos da ciência verá o coronavírus criando um cenário que encurta em meses o que levava décadas para acontecer, discretamente. E oferece à sociedade uma amostra distorcida de como funciona a pesquisa, pois a urgência comprime em semanas as conflagrações. Mas é questão de tempo, o limpa-trilhos do método científico funcionará. Virão as respostas! E poucos ainda creem haver alguma fonte alternativa.

*M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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