Os canários da Rússia

Situação atual é um alerta final para que o Brasil consiga a sua independência na produção de fertilizantes.

Antonio Cabrera, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 03h00

Rico de recursos e pobre de decisões. Certamente, essa é a melhor expressão para explicar a situação dos fertilizantes no Brasil.

O agro brasileiro é um colosso de produtividade, pois em 1990 o Brasil colhia 1,5 tonelada de grãos por hectare, mas em 2020 esse valor passou para quase 4 toneladas. Se voltarmos mais no tempo, isso significa que em 1950 um agricultor alimentava cerca de 16 brasileiros na cidade, e em 2020 são cerca de 200 pessoas no asfalto para cada produtor rural.

Esses números mostram o progresso e a maneira cada vez mais sustentável do nosso campo, porque, se continuássemos com aquela produtividade de 1990, teríamos de ter desmatado novas áreas de produção com cerca de 105 milhões de hectares. Da mesma forma, a produção de carnes no Brasil deu o mesmo salto de produtividade. Há vários motivos para esta revolução desconhecida da maioria dos brasileiros, mas um dos principais é o uso adequado de fertilizantes.

No caminho inverso da produção de alimentos, entre 1983 e 2020 a produção interna de fertilizantes caiu de 66% para cerca de 15% dos insumos consumidos pela agricultura. Nesse sentido, em 2021 foram utilizadas cerca de 45 milhões de toneladas de adubo no Brasil. Destas, apenas 6,5 milhões foram produzidas no Brasil, com os 85% restantes tendo sido importados.

Vejam o caso do cloreto de potássio, em que ostentamos o título de maior importador, usando 80% de todo o produto importado pela América do Sul. Com isso, talvez sejamos a única potência agrícola que importa tanto. E observemos não apenas essa dependência, mas também a instabilidade política de nossos principais fornecedores, com exceção do Canadá. A Rússia, o maior fornecedor, dispensa comentários com a situação atual. Já Belarus, outro dos nossos principais fornecedores, tem sofrido sanções aplicadas pela União Europeia e não está podendo acessar os portos na Lituânia para exportar para o Brasil.

Além dessa fragilidade, esta dependência de nutrientes estrangeiros influencia diretamente no custo da produção, dificultando o planejamento do produtor e atrelando o seu orçamento às variações das taxas cambiais.

Mas o que espanta, neste quadro anteriormente descrito, são os erros crassos do Brasil na solução deste ponto fraco do principal setor da sua economia exportadora.

Em primeiro lugar, não aproveitamos o nosso gás natural e injetamos no solo cerca de 60% do gás extraído, porque não temos infraestrutura para aproveitar este gás fornecendo energia para nossas fabricas. E o pior é ainda não conhecermos melhor o potencial das nossas jazidas internas, já que só 30% do território brasileiro está mapeado em escala adequada de reconhecimento geológico. No Amazonas, apenas 7% da área é conhecida e a atividade enfrenta injustificáveis travas ambientais. Do pouco que exploramos, já sabemos que, em matéria de fertilizantes potássicos, temos potencial semelhante ao dos Montes Urais, em Belarus, e ao da Província de Saskatchewan, no Canadá. Temos aí um verdadeiro pré-sal da agricultura brasileira.

Nesse sentido, o Brasil já tem um processo adiantado de exploração de potássio na mina de Autazes (AM). O empreendimento conseguiu a licença ambiental em 2015, mas enfrenta inacreditáveis entraves no Judiciário, típicos apenas de nossa incapacidade de aproveitar nossas riquezas. Naquela região, o minério pode ser encontrado a profundidades entre 650m e 850m, com teor de 30,7% de KCl, números semelhantes aos do Canadá.

Além desta viabilidade técnica e econômica, como Autazes está localizado às margens do Rio Madeira, temos uma logística imbatível para distribuir estes insumos Brasil afora, com um baixo custo de entrega.

Não é preciso muito esforço para concordar que isso trará uma robusta competitividade para o Brasil diante do mercado internacional de alimentos. E, também, será uma grande chance de desenvolvimento econômico e de distribuição de renda para a região amazônica.

A sociedade brasileira não pode continuar dando ao Estado, principalmente ao Judiciário, o poder de impedir a geração de riqueza e prosperidade. Se o Brasil já é o que é, imaginem o dia em que tivermos liberdade para construir nossas hidrovias ou construir nossas ferrovias, como a Ferrogrão. Ou o momento em que tivermos liberdade para utilizarmos nossos recursos naturais para produzirmos nossos fertilizantes.

Você já ouviu a expressão “canário numa mina de carvão”? No século 19, era comum entre trabalhadores das minas de carvão a prática de monitorar o nível de gases tóxicos usando canários. Os pobrezinhos eram os primeiros a morrer, sinalizando o momento em que os mineiros deveriam deixar a mina. Assim, a expressão se cristalizou como um aviso sobre algo perigoso que está adiante.

É o que acontece hoje com esta invasão condenável da Rússia na Ucrânia, mas, ao mesmo tempo, um alerta final para que o Brasil consiga a sua independência na produção de fertilizantes.

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PRODUTOR RURAL, FOI MINISTRO DA AGRICULTURA E REFORMA AGRÁRIA

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