Os desafios da saúde digital

O que aprendemos com a pandemia de covid-19 e como manter as iniciativas de sucesso.

Claudio Lottenberg e Jonathan Knott, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2022 | 03h00

A prática da medicina e a experiência do paciente são os dois eixos em torno dos quais a tecnologia deverá girar para se integrar ao atendimento em saúde. Essa talvez seja a conclusão mais evidente que se pode tirar dos dois anos em que o mundo tem vivido à sombra da pandemia de covid-19, a pior crise sanitária do século. Diferentes desafios na provisão global de saúde podem ser enfrentados com ferramentas digitais – que vão determinar o futuro da saúde.

Dados coletados no Brasil e no Reino Unido mostram que a preferência pelo atendimento remoto se consolidou na sociedade. Segundo o sistema de saúde britânico National Health Service (NHS), desde o início da pandemia 60% das consultas têm sido feitas por vídeo ou outras formas digitais, e a expectativa é de que o atendimento por esses canais se mantenha em 50%. No Brasil, por sua vez, levantamento do Hospital Israelita Albert Einstein mostrou um alto grau de satisfação dos pacientes com o teleatendimento e que 40% deles buscam de novo a telemedicina em até 45 dias após a primeira consulta.

Essas informações constam no relatório Diálogos Brasil-Reino Unido em Saúde Digital: Desafios e Oportunidades em Telessaúde, uma colaboração entre o Ministério do Comércio Internacional do Reino Unido e o Instituto Coalizão Saúde do Brasil (Icos), com o objetivo de contextualizar a assistência em saúde e seus obstáculos hoje.

Num cenário de envelhecimento da população e aumento de ocorrência de doenças crônicas (fora os riscos de futuras pandemias), é preciso romper o ciclo de pessoas sendo tratadas somente após adoecerem e irem ao hospital. A pandemia destacou a urgência de mudar tal mentalidade. O atendimento remoto e o autocuidado têm potencial para se popularizar. Com as ferramentas de saúde digital, que vão desde aplicativos a prontuários digitais, incluindo programas de diagnóstico com inteligência artificial, e assim por diante, profissionais da saúde podem fazer mais com menos. Elas permitem a coleta e a análise de dados de forma otimizada, assim como a intervenção e a tomada de decisões de maneira mais rápida e precisa – um ganho para todos.

O custo é outra variável-chave: a telessaúde reduz desperdícios. Ao melhorar a logística e ampliar o acesso, a economia é uma consequência natural e bem-vinda.

Na questão da legislação, o Brasil tem espaço para avançar. Nos Estados Unidos, as regras para telemedicina estão postas desde 1996 e, no Reino Unido, desde 1998. Por aqui, teve início com uma resolução aprovada em 2002, ainda em vigor. Em 2020, com a covid-19, surgiu uma regulamentação temporária. Uma vez que a pandemia terminar, o esforço para chegar a uma regulação definitiva pode acelerar, sendo essa uma área com grande potencial de trocas entre a experiência britânica e a brasileira. Contar com essa infraestrutura legal, que proteja os dados sobre a saúde dos pacientes, será essencial para fazer com que as conquistas progridam. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) é apenas o início.

É preciso resolver questões legais envolvendo acesso a dados com segurança jurídica – tanto para quem cede a informação quanto para quem tem acesso a ela. Além disso, ainda existem resistências a essa partilha de informação. Utilizar a nuvem como fonte unificada de informações para operar a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) será uma tarefa fundamental, com impacto de longo prazo – e isso requer investimentos em pesquisa básica e inovação tecnológica.

Surgiu, ainda, a necessidade de treinar pessoal para fazer uso das novas possibilidades. As escolas de medicina e saúde em geral vão precisar incorporar conhecimentos que hoje são parte da formação em áreas específicas da ciência da computação e da engenharia – algo que já está acontecendo em algumas instituições de ensino. E existe outro desafio: a inclusão. Ainda que 82% dos lares brasileiros tenham acesso à internet, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), será necessário um esforço combinado das diversas esferas de governo, de organizações da sociedade civil e de agentes privados para melhorar a infraestrutura e a conexão, além de educar a população sobre a utilização das ferramentas de saúde digital.

Muitas iniciativas tiveram sucesso ao longo da pandemia, tanto no Brasil quanto no Reino Unido – como o Total Triage (NHS), a Central de Teledermatologia (Hospital Israelita Albert Einstein) e a TeleUTI (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), só para citar algumas. Mantê-las em operação e ampliá-las para todos os sistemas de saúde, público e privado, vai requerer não apenas adesão pelos profissionais de saúde, como também pelos usuários. Nesse cenário, a cooperação entre Reino Unido e Brasil é uma troca saudável de experiências e conhecimento, e as discussões levantadas são a base para soluções inovadoras, a fim de tornar saúde e tecnologia cada vez mais integradas.

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SÃO, RESPECTIVAMENTE, PRESIDENTE DO INSTITUTO COALIZÃO SAÚDE (ICOS) E CÔNSUL-GERAL BRITÂNICO EM SÃO PAULO

 

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