Os distúrbios da ignorância

Nosso desinteresse pelo futuro do planeta é suicida e revela uma ignorância absoluta sobre os alertas daciência

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 03h00

O calor sufocante dos últimos dias, seguido de chuva intensa e temporais, é a cicatriz visível do horror das mudanças climáticas. Boa parte da área metropolitana de São Paulo inundou, morros deslizaram sobre si e mataram dezenas de pessoas, ruas viraram rios, mas nos limitamos a lamentar ou a nos surpreender, como se o queixume sanasse o mal que cada um de nós ajuda a formar no dia a dia.

As marcas profundas das mudanças do clima aí estão, agravadas pelo pauperismo das populações suburbanas, mas insistimos em ignorar as causas profundas da brutalidade. Talvez a pandemia tenha ocupado todo nosso raciocínio, não nos deixando sequer uma fresta para entender que estamos exterminando a vida no planeta. Não vai aqui nenhum alarmismo ou exagero. Na ciência, há consenso sobre o perigo da crise climática e a devastação que provoca gradativamente na agricultura, ao alterar os períodos de plantio e safra, levando à queda na produção de alimentos. E o fantasma da fome ronda o planeta!

O aquecimento global, com invernos cada vez menos frios, derruba geleiras no Ártico e na Antártica, elevando o volume dos mares e estreitando nossas praias de veraneio. Em pontos do litoral paulista e em Santa Catarina, a situação já é visível a olho nu, mas optamos pela falsa “solução” de construir aterros.

Na Amazônia, onde antes chovia todos os dias ao final das tardes, agora já houve seca. No outro canto do mundo, na gélida Sibéria faz calor em pleno inverno.

Mas, se de um lado a ciência tem consenso sobre o perigo, de outro, na área político-governamental no Brasil continuamos a desconhecer a ameaça. Ignoramos o horror, fazendo de conta que o problema não existe ou que é invencionice. No atual governo de Jair Bolsonaro, o desprezo pelo meio ambiente se agravou, mas o desconhecimento do perigo é bem anterior e perpassa diferentes administrações federais.

Tanto é assim que, nas eleições de 2018, o meio ambiente e as mudanças no clima jamais foram tema de debate entre os candidatos. Em nenhum nível, nenhum deles sequer mencionou a existência do perigo e o que representa para o conjunto da humanidade. Agora, a nove meses das eleições deste 2022, nenhum dos pré-candidatos se interessou pelo tema.

Continuamos aferrados a ultrapassadas visões, poluindo nossas cidades com o monóxido de carbono dos automóveis, desinteressados em desenvolver motores elétricos. Dominamos a tecnologia sem interesse em implementá-la, porém. 

É estranho e incompreensível esse desdém sobre o perigo das mudanças do clima que, em maior ou menor grau, se apossou de cada um de nós.

No caso do Brasil, até a riqueza da região Amazônica passou a nos empobrecer, transformando-se em “um problema”. O desmatamento cresce, os rios são absurdamente contaminados com mercúrio na garimpagem de ouro. Desta forma - ao agredir a natureza - nos transformamos em serviçais da crise do clima.

Um de nossos defeitos no Brasil é fazer tudo de forma simulada, sem ir ao fundo dos problemas e, assim, vestindo o diabo com roupa de anjo.

Na recente reunião de cúpula sobre o clima, em Glasgow, Bolsonaro não compareceu e o ministro do Meio Ambiente discorreu sobre a “normalidade” de um “paraíso” inexistente. De fato, mentiu, como se a mentira sanasse o problema.

Nos Estados Unidos (que usamos sempre como paradigma), os desajustes do governo Trump foram tão escancarados que chegaram ao absurdo de retirar a nação mais rica do planeta do Acordo de Paris, que estabeleceu compromissos sobre o clima. A crise climática foi um dos pontos da campanha eleitoral de Joe Biden, que triunfou prometendo reingressar no acordo.

Empossado, Biden criou um ministério extraordinário para tratar diretamente do clima e o entregou a John Kerry, que fora um dos coordenadores do Acordo de Paris, anos antes.

Lá nos Estados Unidos, a iniciativa de Biden busca ir às causas do maior problema do século. Aqui, simulamos que não existem causas profundas, desconhecendo que a própria ciência indicou que deveríamos chegar a 2030 com “zero carbono”. O prazo foi estendido a 2050, 20 anos mais e, para ser cumprido e salvar a vida no planeta, exige uma mudança comportamental no obsceno esbanjamento da sociedade de consumo.

Nosso desinteresse pelo futuro do planeta é suicida. Mais do que tudo, porém, revela uma ignorância absoluta sobre os alertas da ciência ou, até mesmo, do senso comum. É como guardar garrafa térmica na geladeira para “conservar o calor”.

As advertências e os alertas não partem só da ciência, mas também do Papa Francisco ao advertir que é criminoso e obsceno destruir a obra divina da natureza em nome da cobiça de um capitalismo predatório, alucinado por lucro fácil.

Tudo isto está nos deslizamentos dos morros na Grande São Paulo, nas inundações que levaram tudo de populações empobrecidas e que, agora, chegam ao extremo da miséria, devido ao distúrbio de ignorarmos a natureza. 

JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNB

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