Os fatos conspiram a favor de Biden

Vitórias no Congresso relacionadas a clima, saúde e inovação ressuscitam a agenda política que o levou à Casa Branca, apesar dos obstáculos à frente.

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2022 | 03h00

São exageradas, senão equivocadas, as notícias sobre o ocaso prematuro do governo do presidente Joe Biden e a inexorável ressurreição política de seu antecessor, Donald Trump. Eleito em 2020 em disputa que negou um segundo mandato a Trump, Biden enfrenta desafios que fariam tremer as pernas de um líder menos experiente e calejado do que ele. Como acontece tradicionalmente na primeira eleição parlamentar depois de uma troca de presidentes, o partido do incumbente tende a perder cadeiras e até mesmo o controle da Câmara e do Senado.

No caso de Biden, o panorama é agravado por uma economia em contração e a mais forte alta de preços dos últimos 40 anos – consequências dos trilhões de dólares que o governo federal injetou na economia durante a pandemia da covid-19 e dos efeitos da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Não são apenas Biden e seu partido, no entanto, que estão a perigo. Embora as pesquisas indiquem tendência à perda da apertada maioria democrata de cinco em 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, elas mostram também que os partidários do presidente podem ganhar até dois assentos no Senado – hoje dividido ao meio, 50 a 50 – nas eleições de 8 de novembro.

Até lá, Biden deve colecionar importantes vitórias políticas e dividendos eleitorais para os candidatos de seu partido. A maior delas é o acordo que o líder da maioria no Senado, Charles Schumer, de Nova York, negociou em segredo com seu colega de West Virginia, Joe Manchin, para reavivar a agenda de energia e clima de Biden. Inclui mais de US$ 700 bilhões em investimentos em projetos relacionados a energia e mudança climática – o maior já feito pelo governo do país. O acordo, que surpreendeu alguns dos mais experientes analistas em Washington, atesta que o presidente americano segue no controle da agenda política que o levou à Casa Branca, apesar dos obstáculos à sua frente.

Outro exemplo, na mesma direção, é a lei do “chip”, que aloca US$ 52 bilhões para a produção nos EUA dos circuitos integrados que são o cerne dos sistemas eletrônicos. A medida, que foi adotada com apoio significativo de senadores republicanos, inclui bilhões em aportes para a National Science Foundation e permite a retomada de importantes investimentos em inovação que ficaram travados nos quatro anos de obscurantismo científico da era Trump. O conjunto de medidas inclui, ainda, uma popular iniciativa que autoriza o Medicare – o seguro federal de saúde, obrigatório para os maiores de 65 anos – a negociar preços de remédios com a indústria farmacêutica e baratear os medicamentos mais prescritos. E amplia a assistência médica a milhões de veteranos de guerra.

Mais: em meados de julho, Biden promulgou uma lei que dificulta a venda de armas para menores de 21 anos, num primeiro movimento, ainda tímido, na direção correta de limitação das armas de fogo num país onde já circulam cerca de 400 milhões delas – mais de uma por habitante.

Do outro lado da balança, acumulam-se más notícias para Trump. Embora siga popular em seu partido, o ex-presidente perdeu a aura de invencibilidade que continuou a cultivar depois de ser derrotado por Biden. Não foram bem os candidatos apoiados por ele nas eleições primárias realizadas em cinco Estados na terça-feira passada.

Nos últimos três meses, Trump perdeu espaço na ultraconservadora Fox News, que não o entrevistou uma única vez. Começam a surgir nas pesquisas possíveis rivais republicanos nas eleições de 2024. Um deles é o seu ex-vice-presidente, Mike Pence, que se recusou a participar da trapaça eleitoral urdida por Trump em 6 de janeiro do ano passado e proclamou a vitória de Biden no Capitólio na madrugada do dia seguinte.

A meticulosa investigação por uma comissão bipartidária da Câmara sobre o violento ataque à sede do Congresso, que o ex-presidente articulou e incentivou duas semanas antes de deixar a Casa Branca, expôs o ex-mandatário a virar réu de um processo criminal em sua alucinada tentativa de invalidar a eleição que perdeu. O episódio contém uma clara mensagem aos partidários do presidente Jair Bolsonaro e seguidores de Trump no Brasil, que conspiram para melar as eleições de outubro: Washington reagirá.

O secretário da Justiça, Merrick Garland, indicou na semana passada que considerações políticas não o impedirão de acusar formalmente Trump, se os fatos arrolados pela comissão parlamentar resultarem, como tudo indica, em provas de que o ex-presidente e seus aliados cometeram crimes ao agir para anular a eleição e a proclamação do resultado. É o que demonstraram os depoimentos de dezenas de ex-assessores e assessoras da Casa Branca na administração republicana que compareceram ante a comissão parlamentar.

A comissão continuará a tomar depoimentos em setembro e deve apresentar as suas conclusões em outubro, a tempo de produzir mais más notícias para Trump e seus aliados antes das eleições que renovarão a Câmara de Representantes e um terço do Senado em novembro.

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JORNALISTA, É PESQUISADOR SENIOR DO BRAZUL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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