Os jornais devem ser incômodos

Num mundo cada vez mais submetido à lógica de satisfazer o cliente, os espaços de pluralidade sãosão cada vez mais restritos

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2022 | 03h00

É fato conhecido, quase um lugar-comum: os jornais, quando cumprem sua tarefa, incomodam o poder. Revelam esquemas, privilégios, ineficiências e incompetências do poder público. Expõem, assim, o que muitos gostariam que ficasse escondido. Mas não é só o poder que deve se sentir incomodado com os jornais. Quando há jornalismo, os leitores também se sentem incomodados com a leitura do jornal. E isso, em vez de ser um ponto frágil, é uma das maiores contribuições que os jornais podem fazer para seus leitores e para a sociedade.

Os jornais são espaços de pluralidade. Por mais que nos identifiquemos com os valores de um jornal, há em toda edição matérias das quais discordamos, seja pelo enfoque, pelo tom, pela importância dada à notícia, pelo conteúdo em si; nos artigos de opinião, pela posição defendida.

Os jornais não conseguem expressar toda a diversidade de opiniões e perspectivas existentes numa sociedade. É uma meta a ser buscada. No entanto, de forma muito concreta e habitual, eles oferecem uma oportunidade privilegiada de contato com diferentes ideias e percepções sobre a realidade.

Eis um fenômeno interessante. A internet multiplicou os canais de expressão. Todos podem escrever, publicar ou comentar o que quiserem. No entanto, nenhum site expressa individualmente a pluralidade de perspectivas e opiniões que os jornais trazem diariamente. Há sites sobre todos os assuntos e para todos os gostos, mas são incrivelmente mais setorizados do que os veículos de imprensa.

Os jornais são um produto sofisticado. Mesmo que tenha princípios editoriais bem definidos, um bom jornal não traz uma única visão de mundo. Ou seja, os jornais não agradam inteiramente a seus clientes. Essa característica da imprensa sempre provocou mal-estar. No entanto, nos dias de hoje, com a polarização existente na sociedade, esse aspecto do jornalismo sofre ainda maior incompreensão. Há uma cultura de desprezo por tudo aquilo que confronta as ideias, convicções e sensibilidades pessoais.

Faz-se aqui uma defesa não apenas do direito de incomodar, mas do dever da imprensa de incomodar. Ao oferecer variadas perspectivas – o que significa sempre desagradar, em algum nível, a todos os leitores –, o jornal cumpre uma função social fundamental: expõe diariamente o seu público a diferentes pontos de vista e a variadas visões de mundo.

Num mundo cada vez mais submetido à lógica comercial, em que o objetivo é satisfazer o cliente, os espaços de pluralidade são cada vez mais restritos. Até mesmo as escolas e as universidades, que foram historicamente âmbitos de contato com outras percepções e sensibilidades além da perspectiva familiar, não raro oferecem hoje em dia a seus alunos apenas uma monocromia cultural e ideológica.

Obviamente, o pluralismo não significa negar a existência de verdades objetivas. A Terra é redonda. As leis da física funcionam: prédios construídos seguindo as regras da engenharia não caem. As vacinas salvam vidas. Também não significa transigir com os valores cívicos e éticos com os quais cada meio de comunicação se identifica.

No entanto, não há sociedade livre, nem regime democrático, se a percepção dos temas públicos é monolítica, formada a partir de uma única perspectiva. Isso vale para as questões envolvendo o Estado – por exemplo, decisões contramajoritárias do Supremo, silêncios do Congresso sobre determinadas causas, políticas tributárias e programas sociais –, bem como para aqueles temas de fundo sempre presentes em uma sociedade – por exemplo, formação das novas gerações, desigualdades sociais, raciais e de gênero, liberdade de expressão, estatuto social e jurídico das famílias, representação política das minorias, laicidade do poder público e proteção do meio ambiente.

Não cabe a um jornal, sob o pretexto de não desagradar a seus leitores, ignorar as diferentes possibilidades de percepção. Atuar assim seria abdicar do jornalismo. Há sempre várias perspectivas possíveis a respeito de um tema – e olhá-las com respeito, procurando entender o seu contexto, é parte desse processo de apreensão e compreensão da realidade.

Por isso, a pluralidade de um jornal não é, não deve ser, mera tática, para obter uma imagem de imparcialidade. Trata-se de algo mais profundo: é consequência direta da convicção de que reportar os fatos com rigor – a essência do jornalismo – exige sempre confrontar e expor várias perspectivas. A realidade não é uma equação matemática: os fatos humanos, sociais e políticos são necessariamente complexos, multifacetados.

Ao incomodar o leitor com pontos de vista diferentes dos seus, o jornalismo lembra – de modo similar ao que faz a arte, em suas várias expressões – que a perspectiva individual é necessariamente limitada. O mundo é muito mais amplo e interessante.

Talvez esta seja uma das principais carências dos tempos atuais: a dificuldade de olhar sob a perspectiva do outro, de escutar uma opinião divergente, de apreender uma percepção política distinta. Nesse cenário, o incômodo do jornalismo é ainda mais relevante e necessário.

ADVOGADO E JORNALISTA

 

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