Os militares e a próxima eleição presidencial

Ainda há tempo de buscar medidas para evitar a concretização dos delírios do capitão

Antonio Carlos Will Ludwig, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 03h00

A invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, por um grupo de fanáticos chefiado por Donald Trump estimulou analistas políticos a escreverem sobre a possibilidade de uma ocorrência parecida em nosso país caso o atual presidente da República perca as eleições em 2022, haja vista a semelhança política dele com o ex-governante estadunidense. Trump fracassou em seu intento golpista porque não contou com o respaldo dos militares norte-americanos, uma vez que estes são árduos defensores da democracia.

Os alertas emitidos servem muito bem para evitarmos que o desvairado comandante da Nação venha a praticar um perigoso ato similar na próxima eleição. Tal como pode ser visto, uma condição necessária para concretizá-lo diz respeito à existência de uma massa populacional disposta a obedecer prontamente às ordens do líder. Para alcançar o objetivo almejado, porém, é imprescindível contar com outra condição mais importante, ou seja, uma homogênea sustentação das Forças Armadas.

Muitos sabem que o capitão presidente, desde que tomou posse, demonstra ter por metas principais concretizar um projeto autoritário de governo, aproveitar-se do status de seu cargo para tentar barrar as ameaças da Justiça sobre ele e sua família e obter um novo mandato na próxima eleição presidencial.

Quanto à primeira meta, ele já se valeu de diversos expedientes: uso das redes sociais para disseminar notícias falsas e atacar adversários e instituições, criação e empenho do “gabinete do ódio”, escolha de pessoas de perfil direitista para ocupar cargos no governo, distanciamento das Casas Legislativas, exibição da conduta de culto à violência e às armas, ameaças aos meios de comunicação, desmantelamento de conselhos sociais e incentivo às manifestações grupais apoiadoras de suas ações doidivanas.

O recurso mais perigoso escolhido diz respeito à liberalização das armas de fogo. O primeiro documento relativo a ela tratou da aquisição pelos donos de comércio, indústrias e habitantes urbanos. Outro se voltou para a autorização de seu porte a diversas categorias profissionais. Um terceiro se destinou ao aumento de munição por arma e um quarto incidiu em zerar a alíquota de importação de revólveres. Uma das medidas mais polêmicas foi a que revogou três portarias do Exército relativas ao controle de armas e munições.

É muito preocupante também sua conduta de aproximação a policiais. Começou com a greve no Ceará. Seguiu com o oferecimento de cargos no governo, a proposta de desconto na compra de alimentos, o discurso a soldados asseverando que a imprensa sempre estará contra eles e a proposta referente à criação da patente de general para as Polícias Militares, rejeitada nas Forças Armadas, e de um conselho nacional da polícia civil, criticada por juristas renomados.

Outro expediente empregado é pertinente aos agrados às Forças Armadas. A esse respeito podem ser citados a reestruturação da carreira militar, a verba extra para o Ministério da Defesa, o incentivo à construção de submarinos e o discurso contra o sucateamento dos estabelecimentos bélicos. Sua indigência intelectual insta levá-lo a supor que tais deferências à área castrense são capazes de angariar o apoio dos colegas da ativa às pretensões políticas antidemocráticas que continua nutrindo. Deve acalentar também a provável e insana expectativa de obter o respaldo deles no momento reservado ao pronunciamento da falsa denúncia sobre a inexistência de lisura na próxima eleição presidencial e na hora de encorajar a néscia população armada e os incautos policiais a se rebelarem contra um possível resultado desfavorável.

Mas, tal como ocorreu com Trump, os militares brasileiros tampouco lhe prestarão o socorro almejado. Ocorrências do passado, tais como as Diretas-já, os comandos civis no Ministério da Defesa, a convivência com partidos de centro-esquerda, a atuação da Comissão Nacional da Verdade e, principalmente, a perda de prestígio perante a sociedade, o qual já foi recuperado, contribuíram para a transformação da conduta militar e a manutenção do respeito à democracia.

Acontecimentos mais próximos tendem a mostrar que os servidores fardados, acertadamente, querem dele se distanciar. Vale citar as críticas às suas aparições defronte a um quartel durante manifestações, a impassividade em face das ameaças dele e de seus áulicos aos Poderes constituídos, a fala referente às Forças Armadas como instituições do Estado e a pressão pela saída do ministro da Saúde. Deduz-se, então, que excluso o impeachment ele não deverá contar com o apoio dos estabelecimentos bélicos, mas poderá vir a utilizar o avilanado povo armado e os obtusos policiais para tentar alcançar seu intento.

Há, contudo, bastante tempo ainda para buscar medidas preventivas no sentido de evitar a provável concretização de seu delirioso ato e garantir a celebração da democracia.


PROFESSOR APOSENTADO DA ACADEMIA DA FORÇA AÉREA, É AUTOR DE ‘DEMOCRACIA E ENSINO MILITAR’ (CORTEZ) E ‘A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E A FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA’ (PONTES)

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