Os símbolos de um país sem rumo

Quando algum acidente tira a essência e o brilho próprios de fatos e empreendimentos transformadores, cai todo o arcabouço.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2022 | 03h00

Vivemos num país que não tem pena de morte. Nenhum juiz pode sentenciar à morte sequer o criminoso mais perverso, mesmo com base num minucioso processo que demonstre a sanha da perversão.

O “direito de matar”, porém, parece reservado à polícia. Sim, pois na realidade assim é, como se demonstrou na recente execução de Genivaldo de Jesus Santos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Sergipe. Estarrecidos, vimos até a cena do assassinato, transmitida pela televisão: algemado, ele é colocado no porta-malas da viatura policial e esperneia, tentando livrar-se do suplício, pois os policiais acionam o gás lá contido e ele sente a asfixia. Logo, morre asfixiado, como se as câmaras de gás dos campos de extermínio nazistas se reimplantassem no Brasil.

Indaga-se: que crime abominável cometeu Genivaldo de Jesus para ser algemado e tratado daquela forma pela Polícia Rodoviária, que vigia as estradas?

Ele foi interceptado por ser motociclista sem capacete de proteção na rodovia. Por não se autoproteger, foi levado à morte pela polícia...

Nos dias seguintes, no interior de Goiás, o presidente da República tampouco usou capacete numa de suas “motociatas”, em que busca popularizar-se. Viu-se que a Polícia Rodoviária esteve ausente, pois nem sequer lhe ofereceu um capacete de proteção...

O mais estranho, porém, foi a reação inicial dos dirigentes da Polícia Rodoviária Federal, que – de fato – justificaram a ação dos policiais alegando que a vítima oferecera “resistência”. Só mais tarde, após o crime repercutir pelo País, a PRF disse em nota que a ação contrariava as normas da corporação.

Os absurdos vão adiante, porém, capitaneados pelo próprio presidente da República. Em suas habituais extravagâncias, Bolsonaro pediu que não houvesse “excesso de justiça” nos julgamentos dessa execução ou da operação policial na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, onde 23 moradores morreram. O que seria “excesso de justiça”? – eis a indagação que desafia entender o que é justo ou injusto.

De um lado, o assassinato do humilde sergipano (que sofria de esquizofrenia e, assim, discernia com dificuldade entre certo e errado) faz dele uma vítima-símbolo da violência policial.

De outro lado, porém, há fatos e empreendimentos que são tão transformadores em si que passam a ser símbolos positivos. Em qualquer caso, quando algum acidente tira deles a essência e o brilho próprios, cai todo o arcabouço.

No Brasil, este é (ou foi) o caso da Petrobras, símbolo de nosso dinamismo e criatividade. Sim, pois a Petrobras foi tal qual a bandeira como símbolo pátrio. Já nasceu lutando, numa batalha por nossa independência. “O petróleo é nosso” foi, nos anos 1940-1950, o lema de um combate verbal diuturno que levou à prisão milhares de brasileiros, numa campanha pela libertação econômica do País, mas que o tacanho conservadorismo no poder tachava de “agitação comunista”.

A luta por “o petróleo é nosso” só se materializou com a criação da Petrobras, em 1953, no governo Vargas. Na época, o petróleo significava a emancipação econômico-social, e tomamos a empresa como a alforria do povo e da Nação.

A Petrobras tornou-se a maior empresa do País e da América Latina, distante da politicalha partidária. Com isso, chegou ao descobrimento do pré-sal. Empresa pública sob domínio do governo federal com minoritário capital privado, foi tratada respeitosamente até nos anos da ditadura militar, quando o poder se exercia de cima para baixo, autoritariamente.

A Petrobras fez-se símbolo ao ter administrações estáveis que, pela continuidade, planejavam e implantavam ações. Resistiu até mesmo aos governos do PT, com Lula da Silva presidente da República, quando a corrupção foi implantada na empresa como forma de “comprar” a chamada “base aliada” para obter maioria no Parlamento. Em verdade, era “base alugada” sustentada pelo dinheiro roubado da Petrobras.

Há pouco, Bolsonaro indicou o quarto presidente da Petrobras em três anos e meio do atual governo, interrompendo uma gestão que recém se preparava para agir. Dessa forma, quebrou a continuidade administrativa da empresa num momento de crise mundial, em que o preço internacional do petróleo aumenta dia após dia, puxado pela invasão da Rússia à Ucrânia.

E tudo numa tentativa de reduzir o preço do combustível ao público, como diz o próprio Bolsonaro. O futuro novo presidente da empresa é secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia, mas nunca atuou na área de petróleo.

Os especialistas não o veem apto a (num passe de mágica) “baixar o preço dos combustíveis”, que levou Bolsonaro a indicá-lo para a Petrobras. O alto preço atual da gasolina e do diesel está atrelado à desvalorização do real ante o dólar.

No fundo, tudo se deve ao fantasma da inflação, visível no aumento de preços dos bens essenciais. Mas isso, por acaso, não é, também, um símbolo da confusa administração federal?

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB 

 

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