Os três cavalos da agenda ambiental

A carroça do aspecto ambiental da ESG precisa ser puxada por oferta, demanda e governo. Só a oferta não a fará sair do lugar.

Marcelo Guterman, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2022 | 03h00

A agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) invadiu e tomou conta definitivamente do mundo dos investimentos. A ideia por trás é simples: se queremos um mundo melhor sob esses aspectos, nada mais efetivo do que abordar o financiamento das atividades econômicas que eventualmente geram agressões nesses âmbitos.

Uma crítica que se faz à agenda ESG são os custos de sua implementação, que deixariam as empresas que a adotam em desvantagem competitiva em relação àquelas que não a adotam. A alegação de que, no longo prazo, empresas com agenda ESG tendem a gerar retornos superiores ainda carece de comprovação empírica. No entanto, quando se trata de crime, empresas adotam a agenda ESG mesmo que isso signifique perder competitividade. Por exemplo, empresas sérias não embarcam em esquemas de corrupção, ainda que isso lhes dê vantagem competitiva. E investidores sérios não investem em empresas que se envolvem em corrupção, ainda que isso possa gerar menores retornos no curto prazo. Esse é somente um exemplo de como a agenda ESG pode ser adotada mesmo com o sacrifício consciente do retorno. Aliás, aqui estamos falando de gestão de risco: uma empresa que corrompe está correndo mais risco do que uma que não corrompe. Nesse sentido, a agenda ESG tem racionalidade, na medida em que o investidor escolhe empresas com eventual menor retorno de curto prazo, mas que têm menor risco de apresentar retornos negativos no longo prazo.

Se o caso é claro para crimes, o cenário torna-se mais nebuloso quando passamos a considerar o aspecto ambiental da ESG. Ainda que existam crimes ambientais tipificados, o mesmo não ocorre com as ações relacionadas com as chamadas mudanças climáticas. Não é crime (ainda) queimar combustíveis fósseis. Portanto, a discussão em torno da chamada pegada de carbono das empresas depende, basicamente, da boa vontade dos investidores. E, neste caso, o risco percebido ainda não é suficientemente alto para levar investidores racionais a deixar de investir em empresas que geram, direta ou indiretamente, gases de efeito estufa, renunciando a retornos de curto prazo em troca de um risco menor no longo prazo.

Há três atores envolvidos neste processo: 1) a oferta, que supre produtos que, direta ou indiretamente, geram gases de efeito estufa; 2) a demanda, que consome esses produtos; e 3) o governo, que regula o mercado. O problema está no foco exclusivo na oferta. As empresas são chamadas a assumir a sua responsabilidade pelo futuro do planeta por investidores cada vez mais conscientes. No entanto, continua existindo demanda por produtos que agravam o problema das mudanças climáticas. Os consumidores não estão dispostos a renunciar a seu conforto a preços módicos. Ar-condicionado e calefação são dois imperativos que continuam demandando energia elétrica de fontes não intermitentes. Geladeiras não podem depender do bom humor do sol. E assim por diante. Para alimentar e dar um mínimo de conforto a 8 bilhões de almas, o bom e velho combustível fóssil ainda é insubstituível.

É claro que avanços tecnológicos estão sendo encaminhados para que esse quadro mude. Não passa um dia sem que tenhamos notícia de como estamos às portas da fusão nuclear ou do hidrogênio verde. O fato é que, quando de verdade tivermos uma fonte de energia tão barata e confiável quanto o combustível fóssil, as cúpulas do clima, com todas as suas promessas, serão dispensáveis, pois o próprio mercado se encarregará de fazer a substituição.

Se a demanda está aí, intacta, alguém vai providenciar a oferta. Nesse sentido, a revista The Economist vem batendo na tecla, já há algum tempo, de que nada adianta os investidores não comprarem ações de empresas que produzem gases de efeito estufa. Se a demanda continua existindo, essas empresas venderão seus ativos para outras empresas não listadas em bolsa, e o capital continuará financiando a atividade, agora longe do escrutínio do grande público. É neste ponto que a revista inglesa defende a entrada do terceiro ator na história: o governo.

Segundo a The Economist, os governos deveriam regulamentar o mais rapidamente possível um mercado global de carbono, de modo a tornar mais cara a produção de gases de efeito estufa. Assim, com preços mais altos, a demanda por esses produtos diminuiria, dando espaço para fontes alternativas. O problema, como diria Garrincha, é combinar com os russos. No caso, os consumidores. Aqui, no Brasil, estamos observando como o governo está procurando alternativas para reduzir os preços dos combustíveis, num movimento justamente oposto do que significaria um mercado de carbono. E o governo brasileiro não está sozinho. Ocorre que preços altos de energia são extremamente impopulares, e seria preciso um estadista para convencer seus compatriotas a abrirem mão de seu conforto hoje para terem um futuro melhor. E, como sabemos, estadistas são mercadoria em falta no mercado global.

Trata-se, portanto, de uma equação complexa, em que as empresas e os investidores têm uma influência limitada. O aspecto ambiental da agenda ESG é meritório e precisa ser fomentado. Mas essa carroça precisa ser puxada pelos cavalos da oferta, da demanda e do governo. Somente o cavalo da oferta não será suficiente para que a carroça saia do lugar.

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