País enfrenta superabundância de passado não resolvido

A Nova República vem passando pelo maior questionamento de seus 35 anos de história

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 03h00

Os muitos excessos do presente no Brasil, desde as eleições de 2018, são sintomas do que podemos chamar de superabundância de passado não resolvido. A polarização aparentemente insuperável que tem dominado o discurso político se dá em alguma medida porque o País parece ter sido incapaz de se entender não só a respeito da ditadura militar, mas também em relação à própria redemocratização.

Como toda tentativa de repetição da História, há na aventura bolsonarista, nostálgica do regime militar, um tanto de farsa. O próprio presidente Jair Bolsonaro não foi exatamente um exemplo de bom militar e seria preciso um grande esforço para vê-lo como líder de uma retomada dos ideais que moveram os generais que governaram o Brasil entre 1964 e 1985. Em tempos de pós-verdade, contudo, essa falha biográfica de Bolsonaro não tem a menor importância. A rigor, serve, ao contrário, para acrescentar-lhe traços de romântica marginalidade. 

Segundo essa farsa, Bolsonaro, quando foi preso pelo Exército em 1985 por insubordinação, ao reclamar publicamente dos salários da tropa, na verdade estava sendo punido por enfrentar uma instituição que a seus olhos, como aos de muitos de seus eleitores, estava traindo o espírito da “revolução” de 1964. Foi como líder sindical de oficiais de baixa patente que Bolsonaro afinou seu discurso contra os militares que pouco antes haviam aceitado voltar aos quartéis e devolver o poder aos civis. Em certa medida, portanto, estamos de volta não a 1964, mas a 1985, ano do restabelecimento do regime civil e democrático.

Mas os inconformados com 1985 não são apenas os bolsonaristas. É bom lembrar que naquele ano o PT proibiu seus oito parlamentares de participar do processo de escolha do presidente no colégio eleitoral e chegou a afastar os três que contrariaram a ordem e votaram em Tancredo Neves. Na visão fundamentalista petista, não era possível compactuar com o arranjo que permitiu a transição, mesmo correndo-se o risco de ver eleito presidente um político – Paulo Maluf – ligado à linha dura do regime militar. 

A transição, para os petistas, era apenas uma troca de guarda na fortaleza dos interesses do grande capital. “O que existe hoje é um grande acordo da elite dominante do País”, explicou o então presidente do PT, Luiz Inácio da Silva, o Lula. Para marcar sua posição radical, o PT recusou-se a aprovar a Constituição de 1988, por considerá-la “burguesa”. Em discurso, o constituinte Lula chegou a queixar-se de que na nova Constituição “os militares continuam intocáveis, como se fossem cidadãos de primeira classe, para, em nome da ordem e da lei, poderem repetir o que fizeram em 1964”. E completou dizendo que o PT votaria contra o texto por entender que, “mesmo havendo avanços na Constituinte, a essência do poder, a essência da propriedade privada, a essência do poder dos militares continuam intactas”.

Uma vez na Presidência, o PT manteve o discurso raivoso em relação a tudo o que veio antes, denunciando uma “herança maldita” que deveria ser superada. Invocando-se o papel de líder exclusivo dos anseios populares, o PT recusou-se terminantemente a colaborar com os governos pós-ditadura e, uma vez no poder, rejeitou dividi-lo mesmo à esquerda. Preferiu a cooptação corrupta à cooperação democrática, movido por sua desconfiança atávica das “elites”. O impeachment da presidente Dilma Rousseff e a prisão de Lula só reforçaram a retórica petista segundo a qual essas “elites” continuam a controlar os destinos do País.

É nesse ponto que o petismo e o bolsonarismo se encontram: no desconforto sobre o desfecho do regime militar. Para os bolsonaristas, a Nova República serviu para franquear a máquina estatal a parasitas do dinheiro público e a minorias moralmente abjetas, alimentando saudades da ditadura, supostamente incorruptível e a salvo da perversão comunista. Para os petistas, a Nova República foi o modo que as elites encontraram para proteger seu modelo hegemônico das demandas crescentes de inclusão social e participação política desde os estertores da ditadura.

Se a Nova República em vários aspectos foi positiva — propiciou o controle da inflação, construiu um sistema de freios e contrapesos que bem ou mal funciona e sobreviveu a testes de estresse com a destituição de dois presidentes —, por outro lado pouco fez para acabar com privilégios da corte estatal, minou a credibilidade da política com um sistema de representação e de governança que convida à corrupção e fracassou na redução da nossa brutal desigualdade. Com isso temos uma classe média que mal se identifica com a política e se sente injustiçada. E temos também um imenso contingente de pobres dependentes de caraminguás do Estado, condenados a uma permanente subalternidade.

A Nova República, com suas promessas democráticas e espírito conciliador, vem passando pelo maior questionamento de suas quase quatro décadas de história. O que sairá disso depende em grande medida da vontade do País de se entender sobre o que afinal quer da democracia.

JORNALISTA E HISTORIADOR

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