Pálidos apocalipses

Num país onde só os boçalistas falam alto, a esquerda balbucia ‘Lula livre’

Eugênio Bucci*, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2019 | 03h00

Cena 1. Dúvidas no lugar da fé. Ainda é cedo para saber se o papa Francisco terá sido o Gorbachev do Vaticano. Ainda é cedo para saber se o atual pontífice, em nome de purificá-lo, não vai ferir de morte o organismo que o destino o encarregou de conduzir. O líder soviético de nome Mikhail Gorbachev fez algo assim quando escancarou os males do stalinismo com suas glasnost e perestroika. Inadvertidamente, ou mesmo de propósito, abriu chagas que mataram de hemorragia o império comunista. Talvez Gorbachev estivesse certo. Talvez não houvesse nada ali para preservar. Ou talvez estivesse errado. Não sabemos ainda. Sabemos apenas que o legado de Lenin se estilhaçou no dia em que um líder se prontificou a exorcizá-lo de seus defeitos mais atrozes. E quanto ao Vaticano? Estará o papa Francisco entregue à mesma sina? Suas tentativas – tíbias – de punir prelados pedófilos trará mais fraqueza do que força para a sua igreja? Há católicos, deveras conservadores, que temem esse desfecho. Não o declaram, porém. Ainda é cedo para saber. A incerteza cala fundo.

Cena 2. Dia desses, coisa de um mês atrás, o ministro da Justiça, Sergio Moro, deu de comparecer ao um estádio de futebol em Brasília. Na tribuna, ao lado do presidente da República, ficou de pé e vestiu uma camisa do Flamengo sobre seu uniforme social de autoridade pública. Moro esboçou um sorrisinho. Populares logo abaixo aplaudiram. Festejos futebolísticos. Por um instante, ou mesmo dois, soou ali um fundo musical inaudível, mas real. Era possível pressentir a voz de Jorge Benjor, uma voz antiga, ainda do tempo em que Jorge Benjor era apenas Jorge Ben, interpretando a música País Tropical. Mas há uma mudança de sentido. Agora, na letra, o verbo morar, de “moro num patropi”, soa como sobrenome: “Moro num patropi”. A canção que celebrava a malandragem e zombava da oficialidade se inverte por inteiro. O ministro e seu poder se entronizam no estádio de futebol, enquanto os “camaradinhas” de Jorge Ben, sem “jor”, talvez ouçam a canção com travos de desconfiança.

Cena 3. Agora é Maracanã. Maracanã na veia. Não faz nem duas semanas. Final de jogo. Brasil campeão da Copa América. O chefe de Estado se escarrapacha no gramado, segura a taça com as duas mãos, emoldurado pelo escrete canarinho em peso, aos gritos, em júbilo. Repórteres presentes registraram ter ouvido vozes, de jogadores ou de gente da comissão técnica, chamando o governante de “mito”. No chocante e inaudito congraçamento entre o ludopédio bilionário e o bonapartismo da era digital, algo de uma explicitude obscena, em que o suor dos atletas manchava o terno do presidente, outra pérola do cancioneiro ecoou – imaginariamente – e, de novo, com os sinais invertidos. Há décadas e décadas Chico Buarque entoava o verso “minha cabeça rolado no Maracanã” e ia por aí. “Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela/ Eu achei que era ela puxando o cordão”. Naquelas eras, deveras priscas, tinha havido uma campanha de rua, com passeatas e comícios, pedindo eleições diretas para presidente da República. A cor símbolo da campanha era o amarelo. Era amarelo pelas diretas. Era amarelo contra a ditadura militar. O tempo passou, o tempo rolou pelas estribeiras e o amarelo mudou de lado, veja você.

Cena 4. Evocações de outro naipe ao conservadorismo católico supramencionado. Tradicionalistas apostólicos romanos se deixam empolgar com o novo governo. Um ajeita o nó da gravata amarronzada e sedosa enquanto posa para o fotógrafo do jornal. Paredes de lambri. Uma fagulha nos olhos. Ou mesmo duas. Ele crê, pois crer é da essência do ser, que o poder estabelecido no Planalto vai propulsionar os valores que contam: casamento, família, castidade, sem aborto, sem socialismo, sem modernices. Em seu êxtase – meio místico, meio político –, ele não nota que o trio elétrico do tele-evangelismo neopentecostalíssimo atropela, como tanque de guerra, os umbrais de Pedro. O neofascismo alegadamente cristão vai reduzir os templos católicos a peças de museu – e vai glorificar as frenéticas marchas bíblico-carnavalescas e seus pregadores trilhardários. Mirando a lente do fotógrafo, o conservador apostólico romano tenta sorrir, mas não acerta.

Cena 5. Esquerda sem discurso. A trajetória do socialismo em terras brasileiras descreve um arco prosódico, pontuado de tiros aqui e ali. A esquerda fala. Sempre foi assim. Deu-se, contudo, esse mutismo, essa consternação silente e acabrunhada. Qual a proposta dos partidos de esquerda para a reforma da Previdência? Ninguém foi informado. Votaram contra por quê? Ninguém entendeu. Mutismo não é de esquerda. Esquerda apática não é esquerda. Esquerda deprimida não é revolucionária. Esquerda intimidada pela euforia do boçalismo é a negação da negação da negação de Rosa Luxemburgo. Num país em que só os boçalistas falam, só os boçalistas falam alto, a esquerda balbucia “Lula livre”. Quem sabe ele saiba o que dizer.

Cena 6. Mais um presságio musical. Uma vez, os compositores Diogo Mulero, conhecido por Palmeira, e Zairo Marinoso de Carvalho entregaram ao cantor Francisco Petrônio o Baile da Saudade. Quando o século 20 ainda era sinônimo de futurismo, a valsa embalou casais de cabelos tingidos em salões que, só por isso, acabaram merecendo uma segunda chance sobre a Terra. A letra idealizava os tempos idos: “Ai que saudade eu tenho dos bailes de outrora”. Os brucutus que hoje governam também têm saudades de bailes de outrora. “America great again”, diz Donald Trump. Great como antigamente. Vai aí mais um traço de fascismo: a ideia fixa de ressuscitar um passado mítico que jamais existiu de fato. Em seu Baile, Francisco Petrônio cantava que tinha “saudade das varandas e dos coronéis”. O boçalismo que aí está tem nostalgia do coronelismo e já toma providências para restaurá-lo, com as milícias e outras armas.

*JORNALISTA, É PROFESSORDA ECA-USP

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