Pandemia e a volta às aulas

Vamos reabrir as escolas? Vaciná-las contra a ineficiência? Fazê-las funcionar?

João Batista Araujo e Oliveira, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 03h00

Volta às aulas, o que dizem as evidências? No que se refere a riscos de contaminação pelo novo coronavírus, as evidências dizem que as escolas vêm funcionando com diferentes graus de normalidade em número significativo de países, em vários deles as creches nunca fecharam e são relativamente poucos os casos de contaminação e pouquíssimos entre crianças menores.

Há poucos estudos robustos e muitas conclusões apressadas sobre prejuízos à aprendizagem, mas, de modo geral, é de esperar algum atraso em relação ao que os alunos da mesma série sabiam em anos anteriores, principalmente no caso dos grupos mais desfavorecidos. No Brasil, onde os avanços a cada ano são ínfimos, as perdas não deverão ser tão desastrosas. Maior é o risco de deserção escolar.

As autoridades brasileiras relutam em reabrir as escolas. Privilegiam a abertura de bares, boates e shoppings. Os políticos sabem que a população não confia muito que as escolas vão oferecer um ambiente seguro. Mas em algum momento as escolas deverão reabrir. O que esperar? Que lições tirar da pandemia?

Esses temas povoam inúmeras publicações científicas. O gestor público não pode esperar pelos resultados, que nunca serão definitivos ou livres de controvérsias e contestações – é assim que a ciência avança. O que fazer? O que esperar na volta às aulas?

Tendo acompanhado de perto o que vem acontecendo mundo afora, e em dezenas de municípios do Brasil, arrisco-me a levantar algumas questões e apresentar algumas sugestões, em forma de desafios.

O primeiro deles é o de reabrir as escolas. Protocolos são conhecidos. No País há várias experiências de escolas que já vêm funcionando. Não há mistério. É pegar e fazer. Ou largar. Ou adiar.

O segundo é decidir o que fazer. Há municípios em que houve um trabalho sistemático de apoio às famílias e aos alunos e uma interação bastante vigorosa via redes sociais. Aí não haverá surpresas – os professores têm uma noção bastante clara de onde se encontram os seus alunos. Parecem sensatas duas iniciativas: a primeira seria promover formalmente os alunos à série seguinte. A segunda, manter os alunos, especialmente os menores, com os mesmos professores. De um lado, isso premia os docentes que se dedicaram mais e terão menos trabalho de recuperação. De outro, torna o retorno mais familiar aos alunos, o que é especialmente relevante dado o risco de novas interrupções.

Diagnosticar os conhecimentos dos alunos nos primeiros dias, após uma adequada acolhida, pode ser uma boa medida. Mas a eficácia do diagnóstico requer o uso de instrumentos confiáveis e referenciados a um currículo robusto. Aqui entramos no terreno das fragilidades e do risco do formalismo e da volta à mesmice. A pandemia não eliminou os graves problemas de entendimento do que seja e de como fazer educação de qualidade.

O próximo desafio é decidir o que fazer, em que se concentrar, por onde começar. A pletora de pareceres e resoluções eivadas da verborragia característica dos conselhos de educação já começa a poluir o horizonte. Nada disso ajuda. Tampouco ajudam iniciativas que propõem “enfatizar os conteúdos essenciais de todas as disciplinas”. Essa é a receita mais equivocada e, no entanto, a mais difundida. Em situações de potencial perda, como a que vivemos, o mais sensato é focar nas disciplinas essenciais, Língua Portuguesa e Matemática, e se houver fôlego, nas Ciências. E nelas cumprir todo o currículo.

E aqui justamente pode residir a grande oportunidade de reforma educacional pós-pandemia: focar na alfabetização. Quem mais perdeu com a pandemia foram os alunos que não conseguem ler e escrever sozinhos. Isso inclui metade ou mais dos alunos das séries iniciais, sem contar as crianças do pré-escolar. O segundo grupo é o daqueles que nunca adquiriram fluência de leitura e hábitos de estudo independente – e aqui se inclui um contingente expressivo de alunos de todos os níveis.

Nunca na História moderna a sociedade teve oportunidade de reavaliar as funções da escola. A função de custódia – cuidar das crianças para os pais poderem trabalhar – sempre foi uma delas, e agora será mais valorizada. A função de formar “aprendizes autônomos” e pessoas com hábitos de estudo, que sempre esteve no papel, agora precisa deixar de ser letra morta.

A escola, como espaço seguro e controlado para formar e manter relacionamentos saudáveis, também deverá ser olhada com maior atenção – basta ver que a falta dos colegas é uma das maiores reclamações deste período, especialmente entre os jovens. A escola que não opera sozinha, mas depende de uma fecunda e respeitosa colaboração com os pais.

Quantos fundamentos a serem valorizados e repensados! Mas, antes de tudo, cabe à escola cumprir o seu papel principal de ensinar e promover a aprendizagem do que a sociedade considera relevante.

Para além da “reinvenção” e do eterno mito da “cura pela tecnologia”, este é o grande momento de a escola dizer efetivamente a que veio. Vamos reabrir as escolas? Vaciná-las contra a ineficiência? Vamos fazê-las funcionar?


PRESIDENTE DO INSTITUTO ALFA E BETO


 

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